terça-feira, maio 27, 2008
recife, a tsunami brasileira
sexta-feira, maio 23, 2008
segunda-feira, maio 19, 2008
o tempo deliqüescente
Os aquários, grandes e pequenos, redondos e cúbicos, eram colocados na rua para atrair os curiosos. Entre os turistas e as crianças ansiosas, sem falar das senhoras que colecionavam variedades exóticas (550 fr. pièce), encontravam-se esses aquários, ao sol, verdadeiros cubos ou esferas de água que o sol misturava com o ar, e os pássaros cor-de-rosa e negros, girando e dançando docemente numa pequena porção de ar, lentos pássaros frios.
(...) E nós pensávamos nessa coisa incrível que havíamos lido, que um peixe sozinho no seu aquário se entristece e, então, basta colocar um espelho em frente do vidro e o peixe volta a ficar contente..."
O jogo da amarelinha, Julio Cortázar
quarta-feira, maio 14, 2008
um marco do incômodo
Na ocasião da primeira vitória de Lula como candidato à presidência, lembro a euforia que tomou conta de todos aqueles que, de algum modo, mesmo que timidamente, militaram em sua campanha. Eu, no auge do meu entusiasmo político, compartilhava com muitos a expectativa de ter um governo federal composto por muitas das figuras que admirávamos e que tinham se tornado referências por se destacarem como políticos que, de certo modo, pareciam compartilhar conosco muitas posturas – e por nós refiro-me aqui principalmente ao meio estudantil, ponto a partir de onde vivenciei tudo na época. Era animador, por exemplo, ter figuras como a de Cristóvam Buarque - que em 2002 participou da abertura da Estatuinte da UPE e que tão bem havia falado, na ocasião, das ansiedades e desejos da comunidade acadêmica – no Ministério da Educação. Enfim, essa figura que, na ocasião da estatuinte, falava conosco contra eles, iria agora estar lá – ou pelo menos foi assim que eu, ingenuamente, recebi a divulgação desse e de muitos outros nomes que iriam compor os ministérios.
Sem dúvida, no auge da “esperança”, quase tudo aparecia como indício de que uma oportunidade histórica de fato se confirmava. E ao lado desses nomes, muitos já conhecidos, foi a figura de Marina Silva quem melhor personificou para mim esse entusiasmo. Ex-seringueira, alfabetizou-se no Mobral, fez supletivo e entrou para a Universidade Federal do Acre, onde cursou história. Aproximou-se do marxismo e, engajada em movimentos políticos na região norte, onde lutou ao lado de Chico Mendes pela defesa da Amazônia, participou da fundação do PT e da CUT, na década de
No entanto, não só em relação ao meio ambiente como em praticamente todos os outros pontos, o governo Lula demonstrou ser bem menos transformador do que a ingenuidade política me faria crer, e foi ainda a figura de Marina quem simbolicamente indicou para onde o embate de forças desse “governo em disputa” – jargão que se tornou comum na época e que, não raramente, servia inclusive para que a militância mais fiel justificasse as crescentes e lamentáveis “concessões” realizadas – pendia com mais força. Marina Silva manifestou-se de forma crítica e combativa em diversas disputas relacionadas ao meio ambiente, como no caso da construção de hidrelétricas e de Angra 3, nas questões dos transgênicos e dos biocombustíveis - para citar apenas alguns dos pontos que foram pauta nestes anos - e, na maior parte das vezes, foi solenemente ignorada, quando não publicamente advertida.
quinta-feira, abril 17, 2008
é mambo!
Eu tô que nem Cabíria no night club!
sexta-feira, abril 11, 2008
contra a corrente (?)
Slavoj Zizek
terça-feira, abril 08, 2008
ill wind
Let me rest today
You're blowin' me no good
No good
Go, ill wind, go away
Skies are oh so gray
Around my neighborhood
And that's no good
You're only misleading
The sunshine I'm needing
Ain't that a shame
It's so hard to keep up
With troubles that creep up
From out of nowhere
When love's to blame
So, ill wind, blow away
Let me rest today
You're blowin' me no good
No good
segunda-feira, março 31, 2008
noves fora
Bom, devo dizer que, por enquanto, eu muito feliz com os saldos.
***
Continuam valendo aqueles versos da música de Tom Zé:
"quanto maior o romantismo,
mais cruel se transfigura o carinho em tortura".
Pois é. Se for pra aderir a certos romantismos que existem por aí, prefiro ser uma pedra. De qualquer forma decidi, afinal, que não sou um insensível. Depois de quase ser convencido do contrário, continuo por fim acreditando que sou sim, de alguma forma, muito romântico e idealista, mas de um romantismo secreto - desajeitado, talvez -, que não se derrete em palavras e gestos grandiloqüentes, apressados (e quase sempre muito suspeitos). A questão é que até que algo realmente valha a pena, essa delicadeza eu vou guardando pra mim.
***
Para ouvir:
The warning (2006), do Hot chip
quinta-feira, março 20, 2008
trouble every day
Pra começar, esse que faz tempo eu estava procurando: Trouble every day, de Claire Denis. Em uma sinopse bem pobre, algo como um filme sobre pessoas com um desejo sexual incontrolável que devoram(!) os seus parceiros em atos canibalísticos. Fiquei besta! Sem maiores comentários...


P.S. E só agora me liguei que, justamente na semana santa, tanta carne, sangue e sexo! Eu juro que não foi provocação. :p
sexta-feira, março 14, 2008
o jogo
Há um momento muito bonito no filme Dançando no escuro. Selma Jezkova, depois de ser advertida por causa de mais uma das muitas trapalhadas cometidas por ela na fábrica enquanto submergia num universo de fantasias e pensamentos muito próprios – o que acontecia sempre – diz com aquela cara de cachorrinho que só Bjork sabe fazer: “eu tinha decidido parar de sonhar acordada... mas depois... eu esqueci”.
Acho que no fim das contas a gente sempre precisa sonhar, de um jeito ou de outro, e nisso está muito da nossa beleza. O problema é que, como diria Mari, quando algo assim foge do controle, a gente fica muito – cerebral. Não no sentido de privilegiar o racional – nada menos racional do que isso! - mas é que a gente vai se fechando em torno de pensamentos e divagações e vai ficando cada vez mais retraído, mais imerso. E, além disso, sempre se corre o risco de começar a achar que a vida paralela que a gente inventa é melhor que “a outra” – pelo menos as pessoas são melhorzinhas, e assim machuca menos.
terça-feira, março 04, 2008
quando a imagem é demais
Já há algum tempo, os noticiários foram tomados pelas imagens de Ingrid Betancourt no cativeiro, supostamente filmadas em outubro do ano passado e veiculadas com o intuito de atestar sua existência, provando que ela ainda está viva. Mal acompanhando os noticiários nestes últimos tempos, na ocasião eu as vejo com freqüência - dada a forma exaustiva com que foram divulgadas - e quando isto acontece, sou tomado por certo incômodo: entendo que preciso inteirar-me do que acontece, formar opiniões a respeito, e que ali está posto algo muito sério que merece uma observação cautelosa e atenta. No entanto, não consigo. Não porque seja mais forte a displicência inicial com que voltei o olhar à tela antes de deparar-me com o vídeo e perceber a urgência do assunto. Mas porque, de antemão, senti que nenhum esforço para processar o que me atingia pareceria suficiente.
Algum tempo depois, já quando o tema assume uma nova forma - do problema crônico e já assimilado das guerrilhas, passando pelo reaquecimento do debate ocasionado pelas novidades nas negociações para libertação de seqüestrados, até a recentemente deflagrada crise sul-americana, cujo estopim foi a violação ao território estrangeiro do Equador pelas forças oficiais colombianas - retomo o assunto de uma forma, suponho, um pouco menos preguiçosa e irresponsável. Diante dos desdobramentos, vou aos jornais, tento ler notícias, opiniões, análises a respeito, e buscar algo que de fato me envolva ao tema e me distancie do odioso auto-glorificante acúmulo de informações. Porque não, nunca devoro atualidades apenas para me gabar de ser um sujeito bem-informado - o que, se por um lado, não é motivo de orgulho nenhum, uma vez que não são poucas as vezes em que ignoro discussões e fatos notáveis, pelo menos é uma atitude que considero um pouco mais espontânea. Nesse fluxo histérico de informações, dou-me ao luxo (e normalmente sem muito sentimento de culpa) de simplesmente dizer que não tenho condições, no momento, de opinar sobre o que se passa.
Assim, se retomo este assunto e busco inteirar-me é porque sinto que algo aqui me diz respeito: não sei bem o que, nem como, mas acredito que algo, de algum modo, me afeta. Ou melhor, eu sei: é a imagem de Ingrid Betancourt, que ficou calada dentro de mim mas não se neutralizou; falou mais alto de novo, em seu silêncio, e me causou incômodo. Não por acaso, então, voltei a ela: precisei ver de novo o vídeo, talvez buscando uma forma de me aproximar emocionalmente do assunto e assim ser menos cínico, menos enciclopédico na minha vontade de entender.
Mas ainda assim é difícil. Vendo-o, foi impossível não lembrar daquilo que li sobre a imagem traumática. O trauma, para Roland Barthes, seria aquilo que interrompe a linguagem e bloqueia a significação. No que se refere especificamente à imagem fotográfica, ele diz: “a foto-choque é, estruturalmente, insignificante: nenhum valor, nenhum saber, em última análise, nenhuma categorização verbal pode influir sobre o processo institucional da significação. Poderíamos imaginar uma espécie de lei: quanto mais direto é o trauma, mais difícil a conotação; ou ainda: o efeito ‘mitológico’ de uma fotografia é inversamente proporcional a seu efeito traumático”.
Essa idéia de bloqueio diante de uma imagem traumática, por sua vez, me fez lembrar do filme Persona: a atriz Elizabeth Vogler, internada em um hospital, assiste diante da televisão à imagem de um homem ateando fogo ao próprio corpo como forma de protesto. Diante do choque de testemunhar aquele corpo em chamas, da força das imagens e da radicalidade do protesto, a atriz, estarrecida, contempla a cena, imóvel. Diante deste horror a arte emudece, o cinema não tem meios de processá-lo, assimilá-lo, mostrando-se impotente.
É possível no entanto que a citação de Barthes esteja bastante deslocada. Porque me parece que não é o caso de ter sido bloqueada a significação; muito pelo contrário, o que se percebe é a supercodificação do visto por uma infinidade de discursos que possuem motivações políticas diversas. Assim, creio que não era exatamente sobre isso que Barthes falava. Mas tomo a liberdade para a apropriação indevida, para a des-(ou re)contextualização, como forma de expressar um pouco a dificuldade de, a despeito da espetacularização a que a imagem foi submetida, significá-la, dar conta de tudo o que ela representa.
Porque se a imagem de Ingrid em seu cativeiro choca, talvez seja isso o que a torna tão difícil de assimilar. Diante dela não há palavras, não há análises de conjuntura, não há opiniões, palpites ou arrebatamentos que abranjam o horror que ela evoca. Se, para os familiares, vê-las deve ser quase insuportável, para qualquer pessoa que por um minuto coloque-se no lugar de Ingrid ou tente enxergar nela um familiar querido (mas é exercício fadado ao fracasso, é impossível imaginar algo assim!), enfim, para pessoas que se permitam essa sensibilização, não parece exagero associar essa imagem à idéia de um trauma. Diante dela, não há sentido completo possível. A palavra seria sempre insuficiente. E a racionalização, cínica.
Arriscaria, então, dizer que estaríamos neste caso diante de algo como o Real inapreensível de que fala Slavoj Zizek, filósofo esloveno. Qualquer tentativa de assimilá-lo mostra-se quase impossível, porque o entendimento sempre se dá no nível simbólico, da linguagem. Ou, nas palavras de Zizek: este Real, “exatamente por ser real, ou seja, em razão de seu caráter traumático e excessivo, não somos capazes de integrá-lo na nossa realidade (no que sentimos como tal), e portanto somos forçados a senti-lo como um pesadelo fantástico”. E não seria isto o que eu mesmo estaria tentando fazer aqui: possibilitar a conotação, estabelecer mediações simbólicas, mitológicas para tornar a imagem de Ingrid assimilável?
O fato é que não pude ignorar, e fui à rede saber um pouco mais.
Um breve panorama na internet sobre a cobertura no Brasil nos dá uma idéia da disputa ideológica que se dá em torno dos fatos. Resumindo o estado dos argumentos de forma bem grosseira (neste caso, intencionalmente redutora, para tentar emular a grosseria com que alguns articulistas têm recortado e exposto o quadro): enquanto sistemas de mídia direitistas enfatizam aspectos como o uso da palavra guerra por Hugo Chávez como mais um mecanismo e recurso para a caracterização do presidente venezuelano como um louco paranóico e irresponsável - capaz de colocar sob ameaça todo o subcontinente latino-americano - colunistas como Emir Sader, por sua vez, jogam os holofotes sobre as ações conspiratórias do governo de Uribe na Colômbia e suas relações com o poderio norte-americano. Enquanto isso, Fidel Castro já nos informa ouvir soarem as trombetas da guerra...
Diante de tudo isso, penso com certa irritação em como muitos dados são manipulados sob a forma de opiniões anti-chavistas ou anti-estadunidenses. Penso com ainda mais irritação em como as pessoas ainda supõem, convenientemente, haver explicações fáceis para uma questão tão complexa quanto a do narcotráfico, das guerrilhas e das disputas políticas na região. O que eu não consigo sequer pensar é na existência provável de pessoas que ponderem, considerando justificável que vidas como a de Ingrid Betancourt sejam relativizadas em nome de qualquer causa bem intencionada que pretenda tornar a vida humana minimamente mais digna. Porque o que estes fatos lamentáveis denunciam é a barbárie, e para ela não existem justificativas fáceis ou antagonismos claros. Sem querer soar grandiloqüente, diria: somos todos responsáveis.
Eu, como há muito já deixei de me entusiasmar com grandes causas gloriosas e messiânicas e comecei a recusar o jogo das respostas fáceis – no qual as pessoas acreditam de modo a tornar (para o alívio de todos) o mundo mais ordenável, inteligível e explicável; eu, que aprendi a assumir que não entendo, que muitas vezes não sei o que dizer e que a experiência me transpassa (ou por vezes parece que me contorna, me dribla), apenas tento responder ao alto impacto daquilo que vejo e que, somado às mensagens lingüísticas que o acompanham, torna-se simplesmente demais, um excesso que não consigo absorver.
Sim, porque não temos somente o vídeo: temos o relato. Ingrid Betancourt não come, não tem forças, está esgotada física e emocionalmente, seus cabelos caem aos montes, seus ossos já se tornam visíveis sob a pele e acredita-se que tenha hepatite do tipo B (e a partir daí imaginamos como podem estar os outros seqüestrados, dos quais não temos muitas notícias). No vídeo, sua cabeça está sempre voltada para baixo, seus braços caídos sobre o corpo, imóveis, e seu semblante triste, muito triste e desolado(r)! São cinqüenta e cinco segundos de um silêncio pungente, indescritível, em registros feitos por uma câmera perscrutadora que vai se aproximando do rosto de Ingrid até quase o limite da distorção. E é tudo tão forte e impossível, e é tudo tão terrível que nos comove.
Para ver:
Vídeo divulgado pelas Farc com as imagens, aqui.
E para que não reste dúvidas de que perplexidade e suspeita não se confundem com omissão ou descrédito a qualquer tentativa de posicionamento político concreto, coloco também o link para um vídeo que trata das obscuras relações entre Uribe, Estados Unidos e narcotráfico. Note-se que a postura lamentável do presidente colombiano no que diz respeito às negociações para libertação dos seqüestrados torna-se ainda mais ambígua diante destas informações. Disponível em espanhol, aqui.
Para ler:
O óbvio e o obtuso, de Roland Barthes.Bem-vindo ao deserto do real, de Slavoj Zizek.
sábado, março 01, 2008
“o que te ilude é roliúde”
Todo mundo precisa de um filme bem xarope às vezes, para descolar-se da atmosfera de pensamentos difíceis que a gente respira quase todo o tempo. O problema é que sempre que vejo um filme assim, bem meloso, fico me perguntando o quanto isso inconscientemente não deve ter contribuído para me assinalar promessas que jamais serão cumpridas – digo, principalmente antes que eu começasse a ter o mínimo discernimento (ou senso de auto-proteção) capaz de me advertir a tomar cuidado e recuar de histórias que insinuem a possibilidade, em qualquer tempo e lugar dessa existência, de conseguir um reconhecimento mútuo e uma delicadeza rara que me permita ficar menos sozinho, menos desamparado nesse mundo difícil.
Pense bem: se você duvida que de fato todo o repertório de cultura midiática que a gente vem acumulando desde criancinha influencia as nossas expectativas com relação aos nossos encontros (e sobretudo desencontros) pela vida afora, imagine quantos e quantos filmes, seriados, novelas etc etc nós viemos absorvendo e armazenando na nossa cabecinha durante todos esses anos. Pense em como a crença em um amor romântico, monogâmico, sensível, cúmplice e duradouro capaz de nos acolher e proteger da nossa condição de seres avulsos não pode bem ser um resultado de narrativas culturais bem forjadas. Pense na persistência desse romantismo, mesmo que as pessoas neguem, finjam não se importar, não buscar (aliás, pense em como um certo tipo de romantismo sobrevive mesmo com tantos declarando sua morte!) e diga se não deve haver algo muito enraizado no nosso universo pessoal de sonhos.
Para isso, não cabe nem tanto considerar o momento presente com que, em maior ou menor grau, já conseguimos desenvolver um certo cinismo que (supomos) nos protegerá dessa vontade. Em vez disso, coloque-se na sua existência infantil, naquele momento de formação da sua personalidade e do seu perfil emocional que - embora correndo o risco de parecer essencialista – arriscaria dizer que se mantém relativamente constante (o que, a propósito, pode ser a origem daquela sensação terrível de que cometemos sempre os mesmos erros no quesito “relações pessoais”).
Um exemplo concreto: pense em você criancinha assistindo ao episódio do Chaves em que todos vão para Acapulco - menos ele que, tristíssimo, fica sozinho na vila. Lembre que depois Seu Barriga o convida, de modo que o episódio termina com todos felizes comendo churrasquinho na praia ao pôr-do-sol. Não há dúvida de que você é colocado no lugar do Chaves – levado a comover-se com o abandono para logo em seguida sentir-se aceito e participando da aventura na ida à praia. Este episódio do Chaves, em suma, te leva a acreditar que você será emocionalmente incluído, ao longo da vida, por um ou outro salvador - mesmo que seja um barrigudo careca. Mas creia: a verdade é que ninguém te levará a Acapulco.
O mesmo se poderia dizer da nossa adolescência quando, sentindo-nos um pouco mais espertos, consideramo-nos imunes a histórias bobas de boa vizinhança. Eis que aí é justamente quando muitos são impiedosamente arrebatados pela vontade irresistível de torcer por algum casalzinho problemático da tv: uma dobradinha tipo Dawson e Joey, pra ficar só nos mais lesos, que sempre agradam aos adeptos do bom mocismo. Memória fraca, romântico(a)? Então experimente voltar a alguns episódios daquele seriado americano que você via (se é que ainda não vê) e simplesmente mooorra de vergonha. Sim, era trash demais. Mas no seu inconsciente, não negue: você ainda quer aquilo.
Só que não acabou! Eu continuo minha explanação, afinal, a coisa é mais grave. Porque não se trata apenas daquelas histórias magníficas em que o acaso une pessoas (a propósito, alguém aí já experimentou depender do acaso? Às vezes parece que ele não chega nunca...). Nem daquelas em que a efemeridade é poeticamente vivenciada pelas partes envolvidas que, supõe-se, devem ser sempre duas - embora em alguns casos até os triângulos pareçam lindos e esteticamente excelentes (vide Os sonhadores, Jules et Jim, etc). A gente até tenta zombar um pouco, tirar onda, dizer que “três, na vida real, não é amor, é gaaaaaia!” Mas no fundo, todo mundo segue acreditando. Nem que seja um pouco.
Enfim, como dizia, a coisa é mais grave porque não é só por meio de histórias deslumbrantes que nossos sonhos afetivos são alimentados. Em Hollywood - e muito além dela, na verdade (vide os exemplos anteriores) - até os fracassos amorosos são lindos. Como no filme que vi na sessão de sábado da Globo pela quarta ou quinta vez, em um momento de desespero e ócio: O casamento do meu melhor amigo. É fato que Julia Roberts se fode, mas é tão “fofinho” como tudo se resolve com dignidade e afeto! Repito: isso é muito, muito grave. Porque a dor de cotovelo causada pelo fracasso em uma disputa amorosa gera tudo, menos sentimentos nobres.
Isso tudo posto, confesso: eu continuo assistindo, vez por outra, a filmes assim. Mas me digam: quem não continua? Quem não precisa de uma ilusãozinha a 24 frames por segundo para suportar a desolação de uma tarde ruim?
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
sabino
Passei a tomar emprestado cinco livros por semana com o Etienne - João Etienne Filho, escritor e jornalista mineiro, que me iniciou na literatura brasileira. Assumi comigo o compromisso de ler um livro por dia. Lia durante horas seguidas, em casa ou na Biblioteca Pública. E até mesmo em plena rua: andava de livro aberto diante do nariz. Volta e meia chegava com um galo na testa, porque ia lendo pelo caminho e dava com a cabeça num poste. Em Belo Horizonte havia muito poste na rua".
Fernando Sabino, O tabuleiro de damas
terça-feira, fevereiro 19, 2008
parênteses
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
overreacting
Porque a gente acha (como eu, de segunda-feira até agora) que está na iminência de fazer uma coisona - ousada e fora de protocolo - e daí planeja, hesita, decide, até que faz... E no fim das contas a outra pessoa mal detém a vista.
Mas o overreacting é algo sem fim. Porque a própria reação à não-reação alheia é desmedida, uma vez que deixa a dúvida: e agora? Seria um sinal de que é melhor deixar pra lá ou, como diz aquela música, you've gotta try a little bit harder?
Odeio as sociabilidades virtuais e suas ambigüidades...
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
notas de carnaval #2
Porque no fim das contas eu sou a contradição de uma criatura extremamente carente de seguranças de todo o tipo que, no entanto, só consegue aceitar uma vida com aventuras, que se transforme e refaça constantemente. Até acho isso bom, tenho aprendido cada vez mais a viver dessa forma meio mutante, aceitando e vendo com bons olhos o fato de que a gente muda tanto com o tempo que até as coisas mais estimadas são meio que deixadas de lado, depois.
Tem acontecido assim com Recife, que há alguns anos parecia a cidade da minha vida, e agora me faz sentir meio preso, com a sensação de que estou estagnado no meio do tempo, sendo observado pelas mesmas pessoas de sempre e que, não raramente, são chatíssimas. Acontece agora também com o carnaval daqui, que é o cúmulo de Recife: é "Recife" entre aspas, potencializada, exagerada. A beleza das pontes aumenta; a maravilha que é andar pela balbúrdia das ruas da Boa Vista aumenta; o prazer simples que é perambular pela Cidade Alta, em Olinda, aumenta, mas tudo em escala proporcional ao fedor, ao caos do transporte coletivo e à famigerada pernambucanidade, dentre outras coisas, que são levados ao limite. Tudo em Recife é demais nessa época do ano, e o carnaval daqui, na minha opinião, tem se confundido com o mesmíssimo e por vezes irritante hábito de "fazer a social".
Obviamente isso deve ser culpa minha. Será que é a falta de bebida? Provavelmente. A vida sem álcool, sobretudo por estas bandas, é de fato uma chatice e nessas ocasiões apenas uma frase me vem à mente, aquela de Erickson Luna: "a sobriedade é medíocre".
Mas não, não é isso. Provavelmente não tem nem tanto a ver com carnaval. É algo diferente, que acontece aqui uma vez que é onde estou, mas que diz respeito a outras coisas, mais amplas e difíceis. Volto a isso outro dia, que é quando pretendo falar sobre madrugadas, política, filmes e Godard. Enquanto isso, tento elaborar melhor o que incomoda e que me parece tão difícil de nomear.
Acho que perdi o jeito na vida para as coisas abstratas...
quinta-feira, janeiro 31, 2008
notas de carnaval #1
Carnaval 2008 já começou com a macaca nessa quarta-feira. Primeiro, conversa sobre dificuldades emocionais no ônibus com Mari, a caminho do Recife Antigo, além daquele transtorno maravilhoso (e já previsível) que acomete o trânsito da cidade devido aos blocos na rua e do qual eu nunca, nunca reclamo porque acho lindo que a cidade se transforme em um espaço festivo não-utilitarista onde o que é priorizado é a diversão, mais do que a pressa ou os fins de quem se desloca em seu carro.
(Embora eu veja isso sem muito romantismo, já que o carnaval mesmo há muito já está virando uma coisa meio utilitarista, que é bom porque emprega, porque movimenta a economia, porque faz bombar os lucros de empresas variadas e dá a alguns uma sensação de transgredir que é totalmente cooptada).
Enfim... Apesar de tudo, é uma força tensionadora - via hedonismo - que pode bem ser revertida em celebração sincera, carnavalização de um espaço urbano normalmente tão cinza. E pode parecer ingênuo, mas acredito que em Recife, particularmente, alguns traços de alegria desinteressada ainda subsistem em meio à teatralidade política e mercadológica que reina quase absoluta.
... Mas onde estávamos? Ah, no ônibus, com Mari, falando em alto e bom som sobre assuntos bem pessoais. Só que isso não vem ao caso, e como hoje eu descambei de vez pro estilo “meu diário” e resolvi adotar a escrita livre pra registrar impressões, vou esculhambar de vez e fazer uma versão fast foward do relato, já que estou sem tempo e sem saco.
O resto da noite foi: uns dois litros de coca consumidos (e muita lamentação por isso!); eu sendo abordado e parabenizado por algo de que realmente precisava de um retorno; a descoberta desconcertante de que pessoas ficam constrangidas com a minha presença; Eddie lembrando carnavais passados e mais uma vez prometendo ser parte importante da trilha sonora deste; e pra finalizar, um amigo de fora que estava desanimado com o carnaval, no fim de tudo, ensaiando passinhos de frevo com uma sombrinha. :p
Ah, já ia esquecendo: a maior concentração por metro quadrado que eu já vi em muito tempo de pessoas que olham pra você e fazem cara de... isso mesmo que vocês estão pensando. E eu me perguntando porque geralmente sou tão mal recebido por semi-conhecidos. Meu novo sonho: ficar me observando de longe pra ver o que eu faço que causa tamanha má impressão no povo
p.s. Os moradores da Torre estão indóceis: hoje é noite do bloco Só sai pingando que, acredito, dará a tradicional volta no Atacadão dos presentes. :p
sábado, janeiro 19, 2008
eu não morri, muito prazer
***
Ontem já havia um monte de gente enlouquecida ligando, mandando mensagens ou “acabando de entrar” no msn pra comentar sobre a festa do guaiamum treloso, hoje à noite. E pra piorar, agora, enquanto escrevo aqui, meu cunhado está na cozinha com seu radinho de pilha - que está tocando aquela do saca-saca-saca-saca-rolha (com direito a dedinho levantado e tudo!)
Ok, está declarada oficialmente a impossibilidade de continuar ignorando o carnaval. Depois, quando não resistir, tenho todo o direito de não me sentir um completo irresponsável. Não é mesmo, minha gente?
sexta-feira, janeiro 11, 2008
pura destreza
sexta-feira, janeiro 04, 2008
encruzilhada
Tropicalista lenta luta
A primeira vez em que eu postei esse trechinho do livro do Tom Zé foi em outubro de 2006. No entanto, nunca esteve tão atual pra mim - embora hoje talvez, menos maniqueísta, pense que a divisão entre essas duas partes esteja menos nítida. Ou, pior: acho cada vez mais difícil saber em que lado a covardia, onde a verdadeira transgressão...
terça-feira, janeiro 01, 2008
a forma decadente pós-réveillon
Ressaca, estados de enfermidade aguda, corpos debilitados, cara amassada, fome sem vontade de comer, - e, claro, para alguns, um certo remorso ou ressaca moral pelos exageros permitidos pela felicidade explosiva do dia anterior - tudo isso, salvo engano, não parece rimar muito com os discursos do momento exatamente anterior, com a imagem triunfante das pessoas, a aura imaculada, brilhosa e pipocante refletindo os fogos de artifício do réveillon. Chega a ser engraçado: todos esbanjando glamour, riqueza, ostentação e alto potencial de sociabilidade, como numa vinheta da Globo, para no outro dia acordar com o que provavelmente será a pior cara dos seus 365 dias de pura novidade prometidos em meio à euforia.
Entre as bolhinhas de champanhe e o chiado do sonridor no copo às vezes há apenas algumas horas.
Claro que a festa de réveillon tem sua parte bonita e interessante. Eu mesmo tive uma ótima passagem este ano com a família de uma amiga que me permitiu estar presente e compartilhar esse momento intimista de celebração caseira. Foi simples, divertido e acolhedor. Se escrevo neste tom ranzinza é porque estou em pleno dia 01 e, como para todos os outros, minhas promessas de felicidade e moderação só valem mesmo a partir de amanhã. E se a virada foi assim agradável, eu também estiquei minha comemoração um pouco mais do que deveria, chegando em casa apenas às seis da manhã depois de algum tempo de mofo total na decadente rua da moeda, que é onde no final das contas eu sempre vou parar, por alguma predestinação cósmica. Some of us never learn!
Este ano, no entanto, juro que sou inocente. Devido ao remédio infame que estou tomando, me permiti tomar apenas umas três taças de vinho, jurando que um prêmio mais do que merecido depois de tantos meses de abstinência jamais me faria mal. Obviamente, as coisas não correram deste modo, e acordei parecendo o Mumm-Ra antes da transformação (alguém aí lembra dos Thundercats?). Quer dizer, Mumm-Ra ao menos conseguia andar com uma certa desenvoltura; eu, por outro lado, só agora no fim da tarde consegui levantar da cama (que mais parecia um gavetão do IML). Mas eis que o presunto ressuscitou para atualizar o blog neste fim de tarde...
Então é isto: eu tinha programado uma espécie de retrospectiva de algumas histórias que andaram assombrando o blog durante o ano, como uma espécie de saldão 2007. Sei que é ridículo, mas eu queria e pronto. Mas isso fica para outro dia, assim como a busca de uma nova imagem aí pro topo - afinal, faz tempo que o conteúdo, o tom e tudo o mais do que escrevo aqui não combinam nem um pouco com a foto do Jean-Pierre Léaud no Les quatre cents coups... Bom, fica pra depois, porque agora eu vou voltar pra minha tumba. Amanhã tudo será diferente, acordarei renovado e forte (serei o de vida eternaaaaaa).
terça-feira, dezembro 18, 2007
do apego
Porque eu não aprendi a perder assim. O que eu sempre quis e não tive era tão abstrato, imaterial, que se tornava muito fácil, depois de um tempo, depois da vontade, rejeitar como ilusório ou mero engano. Mas – e este é o perigo das experiências concretas – neste específico caso eu pensei que era tudo tão certo e se encaixava tão perfeitamente, mostrando-se tão melhor ou mais bonito do que eu poderia esperar, que fui insistindo, acreditando, até um ponto em que estava depois do jogo, fora do fato, sem perceber que me transformava no vilão psicopata que continua negando, insistindo, fingindo esquecer que faltava algo - uma outra vontade, a exata contrapartida da minha. E então para negar a derrota eu inventei defeitos, chamei de ordinário, fútil e desleal ao que era absolutamente correto. Acusei de narcisismo sem perceber que apontava para o meu próprio reflexo. Evoquei Nêmesis para punir os excessivamente afortunados, sem saber que era a mim que poderia ser cobrada a fatura. Mas foi quando eu vi que tudo que eu fazia só piorava a situação, só me tornava mais errado e indigno, que algo estalou por dentro e vi que era hora de deixar pra lá...
“And the hardest part
Was letting go not taking part
Was the hardest part
was waiting for that bell to ring
It was the strangest start
Bittersweet I could taste in my mouth
Silver lining the clouds
Oh and I
I wish that I could work it out”
E quando uma amiga me falava de apegos materiais desmedidos, perguntei ansioso a respeito daqueles que se apegam a sentimentos, mesmo os mais inapropriados, reconhecidamente fadados a decair. Sua resposta não poderia ser mais correta. “Porque talvez elas tenham medo de não ter nada o que colocar no lugar...” E então acho que é nessa hora que eu recorro ao meu lado mais antiquado, old-fashioned, e sinto uma nova vontade, incipiente (talvez um pouco encenada, não sei, mas, afinal, não somos nunca perfeitos...). Let it go! Melhor desejar uma bonita e duradoura felicidade a quem - suponho agora, mais amolecido - deve merecer o melhor.
The hardest part- Coldplay
p.s.2 Botei pra quebrar agora: pieguice máxima. Mas dêem um desconto: é fim de ano, o blog também precisa ser purificado, então estou "dando um fechamento" às coisas mais melosas de 2007. Bom, pelo menos o blog que citei é mesmo ótimo!
