sábado, março 01, 2008

“o que te ilude é roliúde”

Todo mundo precisa de um filme bem xarope às vezes, para descolar-se da atmosfera de pensamentos difíceis que a gente respira quase todo o tempo. O problema é que sempre que vejo um filme assim, bem meloso, fico me perguntando o quanto isso inconscientemente não deve ter contribuído para me assinalar promessas que jamais serão cumpridas – digo, principalmente antes que eu começasse a ter o mínimo discernimento (ou senso de auto-proteção) capaz de me advertir a tomar cuidado e recuar de histórias que insinuem a possibilidade, em qualquer tempo e lugar dessa existência, de conseguir um reconhecimento mútuo e uma delicadeza rara que me permita ficar menos sozinho, menos desamparado nesse mundo difícil.

Pense bem: se você duvida que de fato todo o repertório de cultura midiática que a gente vem acumulando desde criancinha influencia as nossas expectativas com relação aos nossos encontros (e sobretudo desencontros) pela vida afora, imagine quantos e quantos filmes, seriados, novelas etc etc nós viemos absorvendo e armazenando na nossa cabecinha durante todos esses anos. Pense em como a crença em um amor romântico, monogâmico, sensível, cúmplice e duradouro capaz de nos acolher e proteger da nossa condição de seres avulsos não pode bem ser um resultado de narrativas culturais bem forjadas. Pense na persistência desse romantismo, mesmo que as pessoas neguem, finjam não se importar, não buscar (aliás, pense em como um certo tipo de romantismo sobrevive mesmo com tantos declarando sua morte!) e diga se não deve haver algo muito enraizado no nosso universo pessoal de sonhos.

Para isso, não cabe nem tanto considerar o momento presente com que, em maior ou menor grau, já conseguimos desenvolver um certo cinismo que (supomos) nos protegerá dessa vontade. Em vez disso, coloque-se na sua existência infantil, naquele momento de formação da sua personalidade e do seu perfil emocional que - embora correndo o risco de parecer essencialista – arriscaria dizer que se mantém relativamente constante (o que, a propósito, pode ser a origem daquela sensação terrível de que cometemos sempre os mesmos erros no quesito “relações pessoais”).

Um exemplo concreto: pense em você criancinha assistindo ao episódio do Chaves em que todos vão para Acapulco - menos ele que, tristíssimo, fica sozinho na vila. Lembre que depois Seu Barriga o convida, de modo que o episódio termina com todos felizes comendo churrasquinho na praia ao pôr-do-sol. Não há dúvida de que você é colocado no lugar do Chaves – levado a comover-se com o abandono para logo em seguida sentir-se aceito e participando da aventura na ida à praia. Este episódio do Chaves, em suma, te leva a acreditar que você será emocionalmente incluído, ao longo da vida, por um ou outro salvador - mesmo que seja um barrigudo careca. Mas creia: a verdade é que ninguém te levará a Acapulco.

O mesmo se poderia dizer da nossa adolescência quando, sentindo-nos um pouco mais espertos, consideramo-nos imunes a histórias bobas de boa vizinhança. Eis que aí é justamente quando muitos são impiedosamente arrebatados pela vontade irresistível de torcer por algum casalzinho problemático da tv: uma dobradinha tipo Dawson e Joey, pra ficar só nos mais lesos, que sempre agradam aos adeptos do bom mocismo. Memória fraca, romântico(a)? Então experimente voltar a alguns episódios daquele seriado americano que você via (se é que ainda não vê) e simplesmente mooorra de vergonha. Sim, era trash demais. Mas no seu inconsciente, não negue: você ainda quer aquilo.

Só que não acabou! Eu continuo minha explanação, afinal, a coisa é mais grave. Porque não se trata apenas daquelas histórias magníficas em que o acaso une pessoas (a propósito, alguém aí já experimentou depender do acaso? Às vezes parece que ele não chega nunca...). Nem daquelas em que a efemeridade é poeticamente vivenciada pelas partes envolvidas que, supõe-se, devem ser sempre duas - embora em alguns casos até os triângulos pareçam lindos e esteticamente excelentes (vide Os sonhadores, Jules et Jim, etc). A gente até tenta zombar um pouco, tirar onda, dizer que “três, na vida real, não é amor, é gaaaaaia!” Mas no fundo, todo mundo segue acreditando. Nem que seja um pouco.

Enfim, como dizia, a coisa é mais grave porque não é só por meio de histórias deslumbrantes que nossos sonhos afetivos são alimentados. Em Hollywood - e muito além dela, na verdade (vide os exemplos anteriores) - até os fracassos amorosos são lindos. Como no filme que vi na sessão de sábado da Globo pela quarta ou quinta vez, em um momento de desespero e ócio: O casamento do meu melhor amigo. É fato que Julia Roberts se fode, mas é tão “fofinho” como tudo se resolve com dignidade e afeto! Repito: isso é muito, muito grave. Porque a dor de cotovelo causada pelo fracasso em uma disputa amorosa gera tudo, menos sentimentos nobres.

Isso tudo posto, confesso: eu continuo assistindo, vez por outra, a filmes assim. Mas me digam: quem não continua? Quem não precisa de uma ilusãozinha a 24 frames por segundo para suportar a desolação de uma tarde ruim?

5 comentários:

lavis disse...

my loveee,
tenho vários comentários!!!
ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh
como vc memso falou .. esse post parece q é a gente conversando! ahh
1- se seu barriga nao me levar.. é só ir pra esquina e pegar o bus ou carona! tá?!
2- quando a gente espera o danado do acaso.. ele nao vem..
mas q ele existe e acontece coisas otima quando a gente menos espera... ahh isso acontece sim!
3- e sim.. a gente torce..assiste, imagina, sonha e esquece um pouco dos nossos problemas, da vida sem graça quando assistimos aqueles filme ninjas ( sim.. ninjas pq eles tem a vida perfeita)
4- ah! se acontece coisas boas com as outras pessoas.. pq nao acontece com a gente? e a gente senta no banquinho e espera nossa vez.. de preferencia comendo pipoca e assistindo os sonhadores!

ai..urfa.. achoq acabou meus comentarios.. quero nem reler o post e nem meu comentario... se não vou mudar tudo!

:p disse...

quem disse q eu queria ir hem?1?!?!
pois bem.. eu vou a pé nesse carai! SE EU QUISER! fika a dika tá?!

Happy Pills disse...

Ninguém quer me levar a Acapulco... Snif... :~~~~~~

E Julia Roberts terminou bem não, visse? Ela termina dançando com uma beesha bem gata. De que adianta? É como ver uma vitrine de doces estando de dieta. Tudo é lindo, maravilhoso, a gente sabe que é uma delícia, mas não pode comer. Não, beesha não!!!

Beto Efrem disse...

Balão!

Aceito todas as críticas. Adoro Dawson's Creek. E O Casamento do Meu Melhor Amigo também. ;-)

fabio disse...

hahahahaha. pois é, beto! estamos no mesmo barco. :p