quinta-feira, dezembro 23, 2004

Rosário

Pergunto-me como cheguei a este ponto: a minha lista de intenções está repleta de linhas brancas. Levanto-me de súbito e o meu ambiente levemente particular, onde me deixo estar sem calma, está escuro. Aqui ninguém me veria. Aqui é o lugar do esforço, onde só o interesse é capaz de me fazer alcançar, só a indagação pode perscrutar o isolamento e o distante apenas com uma pergunta pode fazer-se solidário - mas ninguém pergunta nada. Fez-se o escuro para preservar a espera, a dormência: para o cansaço, é tarde às nove horas da noite. A luz deita-se então e forra, com pesar, um lamento que não ousa existir além da sua possibilidade. Quem poderia ver-me, pois - mesmo que sem dúvida ou curiosidade aparente, acostumada a saber-me a existência - dorme.

Eu não. Eu não durmo ainda. Esforço-me para ler, cochilo um pouco, perco. Negando-lhe a derrota, no entanto, espanto do corpo o esmorecimento com um banho frio, reativo as idéias, depois escrevo. Para que escrevo? Antes havia uma certa desculpa cínica de procurar a resposta, ordenar idéias e concluir, mesmo com pensamentos inconclusos. Hoje, cansado demais que estou para ao menos pensar ou esboçar iniciativas de raciocínio a respeito desta recorrente insatisfação de desconhecida intensidade, causa e efeito, reduzo meu esforço textual a mera masturbação expressiva, em um prazer sempre solitário mas agora, além de tudo, deliberadamente inútil.

Caso contrário, o que falaria? Se há manhãs em que a simples intenção de acordar parece despropositada e todas as horas seguintes prometem-se estéreis e brancas como minhas linhas de intenções, o que escreverei? Talvez por isso se sobressaiam aqueles instantes em que as motivações tornam-se claras e grandiosas em sua verdade natural (e digo natural não como expressão do espontâneo, mas como algo tão integrado à vida quanto o é a própria natureza, como são as verdades inexplicáveis do nascer e do morrer). Sim, tal compreensão da alegria do ver-nascer, de descobrir novos seres no mundo, seres que crescem e mudam, amores que nascem e se desfazem quando a paixão pela vida se faz maior que o estabelecido na certeza do presente, personalidades inconstantes, caminhos mal traçados, enfim, parece até que observar tudo isto - mero ato de figuração e construção ausente - já vale a pena. Saber de uma criança nascendo e, acima de tudo, perceber a felicidade que esta pequena notícia desperta em todos ao meu redor; entender-me como alguém que pode vê-la crescer; concluir que sua vida será uma dádiva e que eu, de certa forma, a testemunharei - tudo isso traz um sentido vegetal e orgânico, um forte motivo que desmente a razão e justifica, por uma lógica macroscópica e impiedosamente distanciada, a necessidade de suportar a sucessão de dias iguais.

E no entanto é, ainda, muito pouco. A opressão das horas nos faz mais egoístas e insistimos na recusa de sermos apenas coadjuvantes, narradores de histórias alheias, ainda que intrinsecamente unidas à nossa. Esgarçamos as motivações à procura de uma verdade nossa e nos deparamos com verdades misteriosas, alheias e imutáveis, e certezas que nos punem, a despeito de qualquer explicação.

Por isso pergunto-me, uma vez mais, como cheguei a este ponto. Um instante em que não me faço entender, em que precisaria abrir mão do meu último movimento de busca em nome da preservação de doces atenuantes. Por isso eu sigo, também, nesse exercício de espera: rosário de pensamentos rezado em contas, sozinho, com leves murmúrios de lábios. Rosário desfiado repetidamente com uma fé sem paixão, institucionalizada pelo hábito.

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