quarta-feira, abril 26, 2006

palavas andantes

Tem um livro bonito de contos uruguaios do qual tenho extraído rápidas leituras, sempre que posso. Chama-se “As palavras andantes”, de Eduardo Galeano, e é todo ilustrado com xilogravuras de J. Borges, uma maravilha. O problema é que ele é ensolarado demais, folclórico, seco, mitológico e fantástico demais para este tempo - em Recife cai uma chuva grossa e boa de quietude.
Daí lembrei de um trechinho em que o autor fala dos meses do ano e descreve cada um, em uma “janela sobre o tempo”. Ele fala, por exemplo: “Em abril, tempo de silêncio, crescem os grãos do milho”.
Eu gosto dessas representações dos meses ligadas ao campo, à lavoura, ao semear – com os ciclos naturais regidos por uma lógica e uma sazonalidade que não existem mais por estas terras. Essa austeridade e coesão telúricas estão muito longe daqui, de fato, e a chuva forte de Pernambuco parece que só semeia mesmo cinza, vontade e silêncio e, por ora, o que se faz é refletir, ver - no mais urbano sentido de contemplação -, descansar, ler, tecer pensamentos e sentir consigo, calado.
Mas vejamos se daí germina alguma mudança. Segundo Galeano, “maio é tempo de colheita”. Eu, sinceramente, gostaria de não mais ler, em despretensiosas palavras alheias e em pequenos detalhes, nenhuma promessa. Mas... vejamos. Sempre se pode correr o risco e o êxtase de esperar...

sábado, abril 08, 2006

da história e algumas canções

Eu tinha escrito hoje, logo cedo, um texto gigantesco, cheio de considerações, entendimentos e espantos a respeito da idéia de estudar a forma como uma determinada comunidade de pessoas, por meio das suas formas de comunicação e dos seus discursos, representa sua idéia de historicidade – a idéia de como elas se vêem na construção de sua história individual e também na construção da história coletiva da qual todos fazemos parte. E nesse texto eu falava também de como isso me levou a pensar, antes de tudo, sobre o meu próprio sentido de historicidade – de como eu próprio me vejo nessa loucura toda chamada tempo, que envolve um futuro que é feito, construído, e pelo qual somos todos responsáveis. Algo como se o distanciamento besta de querer estudar os outros me levasse a finalmente querer perguntar sobre mim mesmo, e me conhecer um pouco melhor.
Foi muita coisa, o que eu escrevi. Mas... Bem, é de tarde, agora, e eu depois de quase uma semana me dei o direito de fumar um cigarro e olhar a janela ouvindo Belchior, sentindo o tempo carregado de promessa de chuva, que eu tanto gosto, pensando em tudo e em nada e no que vem em seguida – no que preciso fazer do minuto seguinte. E me ocorreu então que esse é o meu sentido de historicidade.

E sim, os sinais ainda parecem todos fechados pra nós, que somos jovens.

segunda-feira, março 13, 2006

pós-política?

“Em que lugar e quem pode tomar decisões quando uma campanha eleitoral custa milhões de dólares e a imagem dos candidatos não se baseia em programas partidários, mas em adaptações oportunistas sugeridas pelas agências de marketing político? Até as ações de estilização do produto (a cirurgia plástica do candidato, a troca de guarda-roupa e o preço pago pelos comunicólogos que o aconselham) são divulgadas pela imprensa e televisão como parte do distante espetáculo pré-eleitoral. Esta dissolução da esfera pública como âmbito de participação popular é agravada pela tecnoburocratização das decisões nos governos neoliberais. Os conflitos são negociados entre os políticos (que cada vez são mais técnicos que políticos) e os empresários; os sindicatos e os movimentos sociais tomam conhecimento através dos jornais e televisão. O que fica para os cidadãos?”

(“Consumidores e cidadãos – conflitos multiculturais da globalização”, de Nestor García Canclini, pág. 241)

quinta-feira, março 09, 2006

fábio e a vida de estudante – parte 2

No ambiente reservado ao estudo da biblioteca, em todos os dias se busca algo diferente. Há em tudo algo como um silêncio tenso, uma vontade de leitura, uma resistência pelo aprendizado e para mim, sobretudo, uma possibilidade de fuga. Eu que não havia descoberto que é possível se esconder em idéias, agora corro para o excesso de palavras para me afogar no abstrato dos livros. E olho curioso os tipos humanos que percorrem o espaço, as caras conhecidas, as criaturas exóticas, os encontros sempre proveitosos com amigos, o burburinho de vida acadêmica que parece alheia, embora também devesse ser minha. E mesmo estando já mais habituado a estudar por aqui, regularmente matriculado, é no anonimato de visitante que me acomodo melhor.
No meu pensamento disperso eu olho o movimento constante, virando o rosto de tempos em tempos e abandonando o raciocínio raso da leitura para contemplar passantes, observar os corredores ou misturar constrangimento e jogo na observação dos estranhos com seus livros e suas idiossincrasias enquanto lêem. Eles, os estranhos, de vez em quando sentem-se observados e me olham também, e me divirto imaginando meu semblante de psicopata fitando os outros com cara de desconfiança ou risinhos esquisitos no rosto, eu que não sei pensar sem expressões faciais me acompanhando. Assim eu lembro também de Demian e resolvo que qualquer dia vou brincar de ser persuasivo: escolher alguém, mentalizar alguma ação - ordenar por exemplo “coce a cabeça”, “coce a cabeça” - e esperar pra ver se ele - ou ela - coça, mesmo. (Depois conto se dá certo, se acontece como no estranho romance do sujeito que tem a marca de Caim na fronte).
Mas como ia dizendo, na biblioteca o estudo é a menor das minhas ocupações. Aqui a gente anda entre as estantes cheias de volumes e é quase um sonho porque se acredita que, na leitura, pode-se ser um pouco de tudo e viver muito escolhendo menos. Estudar psicologia, direito, medicina, álgebra linear ou teologia: neste universo o único ônus de nossos experimentos é o tempo tomado pelas leituras escolhidas. Aceitando esta sacra dedicação, podemos ser um pouco psicanalistas - ler Freud, Jung e interpretação dos sonhos - ou historiadores, críticos de arte, arquitetos... Rompendo essa barreira de fatalismo solidificada pela falta de tempo e pela preguiça, podemos planejar viver várias vidas à medida que nos apropriamos destes textos. A escolha aqui também se mostra inevitável, claro, e se faz a cada página lida ou descartada, mas tudo parece ao alcance, as várias possibilidades que ignoramos nos nossos caminhos estão impressas e bem ali – a irresistível sedução de tudo que se pode construir com imaginação e de tudo o que se pode esquecer da amargura de outras horas.
É esta sedução que me faz perder longos instantes andando entre os livros, enriquecendo bibliografias que nunca iniciarei, criando roteiros de leituras que nunca acontecerão, mas me embriagando com a infinidade de coisas que desconheço e que parecem as únicas capazes de me salvar – nem pessoas nem fatos, pois disto já desisti. Deslizando os dedos entre os volumes - “Posse, possessória e usucapião”, “La anatomía humana”, “Filosofia medieval”, “Compendio de la teoria general del Estado”, “Teoria psicanalítica das neuroses”, “Anthologie du catholicisme social en France”, “Introdução ao pensar” (e eu que nem sabia que precisava me iniciar, comecei tão cedo e desordenado, também já nasci pensando) - as mãos e os olhos vão percorrendo tudo e os planos de ler, apenas, já satisfazem. Eu que tenho preguiça até de viver histórias inventadas...

(a primeira parte foi postada em agosto do ano passado)

sábado, março 04, 2006

bande à part

Um triângulo amoroso, flertes, romantismo e acidez, dois momentos musicais fantásticos, um significativo minuto de silêncio, a cena agora famosa da corrida no Louvre, tiros esquisitos em gente que não sabe morrer e um final com uma última cena de doer, de tão ruim. Este é mais um de Godard, e dos bons.

domingo, fevereiro 19, 2006

“- O meu carnaval sem nenhuma alegria!...”

Carnaval deveria ser algum tipo de plano emergencial que a gente aciona sempre que precisa e unicamente quando – e isso é o mais importante – ele for conveniente. Alguém bate o pé, uma batucada mais animada, uma vontade de festa e pronto, corre todo mundo, ajeita o carnaval que agora é hora! Mas não, ele chega sempre assim, data marcada em calendário, feriado concedido e pronto: é de vocês, divirtam-se, celebrem a vida e estejam imbuídos do espírito de confraternização – tudo assim, intransigentemente. E não há coisa mais desoladora para o ser humano do que a alegria compulsória, esfregada na cara e diluída em excessos.
E eu me pergunto onde estão as pessoas que fazem meu carnaval; em que esquina montaram o nosso bloco e esqueceram de me avisar; que misteriosa felicidade inventaram, essa, que comporta uma expressão tão insossa, uma inconclusão de despedida às pressas, com bilhete e na surdina; quem ignorou o suor farto das ladeiras e pontes e nos deixou, direto, esse suor frio de ressaca de cinzas.
Talvez por essa contradição insolúvel das grandes festas de rua, não são poucos os poetas que nos sentiram o carnaval em versos, e lembro que ano passado o que me ficou cristalizado como memória e referência foram os “Poemas da negra”, de Mário de Andrade, que falavam de um inesquecível carnaval pernambucano, com seus mangues, grilos, brisas, erotismo, madressilvas e cais. Esse ano... Sei não, mas se a promessa sedutora do modernista, no último carnaval, já não se cumpriu, esse ano eu já me sinto bem mais pro carnaval melancólico de Manuel Bandeira.
Mas vamos todos, sim, continuar, como Schumann, compondo nosso carnaval – porque ele, na verdade, ainda está por vir.

sábado, fevereiro 11, 2006

intervalo anticomercial #2

"Os homens inventaram um jeito batata de regular a máquina do fodido. O corpo do fodido ta desarranjado dum jeito que sente com a cabeça, pensa com a barriga e caga pelo coração.”

Jussara Pé de Anjo, uma das putas assalariadas, na Ópera do Malandro.

sábado, fevereiro 04, 2006

intervalo anticomercial #1

“Nas formas primitivas da sociedade, quando a maioria dos indivíduos vivia em dependência da terra de onde tiravam a própria subsistência, a experiência do fluxo do tempo estava estreitamente ligada aos ritmos naturais das estações e ao ciclo do nascimento e da morte. À medida que os indivíduos foram gradualmente sendo atraídos por um sistema de trabalho fabril e urbano, a experiência do fluxo do tempo foi se associando cada vez mais aos mecanismos de observância do tempo em sincronização com as horas de trabalho e com a organização dos dias da semana. Logo que o tempo começou a ser disciplinado pelos objetivos de aumentar a produção das mercadorias, houve uma certa troca: os sacrifícios feitos no presente eram trocados pela promessa de um futuro melhor. A noção de progresso, elaborada pelas filosofias iluministas da história e pelas teorias sociais da evolução, foi sendo experimentada no dia-a-dia da vida como o enorme hiato entre a experiência passada e presente de um lado, e os horizontes continuamente mutáveis das expectativas associadas ao futuro, de outro.
A experiência do fluxo do tempo pode estar mudando hoje. À medida que o passo da vida se acelera, a terra prometida para o futuro não se torna mais próxima. Os horizontes das expectativas sempre incertas começam a desmoronar, à medida que vão se encontrando com um futuro que continuamente fica aquém das expectativas do passado e do presente. Torna-se cada vez mais difícil persistir numa concepção linear da história como progresso. A idéia de progresso é um modo de colonizar o futuro, é uma maneira de subordinar o futuro aos nossos planos e expectativas presentes. Mas à medida que as deficiências desta estratégia se tornam mais claras dia após dia, e o futuro repetidamente confunde nossos planos e expectativas, a idéia de progresso começa a perder força entre nós.”

John B. Thompson. A mídia e a modernidade – Uma teoria social da mídia.

terça-feira, janeiro 24, 2006

pausa

Essa birosca tá fechada pra balanço.
Vou passar um tempo sem escrever aqui, porque é como diz a estória: quando não se tem nada de bom a dizer, o melhor mesmo é calar.
Ou como bem falou o crítico ao Guido, em Oito e meio, e que, a propósito, já mencionei aqui: “é melhor destruir, quando não se cria o essencial”.
Então vou ficar um pouco quieto, enquanto alimento o sonho de destruições maiores, ou até que peça penico e volte correndo pra essa válvula de escape e sedativo - o que acontecer primeiro.
Para a meia dúzia que passa por aqui: vejam o blog do Samarone, o www.estuariope.blogspot.com, que ele sim é cheio de coisa boa pra dizer (e eu rasgo a seda mesmo, porque sou fã).
No mais, deixo uma musiquinha pra animar os nossos intervalos anticomerciais aqui no valorarcaico.blogspot.com (anticomercial sim, porque o dono desse blog tá numa crise braba e sem precendentes mas ainda se pretende de luta :p).


"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
inventa contra a mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera"

sábado, janeiro 21, 2006

a decadência americana e o vazio pós-moderno na visão perversa de Solondz

Assistir a Histórias Proibidas, de Todd Solondz, parecia um entretenimento de alto risco. Primeiro porque eu adoro muitas das bonitas músicas do Belle and Sebastian que estão em sua trilha sonora, e não era pequeno o risco de que as contaminasse irremediavelmente, em minha memória, com o clima deprimente que o filme prometia. Segundo porque há tempos, já, eu fico na corda bamba com esse time de diretores americanos que se especializaram em retratar com visão amarga e niilista a decadência social, familiar e afetiva que permeia a sociedade estadunidense, visão esta que está sempre no limite entre a crítica dura e o pessimismo decadente. De minha parte, adoro as porradas que Todd Solondz, Wes Anderson e Alexander Payne metem na mediocridade americana, mas o fato é que, como americanos e, mais que isso, como vítimas também dessa “crise pós-moderna”, eles tampouco demonstram ter algo de positivo a defender, e resumem-se a radicalizar, não sem certas doses de cinismo e perversidade, todo elemento humano e social dos nossos dias, incluindo-se aí questões sexuais, étnicas e midiáticas.
O filme em questão, com o título original e bem mais interessante de Storytelling, avança em pelo menos um ponto em relação a outros que seguem a mesma linha. Propõe uma outra e interessantíssima discussão que vem a somar-se e completar, oportunamente, esta simples ridicularização do “american way of life”: nele, aborda-se o ato de contar histórias, representar, interpretar e reconstruir a realidade via processos de comunicação, sejam eles literários, cinematográficos, documentais. Dividido em duas partes, Fiction e Nonfiction, o roteiro expõe a influência de quem se propõe a contar uma história sobre as idéias que comunica. A informação estaria condenada à parcialidade de quem a transmite e, assim, a veracidade do que é dito, bem como do discurso veiculado por esta mensagem, está comprometida ou, ao menos, relativizada pelos valores, preconceitos e experiências pessoais de quem a reproduz. Assim, um fato verídico pode parecer absurdo, mesmo quando expresso sob a forma de ficção, e um outro relato, mesmo quando se pretende documental, por sua vez, perde o caráter “real” quando mediado pelo ponto de vista daquele que relata.
É engraçado, então, como no filme de Todd Solondz a ficção e a não-ficção se misturam, se contradizem e se negam, na prática. A ficção, argumenta-se, pode ser simples veículo para mascarar fatos reais de modo a possibilitar a exposição e o debate de uma experiência (e, porque não, para ajudar o autor a remoê-la), assim como o que se propõe a ser documental pode resultar em uma visão deturpada, parcial e, consequentemente, em uma representação não fidedigna da realidade (e neste ponto acaba sobrando para a atuação do próprio cinema e da mídia, que manipulam realidades ao seu gosto e de acordo com suas pretensões).
Essa crítica social e essa pretensa “reflexão” vêm à base de uma narrativa destruidora e, para o quesito polêmica, Solondz escala um time de peso: um deficiente físico, um professor de literatura negro, uma empregada de nacionalidade salvadorenha, um típico adolescente cabeça oca - daqueles bem estereotipados -, um casal que parece viver à base de algumas caixas de lexotan diárias e ainda uma “adorável” criança prodígio, daquelas bem sebosinhas e irritantes mas que são consideradas pelo status quo como um sonho para qualquer família, meiguinha e inteligente.
No filme há também o que se pode interpretar na melhor das hipóteses como uma alusão à tão alarmada e evocada “crise ideológica atual” ou que (o que é bem mais provável) pode ser na verdade uma tentativa de ridicularizar qualquer crença e auto-afirmação da juventude: na camisa usada pelo jovem “protagonista” do filme (e do documentário que dentro dele está sendo realizado) estão estampados uma foice e um martelo. Ora vejam se o tão crítico Solondz também não acha bonito e inteligente ridicularizar pensamentos contra-hegemônicos! A impressão que fica, na verdade, é que pra ele nada serve e a vida é mesmo uma merda (acusação da qual, aliás, ele busca logo se defender, apressando-se em colocá-la na boca de um dos ridículos personagens que, enfurecido, grita para a câmera: “A vida é dura pra você? Azar!”).
Solondz mostra que o documentário realizado ao longo do filme só serve para dar o golpe de misericórdia na deprimente vida do garoto Scooby, e que a função almejada pelo diretor fictício interpretado por Paul Giamatti no mesmo documentário é, na verdade, ridicularizar e provocar o riso com a miséria alheia. Mas eu pergunto: não estaria ele, Todd Solondz, o diretor da vida real, de carne e osso, fazendo a mesma coisa com os seus personagens? Porque eu ri o tempo todo com as suas perversidades.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

besteira à vista

Cá com meus botões, pensando (alguém mais sente isso?) que gostaria de tomar um banho de água sanitária, lavar tudo, por dentro e por fora, pra tirar as impurezas, as mazelas, o ranço - todas essas coisas ruins que fazem a gente se sentir sujo - quando tive vontade de ver no dicionário: o que, afinal, significa creolina?
Dúvida relevante demais, essa, a propósito. Eu sei que nem é a primeira vez que recorro a definições de dicionário, aqui no blog, mas na verdade eu às vezes gosto disso: pegar palavras que aprendi de ouvido, de tanto os outros falarem, e ver o que elas significam para além da banalização do uso diário.
Creolina. sf. Denominação comercial de um líquido anti-séptico à base de creosoto. (Danou-se, que agora deu preguiça de ver o que significa creosoto).
Eu tantas vezes lembro da cena de um filme em que uma mulher, lendo um livro deitada na cama, vai aos poucos sendo tomada por águas que, do nada, invadem o quarto e vão deixando-a submersa, envolta, alheia. Essa cena creio que significa a reminiscência de uma morte – a de Virgínia Wolf – mas eu às vezes lembro disso de forma menos mórbida, quero dizer, apenas como uma sensação boa de submergir, como se a água limpasse tudo – necessidade recorrente, essa, de uma limpeza profunda, subjetiva.
Mas o banho de água sanitária (que, aliás, lá em Juazeiro se chama kiboa, que é a marca de uma delas - algo como chamar de bombril a palha de aço) hoje é por motivos mais físicos, mesmo. Será uma súbita intolerância a essa vida junkie de álcool, fumo, sedentarismo, fast food, gorduras, enlatados, etc etc etc? Sei não – não me imagino adepto da macrobiótica ou dessas outras coisas de nome difícil que não dá nem vontade de pesquisar significado.
Aliás, por falar em dicionário: um dia, no Estuário, o Samarone falou de uma menina que disse que não tinha a palavra “feio” no dicionário dela.
Fui olhar: no meu tem. :Taca kiboa nele.

domingo, janeiro 08, 2006

canclini

“Há duas maneiras de interpretar o descontentamento contemporâneo provocado pela globalização. Alguns autores pós-modernos se concentram nos setores em que o problema não é tanto a falta, mas o fato de o que possuem tornar-se a cada instante obsoleto ou fugaz. Analisaremos esta cultura do efêmero quando nos ocuparmos da diferença de atitude entre espectadores que selecionavam os filmes pelo nome dos diretores e dos atores, pela sua situação na história do cinema, e videófilos interessados unicamente em estréias. Muito do que é feito atualmente nas artes é produzido e circula de acordo com as regras das inovações e da obsolescência periódica, não por causa do impulso experimentador, como no tempo das vanguardas, mas sim porque as manifestações culturais foram submetidas aos valores que ‘dinamizam’ o mercado e a moda: consumo incessantemente renovado, surpresa e divertimento. Por razões semelhantes a cultura política tornou-se errática: desde que se tornaram raros os relatos emancipadores que viam as ações presentes como parte de uma história e procura de um futuro renovador, as decisões políticas e econômicas são tomadas em função das seduções imediatistas do consumo, o livre comércio sem memória de seus erros, a importação afobada dos últimos modelos que nos faz cair, uma e outra vez, como se cada uma fosse a primeira, no endividamento e na crise da balança de pagamentos.
Uma visão integral, porém, deve dirigir o olhar em direção aos grupos em que se multiplicam as carências. A maneira neoliberal de fazer a globalização consiste em reduzir emprego para reduzir custos, competindo entre empresas transnacionais, cuja direção se faz desde um ponto desconhecido, de modo que os interesses sindicais e nacionais quase não podem ser exercidos. A conseqüência de tudo isto é que mais de 40% da população latino-americana se encontre privada de trabalho estável e de condições mínimas de segurança, que sobreviva nas aventuras também globalizadas do comércio informal, da eletrônica japonesa vendida junto a roupas do Sudeste Asiático, junto a ervas esotéricas e artesanato local, em volta dos sinais de trânsito: nesses vastos ‘subúrbios’ que são os centros históricos das grandes cidades, há poucas razões para se ficar contente enquanto o que chega de toda parte se oferece e se espalha para que alguns possuam e imediatamente esqueçam.”
Trecho do livro “Consumidores e cidadãos – conflitos multiculturais da globalização”, de Nestor García Canclini

quarta-feira, dezembro 28, 2005

pacto

Você, que tantas vezes olhou para o céu, nas noites altas da estrada, e teve um lampejo efêmero de transcendência, achou que tudo era grande e inexplicado e bom e sentiu um aconchego de colo com essa idéia épica que – você não sabia – era sua consciência de natureza aflorando, dando-lhe essa ousadia de acreditar no divino, de reconfortar-se na pequenez de um mundo gigante enquanto achava nessa mesma vastidão uma promessa de futuros cheios de si, inabaláveis em sua revelia, seu mistério de acontecer. Ousadia que era quase pecado, inibida por tua cabeça ceticamente construída para negar, cheia de falsas idéias de certeza.
Era nessas altas noites que você repousava, feliz, cansado, sem ordem para pensar nem tampouco métodos para sentir, mas eram essas mesmas noites que sufocavam, tensas, pelo gosto frustrado de liberdade engasgada. Então você sonhava mais, e mais alto, mas num sonho natimorto, sem esperança de existir, seco e sonolento. Sonhava com outras estradas, emoções e atos de independência que não sabia a que atribuir. E no dia-após-dia de caminhos retos esse desejo expansivo se reprimia, abafando o estopim impossível e carente de planos em mais um sono e mais um trago. E forjando alegrias para evocar essa felicidade irreal, enterrava as felicidades repentinas reais... E alimentando essa tristeza de bicho preso ignorava as infelicidades que não tinham lugar nenhum no mundo, dispersas, difusas... Vivia alegrias que não eram suas, e tristezas que inventava. O mais, o real, foi momento efêmero que pouco se contou.
Mas faz como naquelas noites e olha para o céu, e veja que a lua e essa brisa e essa temperaturazinha boa e ainda o possível mar que às vezes se vê, são eles todos tão reais quanto a sujeira que você aspira impassível, a casca que usa a contragosto e até o que você chama de coletivo. Percebe que para além do convívio humano há uma natureza que é concreta e orgânica como a sua matéria e ao mesmo tempo tão metafísica quanto os seus sonhos. E é assim que se percebe a impossibilidade de estar completamente sozinho - no pior, no melhor, estamos juntos, você e eu, num diálogo difícil mas cheio de sinceridade, brilho nos olhos e entendimento que à custa de muito esforço se consegue. Sim, podemos nos entender, pois eu já te acompanho há tempos: tuas antigas solidões à janela, já de todo superadas; teus segredos tão bem guardados, resvalando em ímpetos incompreendidos; teus defeitos indisfarçáveis e teu medo de regredir; teus sonhos contraditórios, desmentidos e logo em seguida reafirmados, sucessivas vezes, pela espontaneidade e mais ainda pela incapacidade em dosa-los ou guarda-los para si. Na pior, na melhor das hipóteses, olhemos sempre para essas coisas boas ao alcance, e assim mintamos, se for preciso, pois juraremos que elas serão nossas, sempre, e diremos que é tudo necessário e bom ao espírito, e reconstruiremos nossas lembranças, nossos afetos, agora que descobrimos que o bom e o mau dependem tanto da gente e que a nossa divindade boa e difícil é o Tempo. E quando aquelas dores, bem, quando elas parecerem insuportáveis demais - a saudade, a incerteza, o desejo, a esperança, essas coisas que machucam – vamos tentar pensa-las assim, como coisas, elas mudam!, elas passam! E quando a impossibilidade do que para os outros é fácil se mostrar, na sua cara, e você tiver ânsia daqueles caminhos impossíveis, vamos fazer planos de estrada, cultivar sonhos realizáveis de mundo, e se o medo de que eles jamais se realizem apertar um pouco mais o coração, prometa que haverá um esforçozinho para sorrir e eu te prometo: vou te trazer, Fábio, um ano novinho de presente!

Para ouvir: “Ce matin la”, do Air

domingo, dezembro 25, 2005

quase-fim

Ok, eu passei uns dias pensando em um jeito de acabar isso aqui de forma interessante e definitiva. Por diversos motivos, mas principalmente porque tenho me motivado a escrever sobre outras coisas que certamente cabem melhor em outro espaço que não aqui, neste “lost in solitude”. Mas em respeito a esta companhia fiel de mais de um ano e por pura falta de idéia de como começar algo diferente e de como e o quê eu quero escrever agora, vou continuando por aqui. No mais, já me acostumei ao tom meio confessional e ao estilo meio esquizofrênico desse blog em que cabe de tudo, heterogeneamente - de resenhas bestas de filmes a insanidades escritas depois de uma bebedeira.
Bom, o que dizer? É natal, mas eu que não o levei a sério cometi o erro tosco de achar que todos pensaram exatamente igual a mim. Quero dizer, eu simplesmente entrei nessa ondinha esnobe de dizer que o natal é uma data comercial, hipócrita e tabacuda, e esqueci que, para além da mercantilização e de algumas baboseiras natalinas, há quem ainda consiga fazer das comemorações, dos simbolismos, a oportunidade para coisas bonitas: presentear quem se gosta, desejar coisas boas. Eu não me dei conta disso a tempo e fui pego pelo natal “de calças curtas”, como se diz. Ganhei presentes e votos de felicidades quando já não havia tempo para presentear nem desejar nada a ninguém.
E claro, como as relações sociais são feitas também de conflito, fui surpreendido com uma alfinetada em forma de mensagem de afeto. Acho justo: ocasiões especiais também são bons momentos para apontar, aos outros, aquelas coisinhas que não gostamos e que podem virar resolução de ano novo. Desejaram que eu fosse sempre “o meu melhor”, e eu então tive medo de que tenha sido o meu pior para esta pessoa em algum dia, este ano.
Então tá, primeira resolução de ano novo: vou buscar ser sempre o meu melhor, para todo mundo. Mas quando outra ocasião especial surgir, vou dar um jeito de deixar a todos o meu pedido, junto aos votos: “O meu melhor? Vou tentar. Mas, por favor, percebam sempre...”

P.S. Feliz natal a todos. :p

segunda-feira, dezembro 12, 2005

de bob

Na madrugada, uma música para amansar a vertigem – na hora certa, quando vou dormir – vem da rua. Ela diminui um pouco minha disposição para pensar no quanto pagamos por agir de forma espontânea, por tornar nossos erros completos - por errar até o fim, até que não nos seja mais possível persistir, e só aí, então, reconhecer a necessidade de mudar. Chamam a isso teimosia, mas eu também vejo como plenitude: ser honesto até mesmo com as fraquezas quando elas são urgentes, se espalham por todo o resto e abafam o que é força e convicção, adquirindo ares de soberania. Mas há tempo pra tudo, inclusive para reconhecer os equívocos, a cegueira e – obviamente – as perdas. E a madrugada guarda também lembranças que trazem força, e elas estão, na maioria, bem ali, pela janela, se mostrando. É só uma questão de disciplina, pra não deixar que o que está mais próximo pareça excessivamente grande, insuperável. Existem idéias que trazem respostas, basta força para reavivá-las. Com elas, e com música, e com um pouco de sorte, e comigo mesmo - único parceiro e cúmplice incondicional de todas as merdas - eu passo por tudo isso, reconstruo o que der e ainda escondo minha dor.
Será que a música ajuda mesmo? Será que dá tempo recuperar… Enfim… Tudo indica que sim.

“One good thing about music
when it hits you (you feel no pain)
Oh, oh, I say, one good thing about music,
when it hits you (you feel no pain)
Hit me with music, hit me with music now…”

(E claro, um pouquinho de energia rasta também ajuda… :p)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Precisa-se de plano infalível para ganhar o mundo.

terça-feira, novembro 29, 2005

Imagine a vida acontecendo em vinte e quatro frames por segundo. É mais ou menos nesse instante fugaz, em que a imagem vira movimento, que os sentimentos nos transpassam e mudam – ou assim eu fui levado a pensar, confundido e maravilhado pela multiplicidade de momentos com que às vezes a luz escrita e ritmada do cinema me presenteia. E a gente fica assim, sem saber o que nisso é vida, o que é engano, o que é fuga, o que é exagero. E nos perdemos indecisos diante de tantas vidas a viver, de tantos convites a ser, prontos e delineados em um estado de espírito que se insinua, dispondo-se a fazer parte de nós por algumas horas depois que vemos o último crédito e a última nota da indispensável música final ser tocada.
E a gente não sabe mais o que sente e a que se agarra nesse sonho consentido que é quase um pacto entre quem cria e quem aceita, quem encena e quem observa, quem toca e quem ouve. O coração, pequeno, fica entre a leveza de uma comédia nova-iorquina e a delicadeza de um drama adolescente, com os ouvidos inquietos passeando ora pela melodia sempre alegremente introspectiva de um jazz de Billie Holiday e a suavidade de uma cançãozinha americana boba e, no entanto, tão apropriada ao que se conta. Não consegue se decidir entre remoer um pouco mais a necessidade de agüentar e ir em frente, ou a instigante idéia de que cada pequena alegria, temor ou mistério é como tudo mais, “igual a tudo na vida”. Oscila ainda bom tempo nesse dilema até que, em uma conciliação sensata de escolhas duvidosas, experimenta pequenas doses, diversas, apostando que existir é a soma de tudo, que nada é totalmente ilusório ou absolutamente real e que em cada hora há espaço pra um pouco de comédia, drama, terror, guerra, morte, política, fantasia...
Sim, a vida é múltipla. Confesso, no entanto, que entre a alegre inteligência de um Woody Allen ou a poesia melancólica de Christine Jeffs eu preferiria, pelo menos no dia-a-dia, pelo menos na maior parte do tempo ou, como dizem, em condições normais de temperatura e pressão, a ironia, perspicácia, otimismo e bom humor do primeiro. Já deveria saber, no entanto: condições normais de temperatura e pressão não existem. Nossa cabeça está sempre fervendo ou, em alguns casos, cansada, prestes a congelar ao relento dos muitos abandonos, de nosso descuido. E nosso filme, esse que a gente vive de verdade, é quase sempre um pouco involuntário, onde no máximo temos a autonomia de inserir, mentalmente, nossas próprias músicas, aquelas que fazem crescer em importância e incrementam, com um toque especial de intensidade, os nossos fugazes instantes.

Para assistir:
Igual a tudo na vida, de Woody Allen
Chuva de verão, de Christine Jeffs

segunda-feira, novembro 21, 2005

Das angústias cotidianas

Há quem reclame pelo fato de que o dia tenha apenas vinte e quatro horas. O que dizer, então, daqueles que precisam, nesse curto período de tempo, viver duas vidas – a que querem e a que precisam? Aqueles que precisam se dividir, em sua vida dupla, e depois tentam se contentar em preencher, com alegria, os poucos espacinhos que existem entre uma violência e outra à sua própria natureza?
Aliás, às vezes eu acho que tenho na verdade três vidas: a que eu quero viver mas não posso e nem sei, a que posso viver mas não nem quero nem sei e a que eu sei viver mas não posso nem quero. E no meio disso tudo, onde, eu ?
Eu não agüento mais ter que ser muitos, inconciliáveis. Não agüento mais também andar travestido. Eu quero ser um só: completo, unitário.

...E que pelo menos a soma das minhas divergências, incoerências, instabilidades e nuances seja igual a um.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Cinema e aspirinas e urubus e luz de puteiro e risos solitários e uniformes e casca e sonhos vazios e ruptura e amores parisienses e chofer e tese ridícula e fumaça e emoção revolucionária fantasiosa burguesa e estômago e sexo e músicas antigas e difícil renúncia e quase hora de partir e cantiga de enganar e...

“O mundo é talvez: e é só.”

segunda-feira, novembro 14, 2005

A pequena história dos homens de braços curtos

No mundo humano tem uma coisa chamada moda que é assim: quando se diz que algo é bonito, todo mundo gosta junto. Quando se resolve que é feio, não presta mais pra ninguém. Acontece que dia desses começou-se a desgostar de camisa de manga com a malha na medida – daquelas que cobrem o braço certinho, até o cotovelo. Um tal rapaz então começou a desconfiar que algo andava muito pequeno (ou ele muito longo): vestia, desvestia, provava, tirava, tornava a vestir mudas e mudas de roupa nova que achava em cada canto e nenhuma delas lhe servia. Enquanto isso, mais e mais gente na rua com seus braços um pouco à mostra de forma inacreditavelmente natural, harmoniosa, e ele, que já não tinha lá muita certeza das suas medidas, cada vez mais desconfiado de si: - há algo de errado aqui; ou muito esticado ou muito fino.
Matutou, matutou, “cismando na derrota incomparável”, até que lhe veio uma idéia iluminadora, dessas que são quase uma visagem, de tão claras e repentinas. Concluiu, num espanto, que o que acontecia não era moda coisa nenhuma. Lembrou de Darwin, de suas aulas, do pouco que captara das notícias da televisão, da adaptabilidade alheia, juntou uma coisa à outra e, num calafrio de quase desespero, percebeu que presenciava um desses momentos históricos únicos em que a humanidade dava um salto. Num rompante de esperteza suspeitou da rede de poder dissimulado que o circundava e desvendou: a moda é mentira, não existe. Não é culpa da moda, ela é só um disfarce. Os braços humanos é que estão mais curtos, eles é que agora só precisam estar ao alcance de um mouse, de um teclado, de um botão, de um apoio: tudo muito compacto, mínimo. Gente que é gente não tira mais coco, não sobe mais em árvore, não cobre mais ninguém de bofetada distante. Até isso: briga agora se ganha no movimento mínimo de um dedo no gatilho. A dança, então, faz tempo que ficou com menos movimentos ondulados, alongamentos sinuosos de tango... Agora é só punho levantado a noventa graus e passinho de cabeça, pescoço acompanhando. Tudo pertinho, acessível, na rapidez intimista da virtualidade, na graciosidade mínima da modernidade compacta. Carro mil com volante quase encostando no peito, movimento retrátil pra apertar botão de elevador, cotovelo inconveniente em poltrona de cinema... Viver ficou muito apertado. Adeus aos braços longos.
Atormentado, meio zonzo ainda com a perda do bonde da história, abalado pelo peso de uma sofrida fatalidade, sentida talvez apenas por aqueles que ficaram para trás na escala evolutiva, esmiuçou todo o golpe midiático que atribuiu a tendências fúteis de comportamento a responsabilidade pela mudança visual repentina que percebia nos corpos alheios. Ninguém mais o enganaria, no entanto, pois ele já tinha certeza: as roupas permaneciam as mesmas, os membros é que se haviam reduzido.
Impulsionado pela necessidade frenética de reagir, pensou na ação derradeira: compraria camisas curtíssimas, desmanchar-lhes-ia as costuras, expondo ridiculamente seu subterfúgio descarado: mangas artificialmente alongadas, mal escondendo a coloração desigual da pele durante tantos anos exposta ao sol de forma incompleta. Acima dos antebraços e cotovelos bronzeados, um pouco da pele alva que o novo modelo de camisa, adaptado ao novo tipo de braço humano, não dava mais conta de esconder. Pensou, matutou e reconsiderou a tentativa, desencorajado pelo ridículo de passear com roupas descosturadas, repuxando a malha esticada, tentando em vão torná-la maior. Um pouco mais resignado, decidiu-se por fim a adotar uma nova tática: a dos números maiores. Sairia à rua com camisas arrastando no cotovelo, incomodando a dobra do braço, passando um pouco da conta como camisas-pijama herdadas de irmãos mais velhos, na qual o corpo se perde no volume dos panos. Seriam como roupas de pivetes, criaturas-mirins, dessas que parecem esperar pelo crescimento inevitável em roupas já de adulto, crescendo dentro, já, das próprias vestimentas.
Vestiu-se e saiu por aí, apenas parcialmente aliviado, ainda um pouco cabreiro. Leva a crer, com sua escolha, que zomba da mudança, usa as roupas que bem entende, sabe já da farsa da moda e despreza a evolução humana, satisfeito em ser dos últimos longilíneos. Há quem diga, no entanto, que há um pouco também de farsa em sua artificial adaptação. Sua deselegância petulante seria na verdade - dizem as más línguas - a última tentativa angustiada de passar despercebido e não destoar tanto dessa nova raça evoluída que domina o mundo, com cotovelos tão mais perto dos ombros.

quarta-feira, novembro 09, 2005

São muitas, muitas coisas... Mas, por ora, isso diz tudo.

...E sabe lá Deus por que, lembrei da minha família ouvindo essa música:

A minor incident - Badly Drawn Boy

There's nothing I could say
To make you try to feel okay
And nothing you could do
To stop me feeling the way I do
And if the chance should happen
That I never see you again
Just remember that I'll always love you

I'd be a better person
On the other side I'm sure
You'd find a way to help yourself
And find another door
To shrug off a minor incident
And make us both feel proud
I just wish I could be there to see you through

You always were the one
To make us stand out in the crowd
Though every once upon a while
Your head was in a cloud
There's nothing you could never do
To ever let me down
And remember that I'll always love you

segunda-feira, outubro 31, 2005