terça-feira, outubro 21, 2008

a antipoética de uma não-cidade

Poucas coisas me dão tanta preguiça quanto escrever sobre viagens. Talvez por motivo semelhante àquele que me leva a apenas raramente fotografar qualquer coisa quando visito algum lugar: o abuso que me dá essa idéia de que o registro é mais importante que a experiência sem compromisso, aliado à sensação de que é impossível organizar todas as impressões causadas pela presença e pela descoberta potencializadas em qualquer viagem, mesmo na menos promissora delas.

Mas vamos lá: a cidade da vez foi Brasília. E como todo mundo tem lá os seus preconceitos, eu também vez por outra alimento os meus, e confesso que já cheguei lá completamente desesperançado, achando que ia ser tudo um saco. E foi. (Ou melhor, tudo não porque o encontro foi ótimo, organizado, agradável, produtivo, mas isso não vem ao caso).

Pra resumir, diria que descampado, isolamento e distância foram os signos que povoaram as conversas. Cansaço e lamúria contaminaram os ânimos, aliados a uma certa perplexidade diante do fato de que nenhuma conta totalizava menos de cem reais – para o desespero deste que vos fala. Boteco, multidão e calçada, por sua vez, eu descobri que são vocábulos meio inúteis quando se trata de descrever as paisagens urbanas do distrito federal - e digo urbanas com bastante hesitação, posto que quase sempre o que se vê é uma imensidão de “espaços mortos” (sentença que virou uma espécie de idéia fixa na cabeça de um dos companheiros de viagem). Tais áreas, preenchidas com escassa vegetação, só parecem mesmo servir para tornar a locomoção de quem não tem carro simplesmente impossível.

Em sintonia com essa irritante disposição espacial, a noção de ordem é algo que parece fazer a cabeça daqueles brasilienses que são realmente apaixonados pela cidade e que não se cansam de ressaltar a praticidade, funcionalidade e conforto que se alcança ao viver nas bem projetadas quadras onde tudo deve estar disponível em um raio de 500m: escola, farmácia, igreja... Uma espécie de economia dos movimentos que, segundo a minha lógica pouco tolerante, deve tornar as interações sociais incrivelmente restritas e, em última instância, anular qualquer possibilidade de deriva urbana despretensiosa.

Aos poucos que se arriscam a um passeio menos calculado, o que os espera é um sol inclemente e um ar seco sobre o qual eu nem preciso comentar, todo mundo já deve imaginar a desgraça que é. Eu que voltei sábado e aproveitei ao máximo o meu fim de semana em terras recifenses, só agora sinto o efeito das intempéries a que me expus nos últimos dias: tô acabado.

Na nossa única incursão exploratória pelo plano piloto – de carro, obviamente –, não passou despercebido o lamento do nosso atencioso guia acerca das pixações causadas "não por marginais, mas pelos jovens bem-nascidos da cidade". E, pra minha grande surpresa, acabei afinal considerando com boa vontade o ponto de vista deles: diante daquela aparente impessoalidade, a depredação deve se assemelhar a um gesto de repulsa, manifestação de desconforto em relação às carências ocultadas por uma ordem idealizada. E como estou falando mesmo é de preconceito aqui, essa súbita consideração – quase uma simpatia – pelo delito como mecanismo de extravasamento me deu uma idéia da aversão causada por aquela arquitetura pretensamente asséptica e também tão imponente. Acreditem: eu não tinha nenhuma predisposição a me identificar, o mínimo que fosse, com a juventude brasiliense. Mas a simples idéia de morar ali me pareceu enlouquecedora.

É assim, tem gente que tem preconceito contra um monte de coisa. Eu, de minha parte, logo me municio contra essa necessidade de ordem e exclusivismo que aniquila a abertura de possibilidades que, acredito ainda, uma cidade reserva. Alguém que tiver uma experiência de desordem e surpresa na capital do Brasil que a relate e me ajude a mudar de idéia.

2 comentários:

fabulous disse...

http://www.youtube.com/watch?v=21Dd0vpw7s4&feature=related

fabulous disse...

http://www.youtube.com/watch?v=-1qgx95SFds&feature=related