quinta-feira, janeiro 08, 2009

o milagre da criação, bem ali na cozinha...

Aqui em casa agora existe um pé de inhame. Começou tudo assim de forma muito despretensiosa: abandonaram um inhame enorme ali na mesa da cozinha e dele começou a brotar uma mudinha, justamente quando as pessoas daqui viajaram pra passar o início de janeiro em outra cidade. No começo eu ignorei, afinal, não é a primeira comida que tenta virar planta por aqui – na geladeira tem sido frequentes os casos desse tipo, embora o apodrecimento ainda seja o destino mais comum para os vegetais não consumidos. Aí ela foi crescendo, crescendo, e eu também fui começando a frequentar mais a cozinha, porque a minha dieta de lasanhas congeladas – estilo super size me sadia – começou a tornar-se inviável.

Foi assim que um dia, enquanto improvisava uma coisinha ou outra – leia-se, sanduíche ou cuscuz - olhei pra mesa e eis que já se erguia diante de mim uma pequena haste verde e tesa, galgando centímetros em direção à prancha dos enlatados que fica pouco mais de um metro acima da mesa. O mais estranho é que eu comecei a nutrir um estranho sentimento em relação àquela pequena estrutura vegetal: ela me incomodava profundamente. Não sei por que comecei a associá-la a alguma presença maligna. Pior ainda: não sei em que background, lenda urbana, historinha do passado ou elemento da cultura midiática meu inconsciente se baseou para estabelecer tal associação, mas o fato é que o pezinho de inhame quase me botou medo.

Talvez tenha sido porque eu estivesse sozinho, ou porque o meu humor não vinha sendo dos mais favoráveis, mas aquela presença rígida cortando o espaço da cozinha e, o que é mais assustador (tudo bem, não é assustador, mas na ocasião me pareceu...), denunciando um crescimento admirável e surpreendente, me deixou tão desconfiado que houve um instante em que eu quase peguei uma faca pra acabar logo com a história toda. Mas fui adiando, adiando, porque eu gosto de procrastinar, porque me deu pena e também porque achei que seria uma gracinha infame esperar que minha irmã e meu cunhado voltassem e se deparassem com a comida virando floresta em cima da mesa.

O negócio é que a plantinha do satanás deve ser mesmo irresistível, ou então, todos os moradores dessa casa irremediavelmente desprovidos de iniciativa, porque a situação só piora: ninguém come o inhame, ninguém o joga no lixo e a muda já cresce frondosa e cheia de vigor. Não demora muito e ela vai estar se enroscando pelo açucareiro, pela garrafa do café... Daí eu fico imaginando uma espécie de sitcom norte-americana em que as pessoas passam pela cozinha com uma expressão abusada, pegam uma cerveja na geladeira, vão e voltam da área de serviço desfilando com uma cueca meio frouxa, olham pra mesa com cara de preguiça (claque em momento inapropriado) e por fim voltam para a sala pra curtir um pouco mais de preguiça no sofá.

p.s. Fui informado de que o inhame não está mais em condições de ser comido, e no entanto ele permanece lá, misteriosamente intocado. Já começo a pensar em possíveis nomes, para o caso de que ele se torne uma espécie de tubérculo de estimação.

2 comentários:

ana borba disse...

coloca num vasinho e me dá de presente, vai! eu como os filhos da tua planta... hua!

Anônimo disse...

my love, só vc pra ter um inhame de estimação!

nem comento que me caguei de rir!

xero