sexta-feira, setembro 26, 2008

duas visões de um pré-apocalipse

E eu ia falar sobre o Blindness, do Fernando Meirelles, mas fui adiando e adiando até que, nesse meio tempo, aconteceram outras coisas que tornaram a disposição de escrever muito mais complexa. Dentre elas, outro Michael Haneke.

Tem sido comum a comparação Meirelles-Iñarritu que, por sinal, intensificou-se muito – e justificadamente – após este Ensaio sobre a cegueira que, de fato, tem muitos pontos de convergência com Babel, não tanto em termos narrativos, mas políticos mesmo, no que se refere ao tratamento de temas e às formas de olhar, atravessados por um tom e um grau de sutileza (ou falta dela) semelhantes. A grande questão é que eu não consigo reclamar muito dos filmes destes dois sujeitos aí: depois da sessão de Babel em um Tacaruna meio mofado, por exemplo, não conseguia apontar muitos problemas capazes de justificar minhas reservas frente à empolgação dos que me acompanhavam na sessão e adoraram. Isto porque não são filmes facilmente dissecáveis, no sentido de que não possuem grandes problemas, sejam estes em termos narrativos, técnicos ou estéticos. Por isso mesmo gostei da crítica de Eduardo Valente sobre Ensaio: o primeiro ponto que ele ressalta é a competência de seu realizador e a alta qualidade técnica do filme, o que, por sinal, é o mínimo que se espera de um projeto com tantos recursos e a possibilidade de contar com grandes profissionais. O ponto, então, é que as discordâncias em relação ao cinema realizado por estes dois acaba sendo lançada a um nível mais conceitual, com as divergências remetendo a aspectos relacionados ao que esperamos de um filme, que tipo de cinema nos entusiasma e nos contempla como experiência, ou que tipo de obra parece mais honesta e rica em suas multiplicidades de leitura e apreensão de significados.

Que a minha observação sobre a ausência de grandes problemas narrativos e estéticos, no entanto, não seja mal entendida. Ensaio tem sim problemas claros: pode-se apontar a redundância que o permeia, com a narrrativa em off sendo mesmo a maior e a mais irritante delas. Igualmente desnecessário é também aquele aspecto lavado da imagem, que parece buscar, em termos estéticos, o efeito semelhante à tomada de uma junta de médicos (escandinavos) andando no corredor branco de um hospital asséptico amplamente iluminado por fluorescentes. Cabe perguntar, claro, se todo esse climinha de "superabundância luminosa" seria de fato imprescindível.



E digo que não, não é. Primeiro, pelo motivo mais óbvio: o filme tem poucas imagens subjetivas, de modo que, se isto não é motivo pra rechaçar uma experimentação estética, por outro lado deixa claro que não era incontornável o imperativo de traduzir a cegueira em cada plano. Lembro de Sandra Kogut após a exibição de Mutum no Encontro da Socine, ocorrido ano passado no Rio, argumentando por que optou por não "representar" a deficiência visual de um personagem - nem o posterior aguçamento deste sentido enfim "recuperado" -, evitando a câmera subjetiva em um momento onde qualquer abordagem mais óbvia a perceberia como "natural". Segundo a diretora, no entanto, nada do que fosse mostrado daria conta, nenhuma solução seria suficiente. E mesmo que fosse, não mostrar significava muito mais.

Com isso, poderíamos arriscar uma linha básica de raciocínio: um diretor não precisa cegar-se para filmar a cegueira, nem é preciso que se imponha uma cegueira (simulada) aos espectadores para que estes a percebam. Parece uma observação banal mas, dados os resultados apresentados por Meirelles e a satisfação com que sua proposta narrativa tem sido aceita por parcela considerável do público, tal afirmação não carece de relevância nem parece tão óbvia.

É esse então um dos pontos que diferenciam filmes delicados como Mutum de um cinema da obviedade, da redundância. Para resumir, diria que tanto Babel quanto Ensaio foram filmes razoáveis que se volatilizaram poucos minutos após o fim da sessão - e isso é talvez uma das piores coisas que se possa dizer de um filme. Sem lacunas, sem sutilezas, o filme não nos ganha, nós não o tomamos para nós, dele não fazemos parte. Pode não ser um problema para quem não se importa muito em reduzir a experiência cinematográfica a duas horas de exposição a múltiplas imagens em uma sala escura. Para mim, isso não é nem de longe suficiente.

E ainda, como disse no início, nestes últimos dias houve também Haneke. Claro que traçar uma comparação entre os dois seria, além de um despropósito, um glope muito baixo. As incríveis semelhanças entre o filme de Meirelles e Le temps du loup, no entanto, só não são maiores porque os caminhos seguidos por ambos não poderiam estar mais distantes em termos de cinema. Haneke mais uma vez me deixou com uma sensação de Terror (ao ver Caché no cinema fiquei o tempo todo oscilando: ora grudado na cadeira, ora naquela posição meio ridícula de quem está prestes a dar um salto - em direção à tela, à cadeira do coleguinha da frente ou rumo à saída de emergência, sabe lá deus). E tudo isso de uma forma aberta, inconclusa e ao mesmo tempo contundente e agressiva, de um modo que seria cansativo e desinteressante descrever. Basta então lamentar não tê-lo visto na escuridão de uma grande sala de cinema (quem vir a cena noturna de fogo e trevas em um celeiro entenderá o que estou falando). De qualquer modo, a proximidade entre os dois filmes no que se refere ao tema e ao desdobramento dos fatos é assombrosa, embora o de Haneke seja incomparável, maravilhoso. Como diria uma pessoa que, em outros tempos, era leitora deste blog, "é de estourar a catapora".

Um comentário:

nadamuitodoce disse...

Escrevi um texto com alguns pontos em comum sobre o filme de Meirelles. Não por isso, mas tô favoritando teu blog lá no meu