sábado, novembro 17, 2007

o movimento contrário

Eu admiro a integridade dos bichos que, quando doentes ou machucados, recolhem-se em um cantinho para lamber suas feridas. Mas não sei se por inexperiência, ansiedade ou mesmo por pura falta de jeito, sempre me sobra uma necessidade inconveniente de explodir aos olhos dos outros. Talvez pela pura impossibilidade de me conformar com o fato de que minha tristeza seja ignorada. Talvez pela recusa a simplesmente implodir e ter de arcar sozinho com este fardo: ser parte dos espólios e resíduos que representam aqueles que de algum modo não deram certo. Como naquela música do Ave Sangria em que o sujeito, em seu último ato de alegria perversa, ateia fogo ao próprio corpo, causando horror aos transeuntes. “Dorido, dolorido, colorido e sem razão. Ou não”.

(Mas quem, nessa época de grandes tragédias, ainda se admiraria com uma pequena e inócua explosão?).

Só sei que, talvez por isso, resta a incômoda necessidade de fugir de casa como quem foge do apagamento, como quem insiste e aposta – embora sabendo, de antemão, da derrota – no que a bagunça das ruas poderia trazer. Mas o movimento para fora é só uma muleta - artifício de bicho desprovido de sua virtude instintiva - que, com algum esforço, talvez se possa descartar. Porque, parafraseando uma outra música, Recife não mora mais em mim, e a cidade agora sequer me seduz com suas promessas.

Creio que finalmente desistimos um do outro.

2 comentários:

fabio disse...

nossa, eu mesmo me assustei agora, quando reli. será que tem volta, essa relação recife-eu, eu-recife? :p

ana borba disse...

"tente outra vez" do raul?