sexta-feira, janeiro 07, 2005

Pela noite de barulhos espaçados...
(Junho de 1929)

Pela noite de barulhos espaçados,
Neste silêncio que me livra do momento
E acentua a fraqueza do meu ser fatigadíssimo,
Eu me aproximo de mim mesmo
No espanto ignaro com que a gente se chega pra morte.

Meu espírito ringe cruzado por dores sem nexo,
Numa dor unida, tão violentamente física,
Que me sinto feito um joelho que dobrasse.
A luz excessiva do estúdio desmancha a carícia do objeto,
Um frio de vento vem que me pisa talqual um contacto,
Tudo me choca, me fere, uma angústia me leva,
Estou vivendo idéias que por si já são destinos, não escolho mais minhas visões.

A aparência é de calma, eu sei. Dir-se-ia que as nações vivem em paz...
Há um sono exausto de repouso em tudo,
E uma cega esperança, cantando benditos, esmola
Em favor dos homens algum bem que não virá...
Me sinto joelho. Há um arrependimento vasto em mim.
Eu digo que os séculos todos
Se atrasaram propositalmente no caminho,
Me esperaram, e puxo-os agora como boi fatal.
Me sinto culpado de milhões de séculos desumanos...
Milhões de séculos desumanos me fizeram, fizeram-te, irmã;
E pela noite de barulhos espaçados
Não quero escutar o conselho que desce dos arranhacéus do norte!
Eu sei que teremos um tempo de horror mais fecundo
Que as rapsódias da força e do dinheiro!

Será que nem uma arrebentação...
Os postos isolados das cidades
Se responderão em alarmas raivacentos,
Saídos das casas iguais e da incúria dos donos da vida.
Havemos de ver muitos manos passando a fronteira,
Haverá pão grátis muito duvidoso,
As salas de improviso se encherão de discussões apaixonadas
Mortas no dia seguinte em desastres que não sei quais.
Será tempo de esforço caudaloso,
Será humano e será também terribilísimo...
Só há-de haver mulheres que não serão mais nossas mulheres.
Os piás hão-de estar sem confiança catalogados na fila,
E os homens morrerão violentamente
Antes que chegue o tempo da velhice.

Mário de Andrade

2 comentários:

Heloisa Dantas disse...

Este poema é lindo! Só mesmo o Mário de Andrade para tanta intensidade, ironia, humor e tristeza.

Estava com muitas saudades deste poema e foi com grande prazer que digitei no google o início dele e dei de cara com este blog. Gostei muito. Parabéns!

Pedro disse...

Nestes versos:
E pela noite de barulhos espaçados
Não quero escutar o conselho que desce dos arranhacéus do norte!
a que arranhacéus a que norte se refere o poeta?