terça-feira, agosto 15, 2006

asas do desejo

Nós, que somos humanos, temos medo do fim, medo do efêmero, da conseqüência irreversível dos nossos atos sempre mudando o que é frágil, sempre prometendo “conseqüências sem volta”. Medo.
Os anjos nos sonham, sonham os homens e mulheres e suas possibilidades, sonham o agora em vez do para sempre e da eternidade, desejam dizer apenas um oh! ou um ah! em vez de um amém!. Os anjos, porque são anjos, vivem nossos sonhos e sonham nossas vidas, esperando sentir o gosto do sangue, o calor das mãos, a realidade no desejo e a incerteza da mortalidade. Os anjos, coitados, não vivem e não morrem. Apenas são. E nos acompanham e ajudam, por muito de misericórdia e bondade mas, também, – eu desconfio -, pra viver em nós um pouco de nossas vidas. Habitam os lugares silenciosos, ouvem nossos pensamentos e, ao contrário das almas dos espíritos dos malassombros e das aparições, não nos trazem medo, porque não aparecem - apenas estão, sempre.
Antes de vê-los na televisão eu já pensava que eles devem estar sempre nas bibliotecas, porque lá é o lugar do silêncio, lugar em que estamos sozinhos e o nosso pensamento se faz mais alto: para eles, para nós, para ninguém.
Eles sabem que para as crianças não existe morte, porque a preocupação ainda é pequena e todo momento é único. E, como crianças, querem a curiosidade e a vivacidade em cada instante, porque no tempo em que as crianças são crianças elas se interessam por tudo, e não apenas pelo que envolve trabalho.
Ela, Hannah Arendt, resumiu bem a distinção entre a imortalidade e a eternidade: o homem, porque mortal, faz a imortalidade em suas obras, seus feitos, suas palavras; mas só é eterno quando atinge o indizível, quando descobre a possibilidade da contemplação, a mais sublime atividade humana. Foi ela quem disse: “é isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. O homem é mortal, faz-se imortal pela ação e aspira ao eterno em seus sonhos, embora sempre sabendo da sua última hora. Por isso também quando Patrícia, em Acossado, de Godard, pergunta ao escritor: “qual a sua maior ambição?”, ele responde: “tornar-me imortal e, depois, morrer”.
Os anjos que são eternos nos sonham. Coitados dos anjos, não podem morrer. Mas fiquei na dúvida: seriam eles como as crianças? Afinal, os anjos perguntam?

“Quando a criança era criança,
Era a época dessas perguntas:
Por que eu sou Eu
E não Você?
Por que eu estou aqui e
por que não lá?
Quando começou o tempo
E onde termina o espaço?”

o anjo e a trapezista


domingo, julho 30, 2006

porque só roberto carlos mesmo pra gostar de domingo...

Ah, o domingo, o domingo... Você acorda logo cedo, tem aquela música bonita de Cartola tocando na sala, o cheiro bom de comida já tomando conta da cozinha, aquele ambiente familiar no qual as pessoas queridas aproveitam o merecido descanso, depois de uma semana de trabalho, pra tomar uma cervejinha, beliscar uns petiscos. Que coisa mais bucólica, singela, familiar...
Ah, a lembrança da noite anterior - porque se o domingo é um samba canção, o sábado à noite é, sem dúvida, um rock com batida eletrônica - a lembrança dos últimos fatos, a cabeça doendo, o vou-deitar-de-novo-que-passa, o cadê-o-sonridor. Depois, o desespero pós-cochilo, a dor de cabeça ainda ali, o desengano do "almoço que não é", a cumplicidade dos parentes, um que diz: "- toma um sonrisal", a outra retruca: "- um epocler", depois o cunhado, resoluto, sintetiza: "- dois xantinon, uma dipirona e um sonrisal, pronto, fica novo", mas a irmã também considerando as alternativas naturais: "- tome um chazinho de carqueja, fio", daí o outro muda de idéia e radicaliza: "- toma uma cervejinha aqui que passa", e eu: "- cala a boca, miserável, se tu sugerir isso de novo eu dou na tua cara!" Depois é só um fluxo de idéias desconexas: "- ai, minha cabeeeeeça", "- e os trabalhos da faculdade por fazer", "-mas eu não bebi quase nada, meu Deus" e a clássica: "- nunca mais eu bebo hoje"...
Pois é, caros amigos, chega um momento na vida do ser humano em que não tem jeito: é fim de carreira! Ah, a ressaca, a ressaca...

domingo, junho 18, 2006

os movimentos desejantes

As ruas de uma cidade como Recife são feitas de pequenos detalhes. Pode-se notá-los ou simplesmente ignorá-los, tão pequenos. Refiro-me não apenas ao ambiente - ou aos lugares, fisicamente. Mas às pessoas, principalmente às pessoas. É bom e estranho pensar que durante algum tempo há um contato tênue, delicado, entre a vida de um, em toda a sua singularidade, e a de outros. São pequenas cenas, pequenos momentos que se desencadeiam de forma ágil, dúbia e incompleta. São centenas, milhares de cenas, e nós escolhemos aquelas para as quais olhar, fazendo-as acontecer, de fato, para nós. Somos nós que escolhemos às quais daremos importância e que merecerão ser, por nós, mais bem pensadas.

É como diz o nome de um livro: "os movimentos desejantes da cidade". Este título - e o pouco que li dele, depois, curioso - sempre estão na minha cabeça. A cidade, sua arquitetura, seu ritmo, sua dinâmica própria de lógica obscura, é feita de vontades, buscas, desejos, caminhos que se cruzam para logo depois se perderem. Ou como dizem Rodrigo Carrero e Angela Prysthon: "os atalhos da pós-metrópole", feitos de acaso, cumplicidades efêmeras, relações frágeis que quase nunca duram o suficiente para dar chão e sentido aos seus inseguros habitantes.

Mas quem vive em uma pós-metrópole? Nós, recifenses? Uma amiga contou uma história ótima de uma família daqui que se reúne, ela toda, grande e cheia de agregados, aos domingos impreterivelmente. Há, pois, os de bases sólidas, relações duradouras e certezas. Há destes que quando andam na rua, acompanhados ou mesmo sós, em suas expressões, em seus rostos nós podemos ver que sabem para onde estão indo. Mas há os que protagonizam outras histórias, mais desconexas, mais inconclusas, e estes quase sempre deixam entrever um pouco mais de suas vidas - a expõem, a contragosto, porque não podem esconder que o caminho que seguem é incerto e parece inventado a cada passo. Estes também, invariavelmente, parecem estar apenas indo - e o "onde" parece sempre uma mera casualidade, sempre mais desimportante que o movimento de tipo tão próprio àqueles que desejam e buscam.

Hoje, por exemplo, pela segunda vez houve uma pessoa em uma parada de ônibus que ficou me perguntando o nome dos ônibus que passavam, e desta vez demorei um pouco menos pra entender que ela - como a outra, da primeira vez - na verdade não sabia ler. Nas duas vezes em que isso aconteceu eu fiquei tão perplexo com a situação que hesitei muito em subir no meu ônibus quando ele chegou - em dúvida se deveria ou não tomá-lo e deixar a pessoa lá, tendo que encontrar alguém mais que lhe indicasse os itinerários. Ainda hoje não tenho certeza se deveria ter ficado lá, lendo-lhe os letreiros até que o seu finalmente passasse, ou se não era para tanto - porque às vezes parece também uma questão de respeito e lucidez entender e aceitar a fragilidade desses encontros. Hoje também eu vi um senhor tendo que convencer, com muita dificuldade, um homem que estava no ônibus ao seu lado a descer com ele na parada - que também era a minha parada. O homem estava bêbado - poucos minutos antes eu o tinha visto dar um gigantesco gole em uma garrafa de vodka nathasha (minha cabeça doeu só de ver aquilo...). Deve ter sido arrastado para casa. Deve ser parente do senhor que a custo o pôs para fora do veículo. Ou, o que é mais provável: deve ser algo muito diferente do que eu imagino, o contexto real destes pequenos episódios urbanos.

Isso em apenas uma viagem de Nova Torre. Mas todos os dias é assim: cobradores e cobradoras cansados; transeuntes com o olhar longe; estudantes no fim do dia com seus livros, muito sono e pouca disposição pra estudar; senhoras que parecem não dar conta de sua tripla jornada de trabalho; pedintes; vendedores ambulantes; acidentados; falantes que sempre puxam conversa e às vezes contam boa parte de sua vida; uns outros que sempre dão um jeito de pôr em pauta o fracasso do time de futebol adversário; pessoas que se isolam nos últimos bancos do ônibus pra chorar; outras que andam rindo sozinhas; pessoas que flertam, que desejam, que esperam por encontros ou os forjam, sem romantismo; trabalhadores cansados, que terminam mais um dia igual a muitos outros; trabalhadores que sonham com descanso mas ainda assim levantam no dia seguinte, ainda moídos, prontos sabe-lá-deus-como para tudo de novo; os que andam com medo, na rua, olhando para todos os lados, sem descanso; os recém-chegados; os que estão partindo; os que levam malas; os que trazem bebês... A cidade é uma profusão de vidas desordenadas, e cada uma é um microuniverso, é uma possibilidade, é a soma de muitos fatos, é uma mistura de escolhas, impassividades, inércias e abnegações; é um rumo tomado em detrimento de todos os outros; é o que acontece, mesmo com - e apesar de - tudo o que poderia ter sido. É fascinante, cansativa e assustadora. Todas vidas com um propósito, mesmo que inventado. Todas querendo chegar ao fim do dia e, chegando, desejam algo de bom neste percurso. Algo de felicidade em suas horas. Querem ser, apenas isso. E ainda assim tão difícil...

Tal é a sacrificante e bela mistura de esperança e desengano que testemunhamos à medida que se faz acontecer, em doses diárias que apenas começam quando a luz do dia se evanesce. E eu lembrei do verso de Nathalia: "Agora, quero tudo que desejo".

sexta-feira, junho 09, 2006

a sempre difícil arte de ser liso e feliz

(O “valor arcaico” declara oficialmente aberta a temporada do “É de graça? Então tá valendo”).

Eu inventei uma hora do recreio aqui na Católica. Foi assim: no meio da noite eu comprei um pastel de um real e esse pequeno contrato com a menina da barraquinha me deu o direito de consumir o dobro disso, de graça, em catchup. No meu caminho de três ou quatro metros, durante a volta, escutei um casal que tinha acabado de comprar uma carteira de cigarros na banca de revistas dizendo: “- Vou acender um”. “– Eu também”. Como há dois minutos atrás eu tinha pensado no quanto seria bom fumar um cigarro naquela noite – e também porque a inveja foi muita – resolvi juntar os trocados e adquirir meu novo estoque.
Mais três passos e lembrei do famoso melhor café da rua e fui espiar: expresso, 1,30. Contei o resto dos trocados: 1,20. Pensei em pedir um desconto - ou então negociar: “1,20 mais uma agenda 2005, seminova”. No fim das contas acabei preferindo o copo de nescafé, 0,50, em outra barraquinha. (E isso é que é café instantâneo!) O fósforo, claro, o senhor do “nescafé expresso” deu de cortesia, pra acender o cigarro. “Coloca aqui perto que eu acendo. Esse fósforo tá safado demais, a caixa tá meio molhada... Oh, eu vou riscar, vê se dá tempo”. Não deu. Outra tentativa: nao. Demorou muito ate que eu percebesse o ridículo da cena e o convencesse a tentar sozinho. Foi de primeira.
O melhor: nessa hora da noite – também porque era uma sexta-feira – tinha mesa vazia na “rua do prazer”. E resumindo foi isso: um copo de café, um cigarro que deu ate pra dar um barato, um povo passando pra lá e pra cá, a mulher da mesa da frente comentando o frio, e eu que ainda lembrei de olhar pra cima vi que era lua cheia (se não era, tava parecendo). Não podia ser melhor. Ou podia. Ainda havia uma brisa fria remexendo as árvores, e eu descobri que em qualquer lugar, quando é quase-chuva, da pra ouvir o mar. Isso tudo durou bons cinco ou seis minutos. No bolso, sobraram ainda umas moedinhas chacoalhando.
Porque se pode inventar a felicidade ate mesmo (não) estudando em uma biblioteca na sexta-feira a noite.

P.S. Esse foi pra tu, Lavinia. :P

sábado, maio 27, 2006

essa incansável lavoura do quase-domingo...

“sentindo duas mãos enormes debaixo dos meus passos, me recolhi na casa velha da fazenda, fiz dela o meu refúgio, o esconderijo lúdico da minha insônia e suas dores, tranquei ali, entre as páginas de um missal, minha libido mais escura...”


“o tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória...”

quinta-feira, maio 18, 2006

sand river

Há quem diga que o que determina a importância de algo é a sua permanência. Se ficou, se durou, então é porque é bom, é verdadeiro. E eu pensei nisso com relação à música também. Vendo um filme no último domingo, na Fundação, eis que em uma das melhores cenas eu escuto a voz doce e macia de Beth Gibbons cantando uma de suas músicas mais bonitas, e lembro que já há bons três anos eu venho escutando o seu Out of season, e é como um estado de espírito, – essa capacidade que a música tem de guardar sentimentos pra mais tarde, pra que a gente possa retomá-los do lugar de onde parou, ao ouvi-la de novo! – como uma história feita de chuva, frio, tempo cinza e recolhimento. Há músicas para o sol, para o mormaço e também para o inverno – e quando chove eu lembro do Out of season, como lembro também, sempre, de Magnolia.
Talvez o passar do tempo determine as músicas que são modismos e as que fazem parte de nós, as que incorporamos ao nosso repertório de sensações e lembranças. Mas há também aquelas que ouvimos algumas vezes, ou durante um determinado período, apenas. E também essas, algumas vezes, a gente nunca esquece...

“Everybody knows this time
Shadows are drifting in silence
Where lost can't be found
Everybody knows this time

You'll get by
Move it on, let fate decide
And those water-coloured memories
Soft as a summer's breeze
...”

sábado, maio 13, 2006

sobre aquela dos beatles...

Eu já contei de quando e por que eu me intriguei de uma música dos Beatles?

Não foi nada sério, foi mais um trato. Eu não a escuto e ela não toca pra mim - embora nem sempre ela cumpra o acordo.

Mas um dia a gente se acerta e eu vou poder ouvi-la de novo, inteira.

quarta-feira, abril 26, 2006

palavas andantes

Tem um livro bonito de contos uruguaios do qual tenho extraído rápidas leituras, sempre que posso. Chama-se “As palavras andantes”, de Eduardo Galeano, e é todo ilustrado com xilogravuras de J. Borges, uma maravilha. O problema é que ele é ensolarado demais, folclórico, seco, mitológico e fantástico demais para este tempo - em Recife cai uma chuva grossa e boa de quietude.
Daí lembrei de um trechinho em que o autor fala dos meses do ano e descreve cada um, em uma “janela sobre o tempo”. Ele fala, por exemplo: “Em abril, tempo de silêncio, crescem os grãos do milho”.
Eu gosto dessas representações dos meses ligadas ao campo, à lavoura, ao semear – com os ciclos naturais regidos por uma lógica e uma sazonalidade que não existem mais por estas terras. Essa austeridade e coesão telúricas estão muito longe daqui, de fato, e a chuva forte de Pernambuco parece que só semeia mesmo cinza, vontade e silêncio e, por ora, o que se faz é refletir, ver - no mais urbano sentido de contemplação -, descansar, ler, tecer pensamentos e sentir consigo, calado.
Mas vejamos se daí germina alguma mudança. Segundo Galeano, “maio é tempo de colheita”. Eu, sinceramente, gostaria de não mais ler, em despretensiosas palavras alheias e em pequenos detalhes, nenhuma promessa. Mas... vejamos. Sempre se pode correr o risco e o êxtase de esperar...

sábado, abril 08, 2006

da história e algumas canções

Eu tinha escrito hoje, logo cedo, um texto gigantesco, cheio de considerações, entendimentos e espantos a respeito da idéia de estudar a forma como uma determinada comunidade de pessoas, por meio das suas formas de comunicação e dos seus discursos, representa sua idéia de historicidade – a idéia de como elas se vêem na construção de sua história individual e também na construção da história coletiva da qual todos fazemos parte. E nesse texto eu falava também de como isso me levou a pensar, antes de tudo, sobre o meu próprio sentido de historicidade – de como eu próprio me vejo nessa loucura toda chamada tempo, que envolve um futuro que é feito, construído, e pelo qual somos todos responsáveis. Algo como se o distanciamento besta de querer estudar os outros me levasse a finalmente querer perguntar sobre mim mesmo, e me conhecer um pouco melhor.
Foi muita coisa, o que eu escrevi. Mas... Bem, é de tarde, agora, e eu depois de quase uma semana me dei o direito de fumar um cigarro e olhar a janela ouvindo Belchior, sentindo o tempo carregado de promessa de chuva, que eu tanto gosto, pensando em tudo e em nada e no que vem em seguida – no que preciso fazer do minuto seguinte. E me ocorreu então que esse é o meu sentido de historicidade.

E sim, os sinais ainda parecem todos fechados pra nós, que somos jovens.

segunda-feira, março 13, 2006

pós-política?

“Em que lugar e quem pode tomar decisões quando uma campanha eleitoral custa milhões de dólares e a imagem dos candidatos não se baseia em programas partidários, mas em adaptações oportunistas sugeridas pelas agências de marketing político? Até as ações de estilização do produto (a cirurgia plástica do candidato, a troca de guarda-roupa e o preço pago pelos comunicólogos que o aconselham) são divulgadas pela imprensa e televisão como parte do distante espetáculo pré-eleitoral. Esta dissolução da esfera pública como âmbito de participação popular é agravada pela tecnoburocratização das decisões nos governos neoliberais. Os conflitos são negociados entre os políticos (que cada vez são mais técnicos que políticos) e os empresários; os sindicatos e os movimentos sociais tomam conhecimento através dos jornais e televisão. O que fica para os cidadãos?”

(“Consumidores e cidadãos – conflitos multiculturais da globalização”, de Nestor García Canclini, pág. 241)

quinta-feira, março 09, 2006

fábio e a vida de estudante – parte 2

No ambiente reservado ao estudo da biblioteca, em todos os dias se busca algo diferente. Há em tudo algo como um silêncio tenso, uma vontade de leitura, uma resistência pelo aprendizado e para mim, sobretudo, uma possibilidade de fuga. Eu que não havia descoberto que é possível se esconder em idéias, agora corro para o excesso de palavras para me afogar no abstrato dos livros. E olho curioso os tipos humanos que percorrem o espaço, as caras conhecidas, as criaturas exóticas, os encontros sempre proveitosos com amigos, o burburinho de vida acadêmica que parece alheia, embora também devesse ser minha. E mesmo estando já mais habituado a estudar por aqui, regularmente matriculado, é no anonimato de visitante que me acomodo melhor.
No meu pensamento disperso eu olho o movimento constante, virando o rosto de tempos em tempos e abandonando o raciocínio raso da leitura para contemplar passantes, observar os corredores ou misturar constrangimento e jogo na observação dos estranhos com seus livros e suas idiossincrasias enquanto lêem. Eles, os estranhos, de vez em quando sentem-se observados e me olham também, e me divirto imaginando meu semblante de psicopata fitando os outros com cara de desconfiança ou risinhos esquisitos no rosto, eu que não sei pensar sem expressões faciais me acompanhando. Assim eu lembro também de Demian e resolvo que qualquer dia vou brincar de ser persuasivo: escolher alguém, mentalizar alguma ação - ordenar por exemplo “coce a cabeça”, “coce a cabeça” - e esperar pra ver se ele - ou ela - coça, mesmo. (Depois conto se dá certo, se acontece como no estranho romance do sujeito que tem a marca de Caim na fronte).
Mas como ia dizendo, na biblioteca o estudo é a menor das minhas ocupações. Aqui a gente anda entre as estantes cheias de volumes e é quase um sonho porque se acredita que, na leitura, pode-se ser um pouco de tudo e viver muito escolhendo menos. Estudar psicologia, direito, medicina, álgebra linear ou teologia: neste universo o único ônus de nossos experimentos é o tempo tomado pelas leituras escolhidas. Aceitando esta sacra dedicação, podemos ser um pouco psicanalistas - ler Freud, Jung e interpretação dos sonhos - ou historiadores, críticos de arte, arquitetos... Rompendo essa barreira de fatalismo solidificada pela falta de tempo e pela preguiça, podemos planejar viver várias vidas à medida que nos apropriamos destes textos. A escolha aqui também se mostra inevitável, claro, e se faz a cada página lida ou descartada, mas tudo parece ao alcance, as várias possibilidades que ignoramos nos nossos caminhos estão impressas e bem ali – a irresistível sedução de tudo que se pode construir com imaginação e de tudo o que se pode esquecer da amargura de outras horas.
É esta sedução que me faz perder longos instantes andando entre os livros, enriquecendo bibliografias que nunca iniciarei, criando roteiros de leituras que nunca acontecerão, mas me embriagando com a infinidade de coisas que desconheço e que parecem as únicas capazes de me salvar – nem pessoas nem fatos, pois disto já desisti. Deslizando os dedos entre os volumes - “Posse, possessória e usucapião”, “La anatomía humana”, “Filosofia medieval”, “Compendio de la teoria general del Estado”, “Teoria psicanalítica das neuroses”, “Anthologie du catholicisme social en France”, “Introdução ao pensar” (e eu que nem sabia que precisava me iniciar, comecei tão cedo e desordenado, também já nasci pensando) - as mãos e os olhos vão percorrendo tudo e os planos de ler, apenas, já satisfazem. Eu que tenho preguiça até de viver histórias inventadas...

(a primeira parte foi postada em agosto do ano passado)

sábado, março 04, 2006

bande à part

Um triângulo amoroso, flertes, romantismo e acidez, dois momentos musicais fantásticos, um significativo minuto de silêncio, a cena agora famosa da corrida no Louvre, tiros esquisitos em gente que não sabe morrer e um final com uma última cena de doer, de tão ruim. Este é mais um de Godard, e dos bons.

domingo, fevereiro 19, 2006

“- O meu carnaval sem nenhuma alegria!...”

Carnaval deveria ser algum tipo de plano emergencial que a gente aciona sempre que precisa e unicamente quando – e isso é o mais importante – ele for conveniente. Alguém bate o pé, uma batucada mais animada, uma vontade de festa e pronto, corre todo mundo, ajeita o carnaval que agora é hora! Mas não, ele chega sempre assim, data marcada em calendário, feriado concedido e pronto: é de vocês, divirtam-se, celebrem a vida e estejam imbuídos do espírito de confraternização – tudo assim, intransigentemente. E não há coisa mais desoladora para o ser humano do que a alegria compulsória, esfregada na cara e diluída em excessos.
E eu me pergunto onde estão as pessoas que fazem meu carnaval; em que esquina montaram o nosso bloco e esqueceram de me avisar; que misteriosa felicidade inventaram, essa, que comporta uma expressão tão insossa, uma inconclusão de despedida às pressas, com bilhete e na surdina; quem ignorou o suor farto das ladeiras e pontes e nos deixou, direto, esse suor frio de ressaca de cinzas.
Talvez por essa contradição insolúvel das grandes festas de rua, não são poucos os poetas que nos sentiram o carnaval em versos, e lembro que ano passado o que me ficou cristalizado como memória e referência foram os “Poemas da negra”, de Mário de Andrade, que falavam de um inesquecível carnaval pernambucano, com seus mangues, grilos, brisas, erotismo, madressilvas e cais. Esse ano... Sei não, mas se a promessa sedutora do modernista, no último carnaval, já não se cumpriu, esse ano eu já me sinto bem mais pro carnaval melancólico de Manuel Bandeira.
Mas vamos todos, sim, continuar, como Schumann, compondo nosso carnaval – porque ele, na verdade, ainda está por vir.

sábado, fevereiro 11, 2006

intervalo anticomercial #2

"Os homens inventaram um jeito batata de regular a máquina do fodido. O corpo do fodido ta desarranjado dum jeito que sente com a cabeça, pensa com a barriga e caga pelo coração.”

Jussara Pé de Anjo, uma das putas assalariadas, na Ópera do Malandro.

sábado, fevereiro 04, 2006

intervalo anticomercial #1

“Nas formas primitivas da sociedade, quando a maioria dos indivíduos vivia em dependência da terra de onde tiravam a própria subsistência, a experiência do fluxo do tempo estava estreitamente ligada aos ritmos naturais das estações e ao ciclo do nascimento e da morte. À medida que os indivíduos foram gradualmente sendo atraídos por um sistema de trabalho fabril e urbano, a experiência do fluxo do tempo foi se associando cada vez mais aos mecanismos de observância do tempo em sincronização com as horas de trabalho e com a organização dos dias da semana. Logo que o tempo começou a ser disciplinado pelos objetivos de aumentar a produção das mercadorias, houve uma certa troca: os sacrifícios feitos no presente eram trocados pela promessa de um futuro melhor. A noção de progresso, elaborada pelas filosofias iluministas da história e pelas teorias sociais da evolução, foi sendo experimentada no dia-a-dia da vida como o enorme hiato entre a experiência passada e presente de um lado, e os horizontes continuamente mutáveis das expectativas associadas ao futuro, de outro.
A experiência do fluxo do tempo pode estar mudando hoje. À medida que o passo da vida se acelera, a terra prometida para o futuro não se torna mais próxima. Os horizontes das expectativas sempre incertas começam a desmoronar, à medida que vão se encontrando com um futuro que continuamente fica aquém das expectativas do passado e do presente. Torna-se cada vez mais difícil persistir numa concepção linear da história como progresso. A idéia de progresso é um modo de colonizar o futuro, é uma maneira de subordinar o futuro aos nossos planos e expectativas presentes. Mas à medida que as deficiências desta estratégia se tornam mais claras dia após dia, e o futuro repetidamente confunde nossos planos e expectativas, a idéia de progresso começa a perder força entre nós.”

John B. Thompson. A mídia e a modernidade – Uma teoria social da mídia.

terça-feira, janeiro 24, 2006

pausa

Essa birosca tá fechada pra balanço.
Vou passar um tempo sem escrever aqui, porque é como diz a estória: quando não se tem nada de bom a dizer, o melhor mesmo é calar.
Ou como bem falou o crítico ao Guido, em Oito e meio, e que, a propósito, já mencionei aqui: “é melhor destruir, quando não se cria o essencial”.
Então vou ficar um pouco quieto, enquanto alimento o sonho de destruições maiores, ou até que peça penico e volte correndo pra essa válvula de escape e sedativo - o que acontecer primeiro.
Para a meia dúzia que passa por aqui: vejam o blog do Samarone, o www.estuariope.blogspot.com, que ele sim é cheio de coisa boa pra dizer (e eu rasgo a seda mesmo, porque sou fã).
No mais, deixo uma musiquinha pra animar os nossos intervalos anticomerciais aqui no valorarcaico.blogspot.com (anticomercial sim, porque o dono desse blog tá numa crise braba e sem precendentes mas ainda se pretende de luta :p).


"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
inventa contra a mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera"

sábado, janeiro 21, 2006

a decadência americana e o vazio pós-moderno na visão perversa de Solondz

Assistir a Histórias Proibidas, de Todd Solondz, parecia um entretenimento de alto risco. Primeiro porque eu adoro muitas das bonitas músicas do Belle and Sebastian que estão em sua trilha sonora, e não era pequeno o risco de que as contaminasse irremediavelmente, em minha memória, com o clima deprimente que o filme prometia. Segundo porque há tempos, já, eu fico na corda bamba com esse time de diretores americanos que se especializaram em retratar com visão amarga e niilista a decadência social, familiar e afetiva que permeia a sociedade estadunidense, visão esta que está sempre no limite entre a crítica dura e o pessimismo decadente. De minha parte, adoro as porradas que Todd Solondz, Wes Anderson e Alexander Payne metem na mediocridade americana, mas o fato é que, como americanos e, mais que isso, como vítimas também dessa “crise pós-moderna”, eles tampouco demonstram ter algo de positivo a defender, e resumem-se a radicalizar, não sem certas doses de cinismo e perversidade, todo elemento humano e social dos nossos dias, incluindo-se aí questões sexuais, étnicas e midiáticas.
O filme em questão, com o título original e bem mais interessante de Storytelling, avança em pelo menos um ponto em relação a outros que seguem a mesma linha. Propõe uma outra e interessantíssima discussão que vem a somar-se e completar, oportunamente, esta simples ridicularização do “american way of life”: nele, aborda-se o ato de contar histórias, representar, interpretar e reconstruir a realidade via processos de comunicação, sejam eles literários, cinematográficos, documentais. Dividido em duas partes, Fiction e Nonfiction, o roteiro expõe a influência de quem se propõe a contar uma história sobre as idéias que comunica. A informação estaria condenada à parcialidade de quem a transmite e, assim, a veracidade do que é dito, bem como do discurso veiculado por esta mensagem, está comprometida ou, ao menos, relativizada pelos valores, preconceitos e experiências pessoais de quem a reproduz. Assim, um fato verídico pode parecer absurdo, mesmo quando expresso sob a forma de ficção, e um outro relato, mesmo quando se pretende documental, por sua vez, perde o caráter “real” quando mediado pelo ponto de vista daquele que relata.
É engraçado, então, como no filme de Todd Solondz a ficção e a não-ficção se misturam, se contradizem e se negam, na prática. A ficção, argumenta-se, pode ser simples veículo para mascarar fatos reais de modo a possibilitar a exposição e o debate de uma experiência (e, porque não, para ajudar o autor a remoê-la), assim como o que se propõe a ser documental pode resultar em uma visão deturpada, parcial e, consequentemente, em uma representação não fidedigna da realidade (e neste ponto acaba sobrando para a atuação do próprio cinema e da mídia, que manipulam realidades ao seu gosto e de acordo com suas pretensões).
Essa crítica social e essa pretensa “reflexão” vêm à base de uma narrativa destruidora e, para o quesito polêmica, Solondz escala um time de peso: um deficiente físico, um professor de literatura negro, uma empregada de nacionalidade salvadorenha, um típico adolescente cabeça oca - daqueles bem estereotipados -, um casal que parece viver à base de algumas caixas de lexotan diárias e ainda uma “adorável” criança prodígio, daquelas bem sebosinhas e irritantes mas que são consideradas pelo status quo como um sonho para qualquer família, meiguinha e inteligente.
No filme há também o que se pode interpretar na melhor das hipóteses como uma alusão à tão alarmada e evocada “crise ideológica atual” ou que (o que é bem mais provável) pode ser na verdade uma tentativa de ridicularizar qualquer crença e auto-afirmação da juventude: na camisa usada pelo jovem “protagonista” do filme (e do documentário que dentro dele está sendo realizado) estão estampados uma foice e um martelo. Ora vejam se o tão crítico Solondz também não acha bonito e inteligente ridicularizar pensamentos contra-hegemônicos! A impressão que fica, na verdade, é que pra ele nada serve e a vida é mesmo uma merda (acusação da qual, aliás, ele busca logo se defender, apressando-se em colocá-la na boca de um dos ridículos personagens que, enfurecido, grita para a câmera: “A vida é dura pra você? Azar!”).
Solondz mostra que o documentário realizado ao longo do filme só serve para dar o golpe de misericórdia na deprimente vida do garoto Scooby, e que a função almejada pelo diretor fictício interpretado por Paul Giamatti no mesmo documentário é, na verdade, ridicularizar e provocar o riso com a miséria alheia. Mas eu pergunto: não estaria ele, Todd Solondz, o diretor da vida real, de carne e osso, fazendo a mesma coisa com os seus personagens? Porque eu ri o tempo todo com as suas perversidades.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

besteira à vista

Cá com meus botões, pensando (alguém mais sente isso?) que gostaria de tomar um banho de água sanitária, lavar tudo, por dentro e por fora, pra tirar as impurezas, as mazelas, o ranço - todas essas coisas ruins que fazem a gente se sentir sujo - quando tive vontade de ver no dicionário: o que, afinal, significa creolina?
Dúvida relevante demais, essa, a propósito. Eu sei que nem é a primeira vez que recorro a definições de dicionário, aqui no blog, mas na verdade eu às vezes gosto disso: pegar palavras que aprendi de ouvido, de tanto os outros falarem, e ver o que elas significam para além da banalização do uso diário.
Creolina. sf. Denominação comercial de um líquido anti-séptico à base de creosoto. (Danou-se, que agora deu preguiça de ver o que significa creosoto).
Eu tantas vezes lembro da cena de um filme em que uma mulher, lendo um livro deitada na cama, vai aos poucos sendo tomada por águas que, do nada, invadem o quarto e vão deixando-a submersa, envolta, alheia. Essa cena creio que significa a reminiscência de uma morte – a de Virgínia Wolf – mas eu às vezes lembro disso de forma menos mórbida, quero dizer, apenas como uma sensação boa de submergir, como se a água limpasse tudo – necessidade recorrente, essa, de uma limpeza profunda, subjetiva.
Mas o banho de água sanitária (que, aliás, lá em Juazeiro se chama kiboa, que é a marca de uma delas - algo como chamar de bombril a palha de aço) hoje é por motivos mais físicos, mesmo. Será uma súbita intolerância a essa vida junkie de álcool, fumo, sedentarismo, fast food, gorduras, enlatados, etc etc etc? Sei não – não me imagino adepto da macrobiótica ou dessas outras coisas de nome difícil que não dá nem vontade de pesquisar significado.
Aliás, por falar em dicionário: um dia, no Estuário, o Samarone falou de uma menina que disse que não tinha a palavra “feio” no dicionário dela.
Fui olhar: no meu tem. :Taca kiboa nele.

domingo, janeiro 08, 2006

canclini

“Há duas maneiras de interpretar o descontentamento contemporâneo provocado pela globalização. Alguns autores pós-modernos se concentram nos setores em que o problema não é tanto a falta, mas o fato de o que possuem tornar-se a cada instante obsoleto ou fugaz. Analisaremos esta cultura do efêmero quando nos ocuparmos da diferença de atitude entre espectadores que selecionavam os filmes pelo nome dos diretores e dos atores, pela sua situação na história do cinema, e videófilos interessados unicamente em estréias. Muito do que é feito atualmente nas artes é produzido e circula de acordo com as regras das inovações e da obsolescência periódica, não por causa do impulso experimentador, como no tempo das vanguardas, mas sim porque as manifestações culturais foram submetidas aos valores que ‘dinamizam’ o mercado e a moda: consumo incessantemente renovado, surpresa e divertimento. Por razões semelhantes a cultura política tornou-se errática: desde que se tornaram raros os relatos emancipadores que viam as ações presentes como parte de uma história e procura de um futuro renovador, as decisões políticas e econômicas são tomadas em função das seduções imediatistas do consumo, o livre comércio sem memória de seus erros, a importação afobada dos últimos modelos que nos faz cair, uma e outra vez, como se cada uma fosse a primeira, no endividamento e na crise da balança de pagamentos.
Uma visão integral, porém, deve dirigir o olhar em direção aos grupos em que se multiplicam as carências. A maneira neoliberal de fazer a globalização consiste em reduzir emprego para reduzir custos, competindo entre empresas transnacionais, cuja direção se faz desde um ponto desconhecido, de modo que os interesses sindicais e nacionais quase não podem ser exercidos. A conseqüência de tudo isto é que mais de 40% da população latino-americana se encontre privada de trabalho estável e de condições mínimas de segurança, que sobreviva nas aventuras também globalizadas do comércio informal, da eletrônica japonesa vendida junto a roupas do Sudeste Asiático, junto a ervas esotéricas e artesanato local, em volta dos sinais de trânsito: nesses vastos ‘subúrbios’ que são os centros históricos das grandes cidades, há poucas razões para se ficar contente enquanto o que chega de toda parte se oferece e se espalha para que alguns possuam e imediatamente esqueçam.”
Trecho do livro “Consumidores e cidadãos – conflitos multiculturais da globalização”, de Nestor García Canclini

quarta-feira, dezembro 28, 2005

pacto

Você, que tantas vezes olhou para o céu, nas noites altas da estrada, e teve um lampejo efêmero de transcendência, achou que tudo era grande e inexplicado e bom e sentiu um aconchego de colo com essa idéia épica que – você não sabia – era sua consciência de natureza aflorando, dando-lhe essa ousadia de acreditar no divino, de reconfortar-se na pequenez de um mundo gigante enquanto achava nessa mesma vastidão uma promessa de futuros cheios de si, inabaláveis em sua revelia, seu mistério de acontecer. Ousadia que era quase pecado, inibida por tua cabeça ceticamente construída para negar, cheia de falsas idéias de certeza.
Era nessas altas noites que você repousava, feliz, cansado, sem ordem para pensar nem tampouco métodos para sentir, mas eram essas mesmas noites que sufocavam, tensas, pelo gosto frustrado de liberdade engasgada. Então você sonhava mais, e mais alto, mas num sonho natimorto, sem esperança de existir, seco e sonolento. Sonhava com outras estradas, emoções e atos de independência que não sabia a que atribuir. E no dia-após-dia de caminhos retos esse desejo expansivo se reprimia, abafando o estopim impossível e carente de planos em mais um sono e mais um trago. E forjando alegrias para evocar essa felicidade irreal, enterrava as felicidades repentinas reais... E alimentando essa tristeza de bicho preso ignorava as infelicidades que não tinham lugar nenhum no mundo, dispersas, difusas... Vivia alegrias que não eram suas, e tristezas que inventava. O mais, o real, foi momento efêmero que pouco se contou.
Mas faz como naquelas noites e olha para o céu, e veja que a lua e essa brisa e essa temperaturazinha boa e ainda o possível mar que às vezes se vê, são eles todos tão reais quanto a sujeira que você aspira impassível, a casca que usa a contragosto e até o que você chama de coletivo. Percebe que para além do convívio humano há uma natureza que é concreta e orgânica como a sua matéria e ao mesmo tempo tão metafísica quanto os seus sonhos. E é assim que se percebe a impossibilidade de estar completamente sozinho - no pior, no melhor, estamos juntos, você e eu, num diálogo difícil mas cheio de sinceridade, brilho nos olhos e entendimento que à custa de muito esforço se consegue. Sim, podemos nos entender, pois eu já te acompanho há tempos: tuas antigas solidões à janela, já de todo superadas; teus segredos tão bem guardados, resvalando em ímpetos incompreendidos; teus defeitos indisfarçáveis e teu medo de regredir; teus sonhos contraditórios, desmentidos e logo em seguida reafirmados, sucessivas vezes, pela espontaneidade e mais ainda pela incapacidade em dosa-los ou guarda-los para si. Na pior, na melhor das hipóteses, olhemos sempre para essas coisas boas ao alcance, e assim mintamos, se for preciso, pois juraremos que elas serão nossas, sempre, e diremos que é tudo necessário e bom ao espírito, e reconstruiremos nossas lembranças, nossos afetos, agora que descobrimos que o bom e o mau dependem tanto da gente e que a nossa divindade boa e difícil é o Tempo. E quando aquelas dores, bem, quando elas parecerem insuportáveis demais - a saudade, a incerteza, o desejo, a esperança, essas coisas que machucam – vamos tentar pensa-las assim, como coisas, elas mudam!, elas passam! E quando a impossibilidade do que para os outros é fácil se mostrar, na sua cara, e você tiver ânsia daqueles caminhos impossíveis, vamos fazer planos de estrada, cultivar sonhos realizáveis de mundo, e se o medo de que eles jamais se realizem apertar um pouco mais o coração, prometa que haverá um esforçozinho para sorrir e eu te prometo: vou te trazer, Fábio, um ano novinho de presente!

Para ouvir: “Ce matin la”, do Air

domingo, dezembro 25, 2005

quase-fim

Ok, eu passei uns dias pensando em um jeito de acabar isso aqui de forma interessante e definitiva. Por diversos motivos, mas principalmente porque tenho me motivado a escrever sobre outras coisas que certamente cabem melhor em outro espaço que não aqui, neste “lost in solitude”. Mas em respeito a esta companhia fiel de mais de um ano e por pura falta de idéia de como começar algo diferente e de como e o quê eu quero escrever agora, vou continuando por aqui. No mais, já me acostumei ao tom meio confessional e ao estilo meio esquizofrênico desse blog em que cabe de tudo, heterogeneamente - de resenhas bestas de filmes a insanidades escritas depois de uma bebedeira.
Bom, o que dizer? É natal, mas eu que não o levei a sério cometi o erro tosco de achar que todos pensaram exatamente igual a mim. Quero dizer, eu simplesmente entrei nessa ondinha esnobe de dizer que o natal é uma data comercial, hipócrita e tabacuda, e esqueci que, para além da mercantilização e de algumas baboseiras natalinas, há quem ainda consiga fazer das comemorações, dos simbolismos, a oportunidade para coisas bonitas: presentear quem se gosta, desejar coisas boas. Eu não me dei conta disso a tempo e fui pego pelo natal “de calças curtas”, como se diz. Ganhei presentes e votos de felicidades quando já não havia tempo para presentear nem desejar nada a ninguém.
E claro, como as relações sociais são feitas também de conflito, fui surpreendido com uma alfinetada em forma de mensagem de afeto. Acho justo: ocasiões especiais também são bons momentos para apontar, aos outros, aquelas coisinhas que não gostamos e que podem virar resolução de ano novo. Desejaram que eu fosse sempre “o meu melhor”, e eu então tive medo de que tenha sido o meu pior para esta pessoa em algum dia, este ano.
Então tá, primeira resolução de ano novo: vou buscar ser sempre o meu melhor, para todo mundo. Mas quando outra ocasião especial surgir, vou dar um jeito de deixar a todos o meu pedido, junto aos votos: “O meu melhor? Vou tentar. Mas, por favor, percebam sempre...”

P.S. Feliz natal a todos. :p