A vista da minha janela proporciona sensações as mais variadas. Hoje, por exemplo, descobri que observar os carros que passam ao longe, na 17 de agosto, ao som de Sigur Ros, é experiência das mais esquisitas (ou minha esquisitice materializou-se, exaltada que foi pela música, nos pobres veículos nem um pouco culpados da minha esquisitice).
Acontece que minha janela, nessas últimas horas, decidiu virar protagonista das minhas horas, e absorveu-me com suas papagaiadas. Imagina só que ontem eu invento de dormir logo cedo – ganância de estudar quando o cérebro se recusa – e só acordo às 4h da manhã, sem nada a fazer, a não ser deixar que o mundo fale. E lá vou eu ver a rua tranqüila, imaginar os percursos e percalços de um transeunte que porventura se arriscasse a essa hora da madrugada. Seria bom? Seria ruim? A iluminação triste e amarelada, a quietude, o ar parado e cauteloso da noite, tudo lembra Drummond e diz que é bom ser livre nas ruas. Aquele sentimento de anacronismo me invade, vontade urgente não-realizada de passeios soltos, noites claras, bebidas baratas, romances de calçada e filosofias de praças. Meu fígado por uma zona boêmia qualquer, dos anos 50!
Mas digo papagaidas porque minha janela nem sempre é tão sisuda, e mostra coisas as mais variadas conforme o humor que o dia assume. Desde os fuscas e motocicletas velhas que sobem a ponte causando estampidos de assustar vizinhanças até verdadeiras cenas policiais de tiro e perseguição – minha janela tem um humor macabro que ainda não decifrei.
Nem tudo, pois, é felicidade na minha janela. Esse momento, assim, vazio, abandonado, traz reminiscências tristes do nada a fazer, da espera vã, do quieto desespero que nela revivo, separado que já me deixou, algumas vezes, do mundo.
A janela só me serve quando mostra algo que conheço, e quando me sinto capaz de descer até lá embaixo e viver. Porque nela, afinal, tudo passa longe: carros, pessoas, formigas...
quarta-feira, outubro 20, 2004
segunda-feira, outubro 18, 2004
...sessão descarrego...
“A vida tem seu jeito de nos ensinar...”
Relutei muito em escrever este post, mas há algo que precisa ficar bem reafirmado em algum lugar assim, visível, de fácil acesso para mim. Algumas coisas precisam ficar bem óbvias, explícitas, para não serem esquecidas.
É fato que em alguns momentos inevitavelmente nos perdemos. A primeira grande decepção pessoal a gente nunca esquece, e para mim, se deu há algum tempo atrás e foi do pior tipo: foi a decepção não por não ter atingido meus objetivos, mas por, ao atingi-los, perceber que em algum lugar, no meio do caminho, eles tinham perdido um pouco do seu sentido. Vai ver que foi aí que me perdi, quando desacreditei da idéia de que planejar, ter sonhos realizáveis, concretos e definidos em tempo e espaço era válido, e comecei a pensar que a vida era muito volátil para permitir qualquer meta, qualquer certeza ou direcionamento. Como diz uma personagem no filme mexicano “Amores brutos”: “Se queres fazer rir a Deus, conta-lhe teus planos.”
Um bom tempo se passou, afinal, e um pouco de maturidade talvez tenha sido somado às minhas parcas qualidades. A vida mostrou que é muito difícil, mesmo, saber que rumo os fatos tomarão e para onde seremos levados, uma vez que nosso bem estar - nossa paz de espírito, diria mesmo - depende de um sem-número de fatores... incontroláveis. Como um estalo, no entanto - ou melhor, não de forma assim tão brusca, mas como que num despertar, num instante de maior lucidez, em que uma névoa se dissipa e enxergamos melhor a verdade – percebi que mesmo quando frustrada, a ação nos leva a algum lugar. Nem sempre para onde esperamos, mas para algum lugar, sim, onde há o novo que nos espera... E é disso afinal que precisamos: do novo, da mudança, não aquela que nos atropela e nos deixa para trás, engolindo poeira, mas aquela que nós criamos intimamente, com o aprendizado, a disposição, o amor por nós mesmos e pelas possibilidades que podemos encontrar.
Assim, de espírito renovado por esse despertar afinal concretizado, sinto-me levado a planejar de novo, querer, sonhar com algo além da já tão difícil plenitude momentânea. É bom pensar o presente, celebrando cada hora, valorizando cada palavra que ouvimos, cada som, cada imagem, cada rosto amigo, cada beleza com a qual temos contato em um único minuto, o minuto do agora. Mas a individualidade é necessária - assim como a noção de que haverá, talvez, muitos minutos seguintes, e só nós podemos decidir o que faremos deles. E essa individualidade se constrói em convicções, em certezas íntimas, em algo maior que as circunstâncias. Quase como aquele amor que temos pelos nossos familiares, então, que independe de qualquer erro, qualquer mágoa, qualquer distância, assim acho que devemos também amar nossos princípios, nossos objetivos: independente de qualquer circunstância ou conjuntura que nos envolva, de qualquer falha ou desilusão. Porque a verdade é que, no fim, essa beleza momentânea, esses rostos amigos, essas palavras que ouvimos, essa música que escutamos, tudo pode ir embora, e é provável que o único elemento capaz de unir tantos instantes soltos ao longo de nossa existência não seja outro que não nós mesmos.
As pessoas vão embora, por motivos diversos. Algumas de forma mais suave, branda, simplesmente levadas por caminhos diferentes. Outras de forma abrupta, por meio de uma mágoa, um desinteresse repentino, uma ânsia de se desligar do que está ao redor e buscar outros semelhantes e outras histórias, ou, de forma mais trágica, deixando de existir entre nós. E a pior situação de todas deve ser encontrar-se com aquela sensação de que todos seguem adiante e você ficou pra trás, imutável, vendo todos ao longe e com um vazio impreenchível, tamanho o esvaziamento de qualquer resquício de ideais, tamanha a anulação, também, por meio da ingênua crença de que o bem e a satisfação estão sempre no ambiente externo, e nunca em si mesmo.
Essas palavras não são motivadas por uma ausência ou objetivo frustrado específico. Vêm antes da difícil avaliação que precisa às vezes ser feita, intimamente, de o que queremos ser, ou melhor, se seremos algo ou apenas um mero rascunho sempre alterável, de acordo com veleidades as mais variadas.
Vou citar ainda um outro filme (eles sempre me socorrem quando fico sem palavras).... Em “As horas”, uma personagem fala: “O que significa arrepender-se, quando não se tem escolha?” É assim que me sinto. Tudo o que faço e tenho feito é, no mínimo, honesto... Vem da espontaneidade, da vontade de ser verdadeiro comigo mesmo, da necessidade de acreditar que “essa vida, sem o amor, seria uma molecagem” (para não perder o hábito de citar Fernando Sabino).
Não é fácil preservar o amor-próprio nem a possibilidade de construir e de conciliar individualidade e a valorização do outro, evitando os extremos - o egoísmo ou a auto-anulação. Por isso escrevo: porque há dias em que a motivação nos some, o desânimo pesa, e quase que não podemos com aquele aperto, aquele nó que o medo nos impõe. E mais difícil ainda é agir e entender que essa ação nos leva, ao longo de dias ruins, ao encontro de momentos melhores. Por isso quero preservar esse instante em que tudo parece tão claro, em que tenho consciência do esforço necessário para corrigir posturas, para evitar atitudes impensadas que acabam fazendo mal. Por isso é que isto ficará escrito, mesmo que seja demasiadamente longo ou pessoal e, portanto, não desperte o interesse de muitos. É meu, reservo-me o direito a este espaço, nesse blog que tão necessário será ainda, para mim.
"Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar"
“A vida tem seu jeito de nos ensinar...”
Relutei muito em escrever este post, mas há algo que precisa ficar bem reafirmado em algum lugar assim, visível, de fácil acesso para mim. Algumas coisas precisam ficar bem óbvias, explícitas, para não serem esquecidas.
É fato que em alguns momentos inevitavelmente nos perdemos. A primeira grande decepção pessoal a gente nunca esquece, e para mim, se deu há algum tempo atrás e foi do pior tipo: foi a decepção não por não ter atingido meus objetivos, mas por, ao atingi-los, perceber que em algum lugar, no meio do caminho, eles tinham perdido um pouco do seu sentido. Vai ver que foi aí que me perdi, quando desacreditei da idéia de que planejar, ter sonhos realizáveis, concretos e definidos em tempo e espaço era válido, e comecei a pensar que a vida era muito volátil para permitir qualquer meta, qualquer certeza ou direcionamento. Como diz uma personagem no filme mexicano “Amores brutos”: “Se queres fazer rir a Deus, conta-lhe teus planos.”
Um bom tempo se passou, afinal, e um pouco de maturidade talvez tenha sido somado às minhas parcas qualidades. A vida mostrou que é muito difícil, mesmo, saber que rumo os fatos tomarão e para onde seremos levados, uma vez que nosso bem estar - nossa paz de espírito, diria mesmo - depende de um sem-número de fatores... incontroláveis. Como um estalo, no entanto - ou melhor, não de forma assim tão brusca, mas como que num despertar, num instante de maior lucidez, em que uma névoa se dissipa e enxergamos melhor a verdade – percebi que mesmo quando frustrada, a ação nos leva a algum lugar. Nem sempre para onde esperamos, mas para algum lugar, sim, onde há o novo que nos espera... E é disso afinal que precisamos: do novo, da mudança, não aquela que nos atropela e nos deixa para trás, engolindo poeira, mas aquela que nós criamos intimamente, com o aprendizado, a disposição, o amor por nós mesmos e pelas possibilidades que podemos encontrar.
Assim, de espírito renovado por esse despertar afinal concretizado, sinto-me levado a planejar de novo, querer, sonhar com algo além da já tão difícil plenitude momentânea. É bom pensar o presente, celebrando cada hora, valorizando cada palavra que ouvimos, cada som, cada imagem, cada rosto amigo, cada beleza com a qual temos contato em um único minuto, o minuto do agora. Mas a individualidade é necessária - assim como a noção de que haverá, talvez, muitos minutos seguintes, e só nós podemos decidir o que faremos deles. E essa individualidade se constrói em convicções, em certezas íntimas, em algo maior que as circunstâncias. Quase como aquele amor que temos pelos nossos familiares, então, que independe de qualquer erro, qualquer mágoa, qualquer distância, assim acho que devemos também amar nossos princípios, nossos objetivos: independente de qualquer circunstância ou conjuntura que nos envolva, de qualquer falha ou desilusão. Porque a verdade é que, no fim, essa beleza momentânea, esses rostos amigos, essas palavras que ouvimos, essa música que escutamos, tudo pode ir embora, e é provável que o único elemento capaz de unir tantos instantes soltos ao longo de nossa existência não seja outro que não nós mesmos.
As pessoas vão embora, por motivos diversos. Algumas de forma mais suave, branda, simplesmente levadas por caminhos diferentes. Outras de forma abrupta, por meio de uma mágoa, um desinteresse repentino, uma ânsia de se desligar do que está ao redor e buscar outros semelhantes e outras histórias, ou, de forma mais trágica, deixando de existir entre nós. E a pior situação de todas deve ser encontrar-se com aquela sensação de que todos seguem adiante e você ficou pra trás, imutável, vendo todos ao longe e com um vazio impreenchível, tamanho o esvaziamento de qualquer resquício de ideais, tamanha a anulação, também, por meio da ingênua crença de que o bem e a satisfação estão sempre no ambiente externo, e nunca em si mesmo.
Essas palavras não são motivadas por uma ausência ou objetivo frustrado específico. Vêm antes da difícil avaliação que precisa às vezes ser feita, intimamente, de o que queremos ser, ou melhor, se seremos algo ou apenas um mero rascunho sempre alterável, de acordo com veleidades as mais variadas.
Vou citar ainda um outro filme (eles sempre me socorrem quando fico sem palavras).... Em “As horas”, uma personagem fala: “O que significa arrepender-se, quando não se tem escolha?” É assim que me sinto. Tudo o que faço e tenho feito é, no mínimo, honesto... Vem da espontaneidade, da vontade de ser verdadeiro comigo mesmo, da necessidade de acreditar que “essa vida, sem o amor, seria uma molecagem” (para não perder o hábito de citar Fernando Sabino).
Não é fácil preservar o amor-próprio nem a possibilidade de construir e de conciliar individualidade e a valorização do outro, evitando os extremos - o egoísmo ou a auto-anulação. Por isso escrevo: porque há dias em que a motivação nos some, o desânimo pesa, e quase que não podemos com aquele aperto, aquele nó que o medo nos impõe. E mais difícil ainda é agir e entender que essa ação nos leva, ao longo de dias ruins, ao encontro de momentos melhores. Por isso quero preservar esse instante em que tudo parece tão claro, em que tenho consciência do esforço necessário para corrigir posturas, para evitar atitudes impensadas que acabam fazendo mal. Por isso é que isto ficará escrito, mesmo que seja demasiadamente longo ou pessoal e, portanto, não desperte o interesse de muitos. É meu, reservo-me o direito a este espaço, nesse blog que tão necessário será ainda, para mim.
"Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar"
sábado, outubro 16, 2004
É impossível para mim comprar algo para vestir sem chegar à triste conclusão de que algum dia ainda andarei nu e descalço por aí, tamanha é a minha estupefação com a falta de limites da indústria do consumo.
Não me refiro aqui àquelas excentricidades de milhares de dólares que os muito ricos compram em lojas luxuosas para exibir-se. A questão, na verdade, são aqueles estabelecimentos que atendem à classe média, abarrotados de produtos caríssimos cujo único mérito é possuir um nome conhecido, e que graças a isso conquistaram entre a população o status de qualidade e diferenciação.
Como alguém pode ser capaz, por exemplo, de pagar R$ 250,00 ou R$ 300,00 em um simples tênis, que não serve para mais nada senão calçar os pés e contribuir para o bem estar físico e a estética de um indivíduo? Antes, ainda: como chegamos a esse ponto em que empresas são capazes de elevar de forma absurda seus preços, apenas por contarem com uma poderosa grife, e fazem isso com a ampla compreensão e aceitação das pessoas, que não enxergam absurdo algum nessa situação que, analisada mais atentamente, revela-se um verdadeiro contra-senso?
Talvez eu devesse ser um dos mais aptos a responder a essa questão, dada a minha formação acadêmica, mas a verdade é que, além de qualquer explicação mercadológica de necessidades de consumo, técnicas de diferenciação de produtos, fortalecimento da marca, etc, o que me falta é o entendimento de como chegamos a tal nível de sacrifício, em que meros objetos são valorados de forma irreal, criando padrões de consumo insustentáveis em longo prazo para todos e, desde já, inacessíveis a tantos. O que me falta é também a tolerância para aceitar que podemos gastar o dinheiro que qualquer pessoa que trabalhe de verdade, nesse país, sua tanto para ganhar, enfim, uma quantia que compraria tanta comida e com a qual famílias sobrevivem durante o mês inteiro, em um simples calçado.
É quando vejo algo assim, então, que paro um pouco para tentar solidificar ainda mais a minha convicção de que tudo isso é um absurdo, de modo que, se algum dia eu chegar realmente a ser ainda mais parte dessa minoria capaz de consumir, eu lembre de quão estúpido é esse modo de vida em que ficamos submersos, às vezes.
Não me refiro aqui àquelas excentricidades de milhares de dólares que os muito ricos compram em lojas luxuosas para exibir-se. A questão, na verdade, são aqueles estabelecimentos que atendem à classe média, abarrotados de produtos caríssimos cujo único mérito é possuir um nome conhecido, e que graças a isso conquistaram entre a população o status de qualidade e diferenciação.
Como alguém pode ser capaz, por exemplo, de pagar R$ 250,00 ou R$ 300,00 em um simples tênis, que não serve para mais nada senão calçar os pés e contribuir para o bem estar físico e a estética de um indivíduo? Antes, ainda: como chegamos a esse ponto em que empresas são capazes de elevar de forma absurda seus preços, apenas por contarem com uma poderosa grife, e fazem isso com a ampla compreensão e aceitação das pessoas, que não enxergam absurdo algum nessa situação que, analisada mais atentamente, revela-se um verdadeiro contra-senso?
Talvez eu devesse ser um dos mais aptos a responder a essa questão, dada a minha formação acadêmica, mas a verdade é que, além de qualquer explicação mercadológica de necessidades de consumo, técnicas de diferenciação de produtos, fortalecimento da marca, etc, o que me falta é o entendimento de como chegamos a tal nível de sacrifício, em que meros objetos são valorados de forma irreal, criando padrões de consumo insustentáveis em longo prazo para todos e, desde já, inacessíveis a tantos. O que me falta é também a tolerância para aceitar que podemos gastar o dinheiro que qualquer pessoa que trabalhe de verdade, nesse país, sua tanto para ganhar, enfim, uma quantia que compraria tanta comida e com a qual famílias sobrevivem durante o mês inteiro, em um simples calçado.
É quando vejo algo assim, então, que paro um pouco para tentar solidificar ainda mais a minha convicção de que tudo isso é um absurdo, de modo que, se algum dia eu chegar realmente a ser ainda mais parte dessa minoria capaz de consumir, eu lembre de quão estúpido é esse modo de vida em que ficamos submersos, às vezes.
quarta-feira, outubro 13, 2004
Morreu o Fernando Sabino. Recebi a notícia um pouco atrasada, tão ausente do cotidiano que estive durante este fim-de-semana e feriado. No carro, ontem, de volta a Recife, recebi uma mensagem comunicando-me de sua morte. Primeiro susto. Cerca de uma hora depois, ainda na estrada, a lembrança: ontem seria o dia do seu aniversário! Segundo susto. O que significa morrer às vésperas do seu aniversário? Nada, talvez, mas o momento final de alguém sempre tão encantado pelos mistérios da vida, religioso que era e com uma fascinante interpretação metafísica do cotidiano, não poderia mesmo estar ausente de uma curiosa coincidência como essa.
Curioso também é notar que Sabino, que sempre demonstrava uma grande vontade de preservar a criança que havia dentro de si, nasceu no dia das crianças. Conforme afirmou em seu livro “O menino no espelho”:
"Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam:
-Que é que você quer ser quando crescer?
Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino."
Este livro, então, representa esse desejo de ser criança, de preservar a pureza e a inocência infantis, de modo que, de tão simples e ingênuo que é, chega a ser simplório, valendo mais pelo seu simbolismo, ou seja, por representar da melhor forma possível essa vontade de ser criança eternamente, de não perder o humor, o otimismo, a simplicidade e a capacidade de encantar-se pelas coisas simples.
Não sou tão apaixonado pela obra de Sabino como a minha admiração pelo escritor pode sugerir. Ele, na verdade, foi criticado muitas vezes por ter optado por gêneros mais “simples e fáceis”, como as crônicas e os contos, em vez de dedicar-se a obras mais ousadas e profundas como foi O encontro marcado, seu livro mais conhecido. Esta é uma crítica com a qual de certa forma concordo. Posso dizer, no entanto, que para mim bastaria que este mineiro tivesse escrito unicamente este romance para que eu o admirasse e nutrisse por ele aquela gratidão meio abstrata que sentimos pelas pessoas que nos ajudam a crescer emocional, espiritual e intelectualmente.
A leitura de suas cartas (do livro Cartas na mesa – Aos três parceiros, meus amigos para sempre, em que ele publica sua correspondência com os três companheiros de toda a vida, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende) veio aumentar, posteriormente, esta admiração que cresceu ao longo do tempo.
Não colocarei aqui, hoje, nenhum trecho do livro O encontro marcado. Já o citei muitas vezes, e não seria novidade dizer que tudo o que está escrito no livro fala por mim, me representa, diz o que não consigo dizer e expressa não só boa parte do que era quando o li pela primeira vez, em 2001, mas também muito do que eu gostaria de ser, da visão de mundo que eu gostaria de preservar, do que ainda sou e do que me transformei desde então, e enfim, do que considero também como ideal e busco sempre, embora muitas vezes não alcance.
Vou terminar esse post, portanto, com uma idéia bem simples, expressa no livro O tabuleiro de damas. Segundo Fernando Sabino, “o tabuleiro não é nem branco com quadrados pretos, nem preto com quadrados brancos, mas de outra cor, com quadrados pretos e brancos”. A busca dessa outra cor, do que está escondido nos fatos, nas pessoas e nos acontecimentos e o encantamento com esse mistério da vida é que me fascinam. Também vejo tudo, inclusive a mim mesmo, como esse tabuleiro, que traz algo escondido e que está além da obviedade do que se vê, do que é explícito. Também busco reconhecer na vida esse mistério, essa cor de difícil percepção, e Fernando Sabino ajudou-me, como deve ter ajudado a muitos, não a encontra-la, mas pelo menos a reconhecer a sua existência e a importância de persistir nessa procura ousada.
Curioso também é notar que Sabino, que sempre demonstrava uma grande vontade de preservar a criança que havia dentro de si, nasceu no dia das crianças. Conforme afirmou em seu livro “O menino no espelho”:
"Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam:
-Que é que você quer ser quando crescer?
Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino."
Este livro, então, representa esse desejo de ser criança, de preservar a pureza e a inocência infantis, de modo que, de tão simples e ingênuo que é, chega a ser simplório, valendo mais pelo seu simbolismo, ou seja, por representar da melhor forma possível essa vontade de ser criança eternamente, de não perder o humor, o otimismo, a simplicidade e a capacidade de encantar-se pelas coisas simples.
Não sou tão apaixonado pela obra de Sabino como a minha admiração pelo escritor pode sugerir. Ele, na verdade, foi criticado muitas vezes por ter optado por gêneros mais “simples e fáceis”, como as crônicas e os contos, em vez de dedicar-se a obras mais ousadas e profundas como foi O encontro marcado, seu livro mais conhecido. Esta é uma crítica com a qual de certa forma concordo. Posso dizer, no entanto, que para mim bastaria que este mineiro tivesse escrito unicamente este romance para que eu o admirasse e nutrisse por ele aquela gratidão meio abstrata que sentimos pelas pessoas que nos ajudam a crescer emocional, espiritual e intelectualmente.
A leitura de suas cartas (do livro Cartas na mesa – Aos três parceiros, meus amigos para sempre, em que ele publica sua correspondência com os três companheiros de toda a vida, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende) veio aumentar, posteriormente, esta admiração que cresceu ao longo do tempo.
Não colocarei aqui, hoje, nenhum trecho do livro O encontro marcado. Já o citei muitas vezes, e não seria novidade dizer que tudo o que está escrito no livro fala por mim, me representa, diz o que não consigo dizer e expressa não só boa parte do que era quando o li pela primeira vez, em 2001, mas também muito do que eu gostaria de ser, da visão de mundo que eu gostaria de preservar, do que ainda sou e do que me transformei desde então, e enfim, do que considero também como ideal e busco sempre, embora muitas vezes não alcance.
Vou terminar esse post, portanto, com uma idéia bem simples, expressa no livro O tabuleiro de damas. Segundo Fernando Sabino, “o tabuleiro não é nem branco com quadrados pretos, nem preto com quadrados brancos, mas de outra cor, com quadrados pretos e brancos”. A busca dessa outra cor, do que está escondido nos fatos, nas pessoas e nos acontecimentos e o encantamento com esse mistério da vida é que me fascinam. Também vejo tudo, inclusive a mim mesmo, como esse tabuleiro, que traz algo escondido e que está além da obviedade do que se vê, do que é explícito. Também busco reconhecer na vida esse mistério, essa cor de difícil percepção, e Fernando Sabino ajudou-me, como deve ter ajudado a muitos, não a encontra-la, mas pelo menos a reconhecer a sua existência e a importância de persistir nessa procura ousada.
quinta-feira, outubro 07, 2004
Há algo de muito errado com o mundo... Não sei bem ainda o que é, mas que tem, tem...
...
Esqueci de comentar aqui, mas revi recentemente o filme Persona, de Ingmar Bergman (pela terceira vez). Achei que vendo uma vez mais o entenderia quase que totalmente, mas é incrível como, no fim, acabei foi “desentendendo” tudo que tinha entendido antes. Aquele filme é uma loucura, simplesmente, não dá pra tentar entender nada ao pé da letra.
Bom, mas porque lembrei dele agora? Enfim... Continuo gostando dele, mesmo que me pareça que Bergman e seu filme são um poço de pretensão, que as explorações psicológicas do roteiro de Persona são pra lá de herméticas e confusas e que eu nunca vou conseguir entender psicanálise a ponto de analisar o conteúdo desse filme (é notória a influência da psicanálise nos filmes de Bergman, e isso não sou quem digo, e sim os grandes entendidos em cinema e na obra desse cineasta).
Acho, no entanto, que a força de certas imagens e de certas idéias comunicadas por meio de uma película, de uma cena, não podem ser expressas em palavras, explicadas ou entendidas tão racionalmente. E é isso: as imagens de Persona às vezes representam tão bem certos sentimentos e certa visão de mundo, o que, como disse no post anterior em que escrevi sobre esse filme, acredito que é um dos objetivos da arte, afinal, que não consigo deixar de gostar desse filme.
Há algo, sim, de errado com o mundo. Tenho estudado História recentemente, e essa semana, em especial, li a respeito da Segunda Guerra Mundial, dos regimes totalitários e dos crimes políticos de Stálin. E acho que nada tem representado melhor a minha perplexidade diante desses grandes conflitos e dessa barbárie quanto a cena em que a atriz Elisabeth Vogler, perplexa, assustada, depara-se com a cena no noticiário de um manifestante ateando fogo ao próprio corpo, no meio da rua, em protesto. Nessa cena está representada toda a impotência de um indivíduo perante a violência, o desrespeito e a ganância, e também a impotência do próprio artista, que sente-se incapaz de transformar a sociedade, tem sua sensibilidade peculiar ferida pela dureza de interesses absurdos e percebe a dor das pessoas, a revolta, o desespero, mas nada pode fazer a respeito, simplesmente fica mudo, sem palavras.
Não foi, no entanto, essa história toda de Segunda Guerra Mundial, nazismo, fascismo e guerra que me fez escrever esse post. Esses fatos nós já conhecemos, e a desilusão por conhecê-los, de certo modo, já foi sofrida e um pouco assimilada. O que me faz realmente pensar em quanto erro, quanto desarranjo existe por aí é a falta de rumo que percebo em tantas pessoas, sem saber o que priorizar na vida, valorizando escolhas que não as suas, optando por valores que não os satisfazem, convenções que não põem ordem em absolutamente nada, só confundem ainda mais a todos, e elegendo como meta fundamental na vida o acúmulo, o poder, o engrandecimento social, que satisfaz mais aos outros que a si mesmo. Pessoas que não enxergam poesia nenhuma na vida, vivem por inércia e nem sequer percebem isso, pois acham que estão apenas sendo determinadas, fortes, decididas, quando na verdade estão sendo mecânicas, direcionadas, anestesiadas.
É dessa miopia individual que, em um contexto global, surgem as grandes tragédias humanas. É assim que acolhemos um pouquinho, dentro de cada um de nós, a semente dessa barbárie que, quando amplificada, parece tão insana e inexplicável. E talvez seja da tentativa de combater essa semente e da busca difícil de um sentido maior, que esteja acima deste engrandecimento insatisfatório, que surge a infelicidade. Porque quem está anestesiado não sente, nem percebe que é infeliz, e apenas quem tem a grande ambição de encontrar uma motivação mais verdadeira tem que lidar, todos os dias, com as conseqüências da sua frustrada busca.
...
Esqueci de comentar aqui, mas revi recentemente o filme Persona, de Ingmar Bergman (pela terceira vez). Achei que vendo uma vez mais o entenderia quase que totalmente, mas é incrível como, no fim, acabei foi “desentendendo” tudo que tinha entendido antes. Aquele filme é uma loucura, simplesmente, não dá pra tentar entender nada ao pé da letra.
Bom, mas porque lembrei dele agora? Enfim... Continuo gostando dele, mesmo que me pareça que Bergman e seu filme são um poço de pretensão, que as explorações psicológicas do roteiro de Persona são pra lá de herméticas e confusas e que eu nunca vou conseguir entender psicanálise a ponto de analisar o conteúdo desse filme (é notória a influência da psicanálise nos filmes de Bergman, e isso não sou quem digo, e sim os grandes entendidos em cinema e na obra desse cineasta).
Acho, no entanto, que a força de certas imagens e de certas idéias comunicadas por meio de uma película, de uma cena, não podem ser expressas em palavras, explicadas ou entendidas tão racionalmente. E é isso: as imagens de Persona às vezes representam tão bem certos sentimentos e certa visão de mundo, o que, como disse no post anterior em que escrevi sobre esse filme, acredito que é um dos objetivos da arte, afinal, que não consigo deixar de gostar desse filme.
Há algo, sim, de errado com o mundo. Tenho estudado História recentemente, e essa semana, em especial, li a respeito da Segunda Guerra Mundial, dos regimes totalitários e dos crimes políticos de Stálin. E acho que nada tem representado melhor a minha perplexidade diante desses grandes conflitos e dessa barbárie quanto a cena em que a atriz Elisabeth Vogler, perplexa, assustada, depara-se com a cena no noticiário de um manifestante ateando fogo ao próprio corpo, no meio da rua, em protesto. Nessa cena está representada toda a impotência de um indivíduo perante a violência, o desrespeito e a ganância, e também a impotência do próprio artista, que sente-se incapaz de transformar a sociedade, tem sua sensibilidade peculiar ferida pela dureza de interesses absurdos e percebe a dor das pessoas, a revolta, o desespero, mas nada pode fazer a respeito, simplesmente fica mudo, sem palavras.
Não foi, no entanto, essa história toda de Segunda Guerra Mundial, nazismo, fascismo e guerra que me fez escrever esse post. Esses fatos nós já conhecemos, e a desilusão por conhecê-los, de certo modo, já foi sofrida e um pouco assimilada. O que me faz realmente pensar em quanto erro, quanto desarranjo existe por aí é a falta de rumo que percebo em tantas pessoas, sem saber o que priorizar na vida, valorizando escolhas que não as suas, optando por valores que não os satisfazem, convenções que não põem ordem em absolutamente nada, só confundem ainda mais a todos, e elegendo como meta fundamental na vida o acúmulo, o poder, o engrandecimento social, que satisfaz mais aos outros que a si mesmo. Pessoas que não enxergam poesia nenhuma na vida, vivem por inércia e nem sequer percebem isso, pois acham que estão apenas sendo determinadas, fortes, decididas, quando na verdade estão sendo mecânicas, direcionadas, anestesiadas.
É dessa miopia individual que, em um contexto global, surgem as grandes tragédias humanas. É assim que acolhemos um pouquinho, dentro de cada um de nós, a semente dessa barbárie que, quando amplificada, parece tão insana e inexplicável. E talvez seja da tentativa de combater essa semente e da busca difícil de um sentido maior, que esteja acima deste engrandecimento insatisfatório, que surge a infelicidade. Porque quem está anestesiado não sente, nem percebe que é infeliz, e apenas quem tem a grande ambição de encontrar uma motivação mais verdadeira tem que lidar, todos os dias, com as conseqüências da sua frustrada busca.
quarta-feira, outubro 06, 2004
terça-feira, outubro 05, 2004
Ao tentar escrever o post anterior lembrei, imediatamente, de uma crônica de Clarice Lispector que fala do pensamento como um jogo, uma forma de diversão ou distração, embora perigoso. Em um trecho, por exemplo, ela cita o hábito de enumerar sentimentos que carecem de um nome para serem expressos:
“Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?”
Digo que me lembrei desta crônica porque foi assim que me percebi ao tentar escrever este último texto que postei: como se estivesse diante de um destes sentimentos sem nome, de idéias que não poderia explicitar. Talvez por isso a sucessão de períodos intermináveis, a desarticulação de idéias, o resultado um pouco vago e a certeza de que, em alguns pontos, não falei bem o que queria. Pensei ainda em “guarda-lo até amanhã”, para relê-lo com olhos de leitor e ver se ele não estaria ininteligível. Mas decidi no entanto posta-lo aqui, logo, pra me livrar de algo que desde algumas semanas atrás considerei importante expressar.
É possível que tenha existido algum sentimento ruim que motivou este meu texto, mas, se houve, não foi aquele tipo de piedade humilhante ou de compaixão fundamentada na pretensão da superioridade, e sim a inveja por uma força e uma humildade que não tenho e a decepção pela insensibilidade de tantos, como no momento descrito pude constatar. Além disso, houve a tristeza, também, pela própria irresponsabilidade que me faz consumir inadvertidamente, acho, os frutos deste tipo de trabalho árduo e dessa busca diária da sobrevivência. De resto, nada de distanciamento. Como disse, para mim tratam-se de realidades indistintas.
...
Esta crônica que mencionei está no livro “A descoberta do mundo”, de Clarice, que reúne (em ordem cronológica) as contribuições semanais da escritora ao Jornal do Brasil, no período de agosto de 1967 a dezembro de 1973. O livro traz, portanto, uma grande quantidade de textos (mesmo!, são quase 500 páginas) em forma de crônicas, pensamentos, comentários, reflexões, pequenos contos... É engraçado pensar que, pela ordem cronológica, a periodicidade, a abordagem de acontecimentos pessoais e o comentário a respeito dos fatos da época, bem como a própria variedade de estilos, o teor e a leveza dos textos, é como se estivéssemos diante de um... blog! hehehe Isso mesmo. Se Clarice estivesse viva hoje e resolvesse ter um, acho que seria mais ou menos isso que iria sair... :p
Acho que essa comparação com um blog dá uma boa idéia do teor dos textos, neste livro. Não há nada tão elaborado ou particularmente genial (pelo menos até agora) como podemos encontrar a cada página dos seus romances - o que é óbvio, em se tratando de textos para uma coluna de jornal, com prazos semanais de entrega e uma linguagem mais “fácil”.
O talento dessa escritora, no entanto, se revela a cada página, na subjetividade com que trata temas tão factuais e no surgimento de reflexões sensacionais a respeito de questões às vezes tão comuns. Um bom exemplo é a crônica de 1967 em que Clarice fala a respeito do primeiro cosmonauta a ir ao espaço:
“- Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.
- Se eu fosse o primeiro astronauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. Porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a ter visto. Até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silêncio, mesmo que falasse. Consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. E nunca ter dito uma palavra. Pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.”
“Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?”
Digo que me lembrei desta crônica porque foi assim que me percebi ao tentar escrever este último texto que postei: como se estivesse diante de um destes sentimentos sem nome, de idéias que não poderia explicitar. Talvez por isso a sucessão de períodos intermináveis, a desarticulação de idéias, o resultado um pouco vago e a certeza de que, em alguns pontos, não falei bem o que queria. Pensei ainda em “guarda-lo até amanhã”, para relê-lo com olhos de leitor e ver se ele não estaria ininteligível. Mas decidi no entanto posta-lo aqui, logo, pra me livrar de algo que desde algumas semanas atrás considerei importante expressar.
É possível que tenha existido algum sentimento ruim que motivou este meu texto, mas, se houve, não foi aquele tipo de piedade humilhante ou de compaixão fundamentada na pretensão da superioridade, e sim a inveja por uma força e uma humildade que não tenho e a decepção pela insensibilidade de tantos, como no momento descrito pude constatar. Além disso, houve a tristeza, também, pela própria irresponsabilidade que me faz consumir inadvertidamente, acho, os frutos deste tipo de trabalho árduo e dessa busca diária da sobrevivência. De resto, nada de distanciamento. Como disse, para mim tratam-se de realidades indistintas.
...
Esta crônica que mencionei está no livro “A descoberta do mundo”, de Clarice, que reúne (em ordem cronológica) as contribuições semanais da escritora ao Jornal do Brasil, no período de agosto de 1967 a dezembro de 1973. O livro traz, portanto, uma grande quantidade de textos (mesmo!, são quase 500 páginas) em forma de crônicas, pensamentos, comentários, reflexões, pequenos contos... É engraçado pensar que, pela ordem cronológica, a periodicidade, a abordagem de acontecimentos pessoais e o comentário a respeito dos fatos da época, bem como a própria variedade de estilos, o teor e a leveza dos textos, é como se estivéssemos diante de um... blog! hehehe Isso mesmo. Se Clarice estivesse viva hoje e resolvesse ter um, acho que seria mais ou menos isso que iria sair... :p
Acho que essa comparação com um blog dá uma boa idéia do teor dos textos, neste livro. Não há nada tão elaborado ou particularmente genial (pelo menos até agora) como podemos encontrar a cada página dos seus romances - o que é óbvio, em se tratando de textos para uma coluna de jornal, com prazos semanais de entrega e uma linguagem mais “fácil”.
O talento dessa escritora, no entanto, se revela a cada página, na subjetividade com que trata temas tão factuais e no surgimento de reflexões sensacionais a respeito de questões às vezes tão comuns. Um bom exemplo é a crônica de 1967 em que Clarice fala a respeito do primeiro cosmonauta a ir ao espaço:
“- Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.
- Se eu fosse o primeiro astronauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. Porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a ter visto. Até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silêncio, mesmo que falasse. Consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. E nunca ter dito uma palavra. Pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.”
sexta-feira, outubro 01, 2004
Nessa existência um pouco irritada de apatia e melancolia cotidianas, nem sempre enxergo com sensibilidade os sutis caminhos da identificação solidária e cúmplice, tampouco da comoção que tal sentimento de aproximação a realidades indistintas proporciona.
Se há algo, no entanto, capaz de mascarar qualquer vulgaridade e mesquinhez possivelmente atribuídas ao ser humano, às vezes tão único e avulso em sua solitária luta e penar cotidianos, e emocionar-me, é aquele esforço quase sobre-humano de árduo trabalho, sobrevivência e construção de uma dignidade inalienável.
Assim, encontro-me ainda um pouco comovido, sempre, ao relembrar uma expressão timidamente humilde, não obstante de uma mulher forte, trabalhando com afinco pela construção de uma possibilidade que o tão elogiado senso coletivo não lhe proporcionou. Envergonhada, sem saber bem de quê, calada pelo receio de falar, pela suposta falta de modos, pela inadequação àquele tipo de exposição, àquela situação em que se encontrava, tão perdida, tão rodeada de rostos bem cuidados e personalidades impenetráveis, irredutíveis em sua certeza petulante de suposta superioridade, enfim, mal cabendo em si de tão deslocada, numa sensação de incômoda timidez, simplesmente trabalhava.
Vendia pequenos lanches, a preços módicos e com muita dificuldade, superando preconceitos advindos de mentalidades grandiosas. Eram apenas lanches, algo para matar a fome, algo barato, simples, desprovido de sofisticação e arrogância produtiva. Lanches, apenas, feitos com capricho, imagino, e cuja comercialização renderia uma modesta renda, talvez... Para sua família? Para si, somente? Apenas suponho.
E ela que era toda inadequação, as palavras engasgando, ditas de forma titubeante ainda que orgulhosa... Sim, orgulho!, do tipo que só a sua dignidade poderia proporcionar. Dignidade conquistada com honestidade, trabalho, esperança - e força, sobretudo. Arrisco-me, sim, a falar em sua honestidade, embora não a conheça, mas acredito ainda na existência dessa honestidade que floresce da humildade, da solidariedade e do amor familiar, da força encontrada nessa paixão pela sobrevivência, pela vitória diária do ganho, dos frutos do esforço e da perseverança popular.
Vendeu apenas um lanche, naquele dia, para aquelas tantas pessoas. O que sobrou estragaria? Seria uma perda, um prejuízo para alguém já tão sem recursos? As respostas não tive, nem preciso, porque sei que a luta continuaria a cada hora seguinte, sua decepção pela impossibilidade de interação permaneceria velada e sua força seria maior, bem maior que a minha, certamente, que ainda sirvo-me apenas do fruto de outros trabalhos, de um suor que não é o meu.
Não era mesmo para aquelas pessoas, aquele lanche. Eles todos tão bons, tão cheios de posse, não haveriam mesmo de comer ali, em pé, no calor, um simples lanche barato. Mas eu fiquei ainda, sempre, com a lembrança silenciosa do fruto daquele e de outros trabalhos e do suor de pessoas tão próximas, fruto e suor estes consumidos às vezes aos tropeços, à revelia e impensadamente - desatino de uma insensibilidade injustificável.
Eu também estive lá, em pé, no calor, mas sem comer, igualmente. Fome eu já não tinha, mesmo.
Se há algo, no entanto, capaz de mascarar qualquer vulgaridade e mesquinhez possivelmente atribuídas ao ser humano, às vezes tão único e avulso em sua solitária luta e penar cotidianos, e emocionar-me, é aquele esforço quase sobre-humano de árduo trabalho, sobrevivência e construção de uma dignidade inalienável.
Assim, encontro-me ainda um pouco comovido, sempre, ao relembrar uma expressão timidamente humilde, não obstante de uma mulher forte, trabalhando com afinco pela construção de uma possibilidade que o tão elogiado senso coletivo não lhe proporcionou. Envergonhada, sem saber bem de quê, calada pelo receio de falar, pela suposta falta de modos, pela inadequação àquele tipo de exposição, àquela situação em que se encontrava, tão perdida, tão rodeada de rostos bem cuidados e personalidades impenetráveis, irredutíveis em sua certeza petulante de suposta superioridade, enfim, mal cabendo em si de tão deslocada, numa sensação de incômoda timidez, simplesmente trabalhava.
Vendia pequenos lanches, a preços módicos e com muita dificuldade, superando preconceitos advindos de mentalidades grandiosas. Eram apenas lanches, algo para matar a fome, algo barato, simples, desprovido de sofisticação e arrogância produtiva. Lanches, apenas, feitos com capricho, imagino, e cuja comercialização renderia uma modesta renda, talvez... Para sua família? Para si, somente? Apenas suponho.
E ela que era toda inadequação, as palavras engasgando, ditas de forma titubeante ainda que orgulhosa... Sim, orgulho!, do tipo que só a sua dignidade poderia proporcionar. Dignidade conquistada com honestidade, trabalho, esperança - e força, sobretudo. Arrisco-me, sim, a falar em sua honestidade, embora não a conheça, mas acredito ainda na existência dessa honestidade que floresce da humildade, da solidariedade e do amor familiar, da força encontrada nessa paixão pela sobrevivência, pela vitória diária do ganho, dos frutos do esforço e da perseverança popular.
Vendeu apenas um lanche, naquele dia, para aquelas tantas pessoas. O que sobrou estragaria? Seria uma perda, um prejuízo para alguém já tão sem recursos? As respostas não tive, nem preciso, porque sei que a luta continuaria a cada hora seguinte, sua decepção pela impossibilidade de interação permaneceria velada e sua força seria maior, bem maior que a minha, certamente, que ainda sirvo-me apenas do fruto de outros trabalhos, de um suor que não é o meu.
Não era mesmo para aquelas pessoas, aquele lanche. Eles todos tão bons, tão cheios de posse, não haveriam mesmo de comer ali, em pé, no calor, um simples lanche barato. Mas eu fiquei ainda, sempre, com a lembrança silenciosa do fruto daquele e de outros trabalhos e do suor de pessoas tão próximas, fruto e suor estes consumidos às vezes aos tropeços, à revelia e impensadamente - desatino de uma insensibilidade injustificável.
Eu também estive lá, em pé, no calor, mas sem comer, igualmente. Fome eu já não tinha, mesmo.
quarta-feira, setembro 29, 2004
terça-feira, setembro 28, 2004
Ainda sobre o real e o virtual...
Juro que não vejo problema algum em usar a tecnologia pra aproximar as pessoas. Eu sou um viciado assumido em msn, e cada vez mais consciente, por sinal, da necessidade de controlar meus arroubos de comunicabilidade virtual, que duram horas e rendem muitas noites em claro. No msn até já conheci pessoas, e a ele com certeza devo o fortalecimento de muitas amizades. Por meio dele tem sido possível manter-se próximo a pessoas que não vejo freqüentemente e ter longas conversas inviáveis no dia-a-dia não-virtual.
O msn também é meio confessionário, oráculo, divã, sei lá... A gente fala o que não tem coragem de dizer pessoalmente, tem conversas decisivas, briga, ri sozinho na frente do computador, pede desculpas, isso com toda a expressividade que as palavras permitem. Tudo isso, no entanto, sempre em função do real, do cotidiano, da aproximação física... Por exemplo: uma outra função não mencionada mas essencial do msn – uma das mais importantes na verdade – é a sua grande importância na articulação de festas, bebedeiras, programas culturais, cineminhas de domingo, comilanças em rodízios, etc, etc. Meus fins-de-semana tornaram-se inegavelmente mais agitados após o msn, e tem sido mais fácil também lidar com o marasmo de certas tardes de domingo.
Então, esta ferramenta virtual, sim, é que é digna de aplausos, porque proporciona contatos de grande valor... Mas há tanta gente fora dela que adoro; há tantos que estão nela mas aos quais já digo tudo que penso, e todos os dias até, se possível; há tanto mistério nas ligações que unem pessoas vida afora, por tão diversos motivos, ou até mesmo pela ausência de motivos, pelo simples prazer de conviver, compartilhar; há tanta felicidade na proximidade verdadeira, em identificar peculiaridades, gestos, maneiras de olhar, diversos tons de voz, expressões faciais, nuances... Tudo isso tão bom, no ambiente não-virtual, que esta ferramenta mesmo acaba por tornar-se, também, inútil, se não contribuir para essa aproximação real ou se, oferecendo a comodidade de evitar o sempre tão arriscado contato direto, ofuscar o encontro diário entre as pessoas.
Juro que não vejo problema algum em usar a tecnologia pra aproximar as pessoas. Eu sou um viciado assumido em msn, e cada vez mais consciente, por sinal, da necessidade de controlar meus arroubos de comunicabilidade virtual, que duram horas e rendem muitas noites em claro. No msn até já conheci pessoas, e a ele com certeza devo o fortalecimento de muitas amizades. Por meio dele tem sido possível manter-se próximo a pessoas que não vejo freqüentemente e ter longas conversas inviáveis no dia-a-dia não-virtual.
O msn também é meio confessionário, oráculo, divã, sei lá... A gente fala o que não tem coragem de dizer pessoalmente, tem conversas decisivas, briga, ri sozinho na frente do computador, pede desculpas, isso com toda a expressividade que as palavras permitem. Tudo isso, no entanto, sempre em função do real, do cotidiano, da aproximação física... Por exemplo: uma outra função não mencionada mas essencial do msn – uma das mais importantes na verdade – é a sua grande importância na articulação de festas, bebedeiras, programas culturais, cineminhas de domingo, comilanças em rodízios, etc, etc. Meus fins-de-semana tornaram-se inegavelmente mais agitados após o msn, e tem sido mais fácil também lidar com o marasmo de certas tardes de domingo.
Então, esta ferramenta virtual, sim, é que é digna de aplausos, porque proporciona contatos de grande valor... Mas há tanta gente fora dela que adoro; há tantos que estão nela mas aos quais já digo tudo que penso, e todos os dias até, se possível; há tanto mistério nas ligações que unem pessoas vida afora, por tão diversos motivos, ou até mesmo pela ausência de motivos, pelo simples prazer de conviver, compartilhar; há tanta felicidade na proximidade verdadeira, em identificar peculiaridades, gestos, maneiras de olhar, diversos tons de voz, expressões faciais, nuances... Tudo isso tão bom, no ambiente não-virtual, que esta ferramenta mesmo acaba por tornar-se, também, inútil, se não contribuir para essa aproximação real ou se, oferecendo a comodidade de evitar o sempre tão arriscado contato direto, ofuscar o encontro diário entre as pessoas.
segunda-feira, setembro 27, 2004
No mundo virtual é assim...
Eu juro que eu ainda descubro a razão de ser desse tal de orkut. Primeiro de tudo: qual a finalidade de sair adicionando gente na sua lista de amigos, se você dificilmente usa a tal rede pra entrar em contato com eles? Que eu saiba, ainda é muito mais fácil usar o e-mail, o msn, outras ferramentas MUITO mais interessantes, por sinal. Parece mais uma corrida para colecionar figurinhas, ou um meio mais eficaz de se espalhar spams e e-mails com informações inúteis, que nunca leremos.
Esse primeiro ato praticado pelos usuários, de adicionar pessoas, dá origem a uma série de outros, e se o primeiro se explica pela necessidade de se criar ligações que nos levem às tais “pessoas inesperadas”, o que é a grande promessa do orkut, os demais não há quem justifique.
Há desde aquele lugarzinho onde se escrevem testemonials até os famosos rankings. Se é pra inflar o ego ou pra que todo mundo saiba o quanto você é querido eu não sei, mas a verdade é que é o tipo de coisa que não faz muita diferença... Afinal, no orkut todo mundo tem um pouco de defunto – nobre, digno, caridoso, companheiro, amigo... E os rankings, então, são terríveis: não sei se entendi direito o que significam aquelas carinhas, coraçõezinhos e cubinhos de gelo (tudo assim, muito meiguinho): um parece que é pra medir o quanto você é sexy (?!), outro diz o quanto você é legal... Deveria ter como medir também o quanto você é mala-sem-alça, o quanto você se assemelha ao famoso pé-no-saco, ou chute-no-ovo... Pelo menos ia ser um pouco mais esculachado! :p
Podem chamar de dor-de-cotovelo, indício de um comportamento anti-social crônico ou rabugice, mesmo. Mas a verdade é que se fosse depender de mim sair juntando, nessa nova mania, um monte de gente sob a alcunha de “amigo”, eu seria o mais solitário dos freqüentadores dessa famigerada rede de relacionamentos... Não foi à toa que quando eu comecei esse blog ele mencionava, no próprio endereço, a idéia do anacronismo: pra mim, ainda se fazem amigos em bares, na rua, bebendo cana, tomando caldinho, falando besteira, discutindo... No msn pelo menos as duas últimas ainda são possíveis!
No orkut, nem isso.
Enfim, pra terminar essa história de orkut: ele tem aparentado, pelo menos por enquanto, ser sem graça, inútil e além disso, ser responsável também (não se pode esquecer) pela difusão de um monte de idéias e informações equivocadas. Mas há algumas comunidades hilárias, e realmente há pessoas interessantes... Então, por enquanto vou ficando por ali, vendo o que o orkut pode me render de positivo.
Ah! Queria também, apesar de tudo, agradecer pelos testemonials (Ceci, bolei de rir com o seu! :p). Adoraria escrever pra todos os meus amigos, mas se até pra comentar em blogs alheios eu tenho vergonha, quanto mais pra ter esses rompantes de emotividade e sair falando o quanto eu gosto de todo mundo. Gostaria de agradecer também às almas caridosas que me deram uns cubinhos de gelo, umas carinhas, uns coraçõezinhos... Fiquei tão feliz que vou aumentar o ranking de vocês todos, viu? Hehehehe. Brincadeira...
Eu juro que eu ainda descubro a razão de ser desse tal de orkut. Primeiro de tudo: qual a finalidade de sair adicionando gente na sua lista de amigos, se você dificilmente usa a tal rede pra entrar em contato com eles? Que eu saiba, ainda é muito mais fácil usar o e-mail, o msn, outras ferramentas MUITO mais interessantes, por sinal. Parece mais uma corrida para colecionar figurinhas, ou um meio mais eficaz de se espalhar spams e e-mails com informações inúteis, que nunca leremos.
Esse primeiro ato praticado pelos usuários, de adicionar pessoas, dá origem a uma série de outros, e se o primeiro se explica pela necessidade de se criar ligações que nos levem às tais “pessoas inesperadas”, o que é a grande promessa do orkut, os demais não há quem justifique.
Há desde aquele lugarzinho onde se escrevem testemonials até os famosos rankings. Se é pra inflar o ego ou pra que todo mundo saiba o quanto você é querido eu não sei, mas a verdade é que é o tipo de coisa que não faz muita diferença... Afinal, no orkut todo mundo tem um pouco de defunto – nobre, digno, caridoso, companheiro, amigo... E os rankings, então, são terríveis: não sei se entendi direito o que significam aquelas carinhas, coraçõezinhos e cubinhos de gelo (tudo assim, muito meiguinho): um parece que é pra medir o quanto você é sexy (?!), outro diz o quanto você é legal... Deveria ter como medir também o quanto você é mala-sem-alça, o quanto você se assemelha ao famoso pé-no-saco, ou chute-no-ovo... Pelo menos ia ser um pouco mais esculachado! :p
Podem chamar de dor-de-cotovelo, indício de um comportamento anti-social crônico ou rabugice, mesmo. Mas a verdade é que se fosse depender de mim sair juntando, nessa nova mania, um monte de gente sob a alcunha de “amigo”, eu seria o mais solitário dos freqüentadores dessa famigerada rede de relacionamentos... Não foi à toa que quando eu comecei esse blog ele mencionava, no próprio endereço, a idéia do anacronismo: pra mim, ainda se fazem amigos em bares, na rua, bebendo cana, tomando caldinho, falando besteira, discutindo... No msn pelo menos as duas últimas ainda são possíveis!
No orkut, nem isso.
Enfim, pra terminar essa história de orkut: ele tem aparentado, pelo menos por enquanto, ser sem graça, inútil e além disso, ser responsável também (não se pode esquecer) pela difusão de um monte de idéias e informações equivocadas. Mas há algumas comunidades hilárias, e realmente há pessoas interessantes... Então, por enquanto vou ficando por ali, vendo o que o orkut pode me render de positivo.
Ah! Queria também, apesar de tudo, agradecer pelos testemonials (Ceci, bolei de rir com o seu! :p). Adoraria escrever pra todos os meus amigos, mas se até pra comentar em blogs alheios eu tenho vergonha, quanto mais pra ter esses rompantes de emotividade e sair falando o quanto eu gosto de todo mundo. Gostaria de agradecer também às almas caridosas que me deram uns cubinhos de gelo, umas carinhas, uns coraçõezinhos... Fiquei tão feliz que vou aumentar o ranking de vocês todos, viu? Hehehehe. Brincadeira...
quarta-feira, setembro 22, 2004
Segunda-feira
Erguendo-se às pressas, aos tropeços, coração incerto, cabeça cheia no fluxo e refluxo de angústias, ainda a mesma sensação de aperto que retorna, a substância do medo correndo por dentro.
Perturbação de urgência, euforia de álcool, mutismo de insone. Ao redor, expressões passivas, impenetrável normalidade. Dizer, não dizer, dizer, não dizer... Explodir em um acesso de raivosa melancolia? Balbuciar a temida loucura, a humilhante tristeza destoante, sim, a que destoa da tristeza permitida, explicável, a tristeza prática, a decepção pragmática dos fortes?
Busca do controle físico, respiração deliberada, olhos semicerrados, caminhada a longos passos. Pensamentos reconfortantes - voltar a si.
Cabeça erguida, dia agradavelmente curto.
Fim de semana... findo.
Erguendo-se às pressas, aos tropeços, coração incerto, cabeça cheia no fluxo e refluxo de angústias, ainda a mesma sensação de aperto que retorna, a substância do medo correndo por dentro.
Perturbação de urgência, euforia de álcool, mutismo de insone. Ao redor, expressões passivas, impenetrável normalidade. Dizer, não dizer, dizer, não dizer... Explodir em um acesso de raivosa melancolia? Balbuciar a temida loucura, a humilhante tristeza destoante, sim, a que destoa da tristeza permitida, explicável, a tristeza prática, a decepção pragmática dos fortes?
Busca do controle físico, respiração deliberada, olhos semicerrados, caminhada a longos passos. Pensamentos reconfortantes - voltar a si.
Cabeça erguida, dia agradavelmente curto.
Fim de semana... findo.
terça-feira, setembro 21, 2004
“Não és bom nem és mal, és triste e humano.”
Olavo Bilac
Uma poesia minimalista - visual e auditiva - para aguçar os sentidos. Não há melhor forma de se definir o filme exibido no último dia 09 pelo Cine Peter Dráckula. Aproveitando a temática latina da última calourada, que teve o sugestivo nome de Cuba Cabe Aqui, o cineclube da nossa faculdade decidiu ir mais fundo na investigação do peculiar cotidiano dos moradores dessa fascinante ilha que provoca debates, conquista admiradores e atiça os ânimos daqueles que se propõem a avaliar, politicamente, sua realidade.
O que se viu, no entanto, esteve muito longe da exaltação apaixonada do regime de Fidel Castro, dos líderes revolucionários e dos ideais representados pela resistência cubana, ainda um dos poucos países a manter uma postura contrária à lógica estadunidense de poder e “crescimento”. Não houve, também, a construção de uma imagem anacrônica da ilha - o que poderia representar uma acusação velada de um suposto modo de vida estagnado, atribuído por muitos a ideologias insistentemente caracterizadas como ultrapassadas - nem tampouco uma tentativa de descredibilizar a luta de seu povo por meio do ressalto de suas mazelas ou de suas dificuldades econômicas e sociais.
Isto porque, antes de tudo, em Suite Habana o diretor Fernando Pérez nos apresenta a habaneros comuns, de modo que sua sensibilidade e delicadeza espantosas nos permitem elevar o nível da nossa apreciação desse povo, desprovendo-nos de preconceitos, esquematismos ou paradigmas políticos. Assim, somos capazes de desfrutar de um retrato magnificamente humano (e talvez poucas vezes antes presenciado na sétima arte), de pessoas simples, seus sonhos, suas dificuldades, suas rotinas, suas atividades e todos os acontecimentos ordinários que permeiam suas vidas, sem, no entanto, serem de modo algum considerados banais, irrelevantes ou sem sentido.
Tal documentário, longe de ser chato ou difícil, nos apresenta uma sucessão de belíssimas imagens, costuradas pela lógica do tempo (o filme se desenvolve ao longo de um dia), unidas pela dinâmica da coletividade (as cores e sons urbanos) e marcadas pela realidade social e histórica do que apresentam. A ausência de diálogos, narração ou entrevistas contribui, curiosamente, para facilitar nossa identificação com cada uma das pessoas retratadas. No silêncio, distanciamo-nos de possíveis julgamentos, contemplando apenas a beleza e a poesia de ser humano.
Engana-se, no entanto, quem acredita que, retratando Havana de forma tão honesta e dotando seu filme de uma curiosidade artística tão universal, o diretor nega as peculiaridades de seu país. Fernando Pérez é honesto com cada cidadão de Cuba, com sua paixão, sua beleza, suas dificuldades. Sua mensagem está lá, sutil, na ressaca do mar que avança sobre a ilha, no retrato de um herói na parede (parecendo ora distante, ora integrado à realidade que presenciamos) e, acima de tudo, na simbólica e comovente cena da garota que balança alegremente a bandeira de seu país, que aparece ludicamente em meio a uma brincadeira infantil.
Texto escrito após a sessão do cineclube da FCAP, para o Informativo do DA, o Olha só...
Olavo Bilac
Uma poesia minimalista - visual e auditiva - para aguçar os sentidos. Não há melhor forma de se definir o filme exibido no último dia 09 pelo Cine Peter Dráckula. Aproveitando a temática latina da última calourada, que teve o sugestivo nome de Cuba Cabe Aqui, o cineclube da nossa faculdade decidiu ir mais fundo na investigação do peculiar cotidiano dos moradores dessa fascinante ilha que provoca debates, conquista admiradores e atiça os ânimos daqueles que se propõem a avaliar, politicamente, sua realidade.
O que se viu, no entanto, esteve muito longe da exaltação apaixonada do regime de Fidel Castro, dos líderes revolucionários e dos ideais representados pela resistência cubana, ainda um dos poucos países a manter uma postura contrária à lógica estadunidense de poder e “crescimento”. Não houve, também, a construção de uma imagem anacrônica da ilha - o que poderia representar uma acusação velada de um suposto modo de vida estagnado, atribuído por muitos a ideologias insistentemente caracterizadas como ultrapassadas - nem tampouco uma tentativa de descredibilizar a luta de seu povo por meio do ressalto de suas mazelas ou de suas dificuldades econômicas e sociais.
Isto porque, antes de tudo, em Suite Habana o diretor Fernando Pérez nos apresenta a habaneros comuns, de modo que sua sensibilidade e delicadeza espantosas nos permitem elevar o nível da nossa apreciação desse povo, desprovendo-nos de preconceitos, esquematismos ou paradigmas políticos. Assim, somos capazes de desfrutar de um retrato magnificamente humano (e talvez poucas vezes antes presenciado na sétima arte), de pessoas simples, seus sonhos, suas dificuldades, suas rotinas, suas atividades e todos os acontecimentos ordinários que permeiam suas vidas, sem, no entanto, serem de modo algum considerados banais, irrelevantes ou sem sentido.
Tal documentário, longe de ser chato ou difícil, nos apresenta uma sucessão de belíssimas imagens, costuradas pela lógica do tempo (o filme se desenvolve ao longo de um dia), unidas pela dinâmica da coletividade (as cores e sons urbanos) e marcadas pela realidade social e histórica do que apresentam. A ausência de diálogos, narração ou entrevistas contribui, curiosamente, para facilitar nossa identificação com cada uma das pessoas retratadas. No silêncio, distanciamo-nos de possíveis julgamentos, contemplando apenas a beleza e a poesia de ser humano.
Engana-se, no entanto, quem acredita que, retratando Havana de forma tão honesta e dotando seu filme de uma curiosidade artística tão universal, o diretor nega as peculiaridades de seu país. Fernando Pérez é honesto com cada cidadão de Cuba, com sua paixão, sua beleza, suas dificuldades. Sua mensagem está lá, sutil, na ressaca do mar que avança sobre a ilha, no retrato de um herói na parede (parecendo ora distante, ora integrado à realidade que presenciamos) e, acima de tudo, na simbólica e comovente cena da garota que balança alegremente a bandeira de seu país, que aparece ludicamente em meio a uma brincadeira infantil.
Texto escrito após a sessão do cineclube da FCAP, para o Informativo do DA, o Olha só...
sábado, setembro 18, 2004
Voltando à nossa programação normal...
Usina: espaço de geração e maturação de idéias, processamento de informações, reavaliação de conceitos...
Sabe-se lá porquê, há coisas que não se explicam...
O que se sabe, com a experiência que se mostra, é que não se pode ir a esta usina impunemente...
Um poema interessante só para animar essa tão insossa volta:
Em face dos últimos acontecimentos
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
Carlos Drummond de Andrade
Usina: espaço de geração e maturação de idéias, processamento de informações, reavaliação de conceitos...
Sabe-se lá porquê, há coisas que não se explicam...
O que se sabe, com a experiência que se mostra, é que não se pode ir a esta usina impunemente...
Um poema interessante só para animar essa tão insossa volta:
Em face dos últimos acontecimentos
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, setembro 14, 2004
Um post honesto
Vou passar uns dias sem escrever aqui, pois tenho notado que os últimos posts não foram lá muito inspirados, e depois de aprender que não é bom censurar idéias e palavras quando se tem vontade de escreve-las, nem evitar publicá-las por receio de ser mal-interpretado ou por vergonha do que está sendo dito, é hora de aprender outra lição: naturalidade e controle de qualidade são coisas distintas... Não se deve confundir a liberdade de expressão com a banalização de sentimentos tão íntimos. Não é o caso, portanto, de sair escrevendo tudo que vem à cabeça, sem maiores precauções.
Os próximos dias deveriam ser carregados, pois tenho muitos trabalhos a fazer na faculdade, atividades no estágio e o desafio de retomar os estudos para o Vestibular. Além disso, meu punho dói, e já passo tempo o suficiente no computador enquanto estou no estágio ou cumprindo minhas obrigações acadêmicas. Além disso, não tenho dinheiro pra tratar tendinite, então é melhor me aquietar um pouco. Mas digo que deveriam ser carregados porque, se bem reconheço minha atual motivação, duvido muito que irei caprichar nos meus penúltimos trabalhos acadêmicos do curso de Administração. Definitivamente esse curso já deve ter me dado tudo que tinha a dar...
Sábado à noite, num desses momentos doidos de sensibilidade súbita embora não inconveniente, peguei-me no meio da Usina, depois de um dos grandes shows d’A Roda que já vi (contrariando, pois, a descontração de minutos antes), pensando no monte de coisas que tenho vontade de fazer... Momento efêmero, mas bonito, principalmente por ser só meu (e aí não há nada de egoísmo, entenda-se) em que reafirmei valores e planos que são anteriores a qualquer circunstância social, a qualquer influência mais direta de terceiros... Coisas que quero aprender, conhecer, incorporar à minha vida, somar... Talvez meus desejos mais honestos. E é bom, afinal, renovar um certo respeito por nós mesmos, uma certa reconciliação desmedida com individualidades, uma reviravolta naquele impulso constante de forçar uma realidade que só poderia mesmo concretizar-se de forma imposta. Sei lá o que me trarão os outros, que tipo de sentimento e atitudes para comigo...
Os próximos dias bem que poderiam ser consagrados ao ordenamento de determinadas idéias ainda bastante desarranjadas, à superação de algumas constatações melancólicas, ao encontro de uma almejada tranqüilidade... Mas o alcance de tais objetivos nunca é garantido... O que posso, então, é consagrar estes dias a um pouco mais de leitura, a um pouco mais de descanso e, acima de tudo, ao enfrentamento de certas questões bastante pertinentes... E com isso, apenas tento ser honesto (mais uma vez uso essa palavra) comigo mesmo, pra poder depois retomar meus textos verborrágicos, pra continuar sorrindo de forma sincera como sempre busquei fazer... E não, não é necessário que ninguém “busque me resgatar das profundezas da minha mente perturbada”... Estou bem, creio! :p
Essa semana será de bastante Buena Vista Social Club (efeitos da calourada e, principalmente, do cineclube, ainda) e de leituras diversas, espero... No fim de semana já devo estar de volta. Até lá estarei – espero - um pouco mais em off.
Ah, mas só pra não perder o hábito, vou postá-lo, deixa-lo falar por mim:
“Era como se ele, apenas ele, excedendo a si mesmo, num movimento brusco saltasse fora da engrenagem e, desgovernado, pudesse ver de longe o mundo pacífico e feliz de que não sabia participar.” O encontro marcado, Fernando Sabino
Vou passar uns dias sem escrever aqui, pois tenho notado que os últimos posts não foram lá muito inspirados, e depois de aprender que não é bom censurar idéias e palavras quando se tem vontade de escreve-las, nem evitar publicá-las por receio de ser mal-interpretado ou por vergonha do que está sendo dito, é hora de aprender outra lição: naturalidade e controle de qualidade são coisas distintas... Não se deve confundir a liberdade de expressão com a banalização de sentimentos tão íntimos. Não é o caso, portanto, de sair escrevendo tudo que vem à cabeça, sem maiores precauções.
Os próximos dias deveriam ser carregados, pois tenho muitos trabalhos a fazer na faculdade, atividades no estágio e o desafio de retomar os estudos para o Vestibular. Além disso, meu punho dói, e já passo tempo o suficiente no computador enquanto estou no estágio ou cumprindo minhas obrigações acadêmicas. Além disso, não tenho dinheiro pra tratar tendinite, então é melhor me aquietar um pouco. Mas digo que deveriam ser carregados porque, se bem reconheço minha atual motivação, duvido muito que irei caprichar nos meus penúltimos trabalhos acadêmicos do curso de Administração. Definitivamente esse curso já deve ter me dado tudo que tinha a dar...
Sábado à noite, num desses momentos doidos de sensibilidade súbita embora não inconveniente, peguei-me no meio da Usina, depois de um dos grandes shows d’A Roda que já vi (contrariando, pois, a descontração de minutos antes), pensando no monte de coisas que tenho vontade de fazer... Momento efêmero, mas bonito, principalmente por ser só meu (e aí não há nada de egoísmo, entenda-se) em que reafirmei valores e planos que são anteriores a qualquer circunstância social, a qualquer influência mais direta de terceiros... Coisas que quero aprender, conhecer, incorporar à minha vida, somar... Talvez meus desejos mais honestos. E é bom, afinal, renovar um certo respeito por nós mesmos, uma certa reconciliação desmedida com individualidades, uma reviravolta naquele impulso constante de forçar uma realidade que só poderia mesmo concretizar-se de forma imposta. Sei lá o que me trarão os outros, que tipo de sentimento e atitudes para comigo...
Os próximos dias bem que poderiam ser consagrados ao ordenamento de determinadas idéias ainda bastante desarranjadas, à superação de algumas constatações melancólicas, ao encontro de uma almejada tranqüilidade... Mas o alcance de tais objetivos nunca é garantido... O que posso, então, é consagrar estes dias a um pouco mais de leitura, a um pouco mais de descanso e, acima de tudo, ao enfrentamento de certas questões bastante pertinentes... E com isso, apenas tento ser honesto (mais uma vez uso essa palavra) comigo mesmo, pra poder depois retomar meus textos verborrágicos, pra continuar sorrindo de forma sincera como sempre busquei fazer... E não, não é necessário que ninguém “busque me resgatar das profundezas da minha mente perturbada”... Estou bem, creio! :p
Essa semana será de bastante Buena Vista Social Club (efeitos da calourada e, principalmente, do cineclube, ainda) e de leituras diversas, espero... No fim de semana já devo estar de volta. Até lá estarei – espero - um pouco mais em off.
Ah, mas só pra não perder o hábito, vou postá-lo, deixa-lo falar por mim:
“Era como se ele, apenas ele, excedendo a si mesmo, num movimento brusco saltasse fora da engrenagem e, desgovernado, pudesse ver de longe o mundo pacífico e feliz de que não sabia participar.” O encontro marcado, Fernando Sabino
segunda-feira, setembro 13, 2004
Vagabundo globalizado
Há uma música que, não importa quantas vezes a escute, sempre me emociona... Pela sua capacidade de traduzir todo o meu apreço por essa cultura e por esse espaço que tanto aprendi a gostar, nos quais aos poucos me reconheço e que hoje afirmo que me representam... Pelo momento delicado em que se dissolve sua melodia, pela certeza de que não haveria forma melhor de retratar todo esse estado de espírito, que só poderia mesmo ser verbalizado nessa linguagem “futurista-surrealista”, nesse universo tão imaginário e ao mesmo tempo tão próximo e concreto que Lula Queiroga bem criou e que é, sim, o que eu penso, o que eu entendo, pouco importando o que ele quis dizer realmente. Espero ouvi-la sempre como essa boa lembrança do meu afeto por tudo que hoje estimo tanto e que é meu, somente, não importando que persista esse medo, esse aperto que apenas às vezes torna-se perceptível.
“...No futuro a onda é diferente
Mas tem miséria igual
Tem solidão também
A minha janela dá pra um céu escuro
Mas aqui é o futuro, mãe
A cozinha lá de casa não tem gravidade
E se eu abro a torneira
A água voa
E as panelas saem pra passear
Sob a garoa...”
Há uma música que, não importa quantas vezes a escute, sempre me emociona... Pela sua capacidade de traduzir todo o meu apreço por essa cultura e por esse espaço que tanto aprendi a gostar, nos quais aos poucos me reconheço e que hoje afirmo que me representam... Pelo momento delicado em que se dissolve sua melodia, pela certeza de que não haveria forma melhor de retratar todo esse estado de espírito, que só poderia mesmo ser verbalizado nessa linguagem “futurista-surrealista”, nesse universo tão imaginário e ao mesmo tempo tão próximo e concreto que Lula Queiroga bem criou e que é, sim, o que eu penso, o que eu entendo, pouco importando o que ele quis dizer realmente. Espero ouvi-la sempre como essa boa lembrança do meu afeto por tudo que hoje estimo tanto e que é meu, somente, não importando que persista esse medo, esse aperto que apenas às vezes torna-se perceptível.
“...No futuro a onda é diferente
Mas tem miséria igual
Tem solidão também
A minha janela dá pra um céu escuro
Mas aqui é o futuro, mãe
A cozinha lá de casa não tem gravidade
E se eu abro a torneira
A água voa
E as panelas saem pra passear
Sob a garoa...”
domingo, setembro 12, 2004
Mosaico
Para abstrair o instante indecifrável.
...
“O Brasil começou em Pernambuco”
Recife, nada mais necessário... A cidade e eu. O sonho da atitude estética diante da vida: ruas vazias, bar, música, álcool... Ninguém mais para perturbar meu doce entendimento. A cidade respira, e sempre a estimarei...
...
Baixando a trilha sonora de Mulholland Drive. Meus sonhos deverão ser, a partir de agora, um pouco mais surreais.:p
“There is no band, and yet we hear a band!”
Para abstrair o instante indecifrável.
...
“O Brasil começou em Pernambuco”
Recife, nada mais necessário... A cidade e eu. O sonho da atitude estética diante da vida: ruas vazias, bar, música, álcool... Ninguém mais para perturbar meu doce entendimento. A cidade respira, e sempre a estimarei...
...
Baixando a trilha sonora de Mulholland Drive. Meus sonhos deverão ser, a partir de agora, um pouco mais surreais.:p
“There is no band, and yet we hear a band!”
quinta-feira, setembro 09, 2004
terça-feira, setembro 07, 2004
Qualquer coisa que eu escrevesse aqui, hoje, já teria sido escrita por mim em outro momento. Não há nada na minha cabeça, creio, que não esteja registrado neste espaço, e qualquer resquício de pensamento novo não levaria ninguém a compreender o que quer que fosse.
Aliás, talvez seja hora de falar um pouco sobre isso. Tenho observado pessoas compartilhando sentimentos, idéias, complexos, crises, preocupações. Algumas delas, às vezes, parecem ainda estar naquele instante que antecede o entendimento de que não adianta, quase sempre, falar, explicar, detalhar, conjecturar... Quanto mais dizemos, mais também parece crescer a distância que existe entre aquele que sente e aquele que ouve. E foi passando por isso, também, por esse instante de incomunicabilidade, que aprendi que estamos, na maioria das vezes, sozinhos, sem ter muito com quem contar na hora de lidarmos com nossas emoções e nossas angústias.
Lembro de dias intensos, nos quais chegava em casa às vezes já a altas horas da noite e mesmo assim não queria dormir... Queria conversar, ligar pra alguém, entrar na internet, retomar conversas iniciadas horas antes, como se o instante de isolamento fosse demasiadamente difícil. Muitas idéias e sentimentos contraditórios na cabeça, preocupações, expectativa, e parecia que tudo isso era muito para uma só consciência, para um só interior... Era preciso extravasar tudo, deixar tanta ânsia transbordar, compartilha-las...
Em vão. Ainda hoje creio que, naqueles dias, ninguém pôde compreender totalmente o que se passava comigo, a lógica que havia por trás de tanta subjetividade... E isso foi há um bom tempo atrás.
Hoje, especificamente, está acontecendo o inverso: ficar em casa, calar, permanecer em silêncio, fora do alcance dos olhos, dormir, ouvir música... Tenho preferido tudo que possa ser feito sozinho. E temo que nesse comportamento haja um pouco de resignação, da certeza de que nada adianta, pois não há como explicar, como transferir para os outros a carga de tantas experiências individuais, e que não há, no fim de tudo, lógica alguma, só subjetividade, mesmo.
Cheguei, no entanto, a um outro momento. Uma fase em que, se não existe mais a tentativa desesperada de fazer-se entender, de conquistar um pouco de cumplicidade na tristeza, há pelo menos a certeza de que não sacrificarei minhas mais honestas dúvidas e reflexões em nome do coletivo. Quero dizer, resumindo: dou-me o direito de buscar o isolamento, de ficar mudo, de não parecer simpático, sem precisar para tanto de maiores explicações, pois, afinal, se elas não servem para aproximar-nos, para tornar-nos cúmplices de tantas incertezas, para que servem, afinal?
Ah, já ia esquecendo de dizer o quanto gosto desse blog, por poder aqui falar tudo sem me preocupar tanto em ser compreendido, sem excesso de cautela com o que é “politicamente correto”. Aqui posso ser irônico (como no meu orgulho em ser um estudante “asséptico”), falar sobre coisas sujas (“a sujeira orgânica, que apodrece, cheira mal”), falar sobre sentimentos ruins (“a nobreza da mágoa, vivida até seu esgotamento...”), descarregar minha revolta contra boa parte do movimento estudantil e seu monte de falsos transgressores, confessar meu mau-humor... Enfim, chutar o pau da barraca sempre que tiver de ovo virado e achando a vida ruim, como hoje...
Aliás, talvez seja hora de falar um pouco sobre isso. Tenho observado pessoas compartilhando sentimentos, idéias, complexos, crises, preocupações. Algumas delas, às vezes, parecem ainda estar naquele instante que antecede o entendimento de que não adianta, quase sempre, falar, explicar, detalhar, conjecturar... Quanto mais dizemos, mais também parece crescer a distância que existe entre aquele que sente e aquele que ouve. E foi passando por isso, também, por esse instante de incomunicabilidade, que aprendi que estamos, na maioria das vezes, sozinhos, sem ter muito com quem contar na hora de lidarmos com nossas emoções e nossas angústias.
Lembro de dias intensos, nos quais chegava em casa às vezes já a altas horas da noite e mesmo assim não queria dormir... Queria conversar, ligar pra alguém, entrar na internet, retomar conversas iniciadas horas antes, como se o instante de isolamento fosse demasiadamente difícil. Muitas idéias e sentimentos contraditórios na cabeça, preocupações, expectativa, e parecia que tudo isso era muito para uma só consciência, para um só interior... Era preciso extravasar tudo, deixar tanta ânsia transbordar, compartilha-las...
Em vão. Ainda hoje creio que, naqueles dias, ninguém pôde compreender totalmente o que se passava comigo, a lógica que havia por trás de tanta subjetividade... E isso foi há um bom tempo atrás.
Hoje, especificamente, está acontecendo o inverso: ficar em casa, calar, permanecer em silêncio, fora do alcance dos olhos, dormir, ouvir música... Tenho preferido tudo que possa ser feito sozinho. E temo que nesse comportamento haja um pouco de resignação, da certeza de que nada adianta, pois não há como explicar, como transferir para os outros a carga de tantas experiências individuais, e que não há, no fim de tudo, lógica alguma, só subjetividade, mesmo.
Cheguei, no entanto, a um outro momento. Uma fase em que, se não existe mais a tentativa desesperada de fazer-se entender, de conquistar um pouco de cumplicidade na tristeza, há pelo menos a certeza de que não sacrificarei minhas mais honestas dúvidas e reflexões em nome do coletivo. Quero dizer, resumindo: dou-me o direito de buscar o isolamento, de ficar mudo, de não parecer simpático, sem precisar para tanto de maiores explicações, pois, afinal, se elas não servem para aproximar-nos, para tornar-nos cúmplices de tantas incertezas, para que servem, afinal?
Ah, já ia esquecendo de dizer o quanto gosto desse blog, por poder aqui falar tudo sem me preocupar tanto em ser compreendido, sem excesso de cautela com o que é “politicamente correto”. Aqui posso ser irônico (como no meu orgulho em ser um estudante “asséptico”), falar sobre coisas sujas (“a sujeira orgânica, que apodrece, cheira mal”), falar sobre sentimentos ruins (“a nobreza da mágoa, vivida até seu esgotamento...”), descarregar minha revolta contra boa parte do movimento estudantil e seu monte de falsos transgressores, confessar meu mau-humor... Enfim, chutar o pau da barraca sempre que tiver de ovo virado e achando a vida ruim, como hoje...
segunda-feira, setembro 06, 2004
De volta a Recife... E há muito a separar o post irritantemente pernóstico que escrevi na sexta-feira de madrugada, meio bêbado (e que horas mais tarde ainda pensei em deletar, em uma atitude que reconsiderei, depois, em nome da espontaneidade) e este publicado agora, em uma tarde preguiçosa de segunda-feira “pré-feriado”.
Fim de semana permeado de moderação. Só não foi moderado o riso – a falta de noção, obviamente – e certas atividades mentais (ou seriam sentimentais?) irritantemente intensas de reflexão, análise...
Vontade incontrolável de voltar para casa bateu, em pleno sábado à noite, na Praça Guadalajara. Antes, alguns minutos em um Massilon triste, ouvindo música que mais parecia uma versão depressiva e boêmia das melodias da Tosca Tango Orchestra. Alguns perceberam e comentaram, e eu concordo: definitivamente havia algo de anormal naquela cidade.
Fim de semana permeado de moderação. Só não foi moderado o riso – a falta de noção, obviamente – e certas atividades mentais (ou seriam sentimentais?) irritantemente intensas de reflexão, análise...
Vontade incontrolável de voltar para casa bateu, em pleno sábado à noite, na Praça Guadalajara. Antes, alguns minutos em um Massilon triste, ouvindo música que mais parecia uma versão depressiva e boêmia das melodias da Tosca Tango Orchestra. Alguns perceberam e comentaram, e eu concordo: definitivamente havia algo de anormal naquela cidade.
sexta-feira, setembro 03, 2004
O importante é não ter grandes expectativas.
O importante é pensar no gole, no trago, no minuto, no silêncio...
O importante é, sim, o silêncio, a espera, a incerteza... Ou a não-espera, o momento.
O importante é o que geograficamente aguça os sentidos, é o descaso, o desprendimento, a dose de aguardente.
É Garanhuns, a mochila, a quebra na rotina e o que não se repetirá, mais, tão cedo...
O importante é o presente e uma pequena medida de anestesia, o que ainda é possível, o simples e o honesto agora, sem alegria, sem tristeza... O sublime, o instintivo seguir em frente, o pensar solitário...
O sublime.
O importante é pensar no gole, no trago, no minuto, no silêncio...
O importante é, sim, o silêncio, a espera, a incerteza... Ou a não-espera, o momento.
O importante é o que geograficamente aguça os sentidos, é o descaso, o desprendimento, a dose de aguardente.
É Garanhuns, a mochila, a quebra na rotina e o que não se repetirá, mais, tão cedo...
O importante é o presente e uma pequena medida de anestesia, o que ainda é possível, o simples e o honesto agora, sem alegria, sem tristeza... O sublime, o instintivo seguir em frente, o pensar solitário...
O sublime.
quinta-feira, setembro 02, 2004
Seriam os terroristas xiitas islâmicos verdadeiros artistas, e o atentado de 11 de setembro uma grande obra de arte?
Estava casualmente vendo o site do Diário de Pernambuco e me deparei com uma reportagem, “Uma crítica à crítica contemporânea”, a respeito de uma palestra que ocorreu na Fundação Joaquim Nabuco, essa semana, com a pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda, especializada em estudos culturais e literatura. É uma pena que não tenha tomado conhecimento dessa palestra antes, mas por meio desta matéria foi possível perceber o teor da discussão, sempre muito pertinente, a respeito da arte produzida hoje e da condição dos artistas e da crítica na atualidade. Bom, melhor não emitir nenhuma opinião, porque não acho que a partir das poucas declarações transcritas pelo jornal possa conhecer plenamente as idéias desta pesquisadora, mas fiquei no mínimo intrigado. Discordo de algumas dessas idéias veementemente... Já ouvi argumentos semelhantes e acho até um pouco ridículo e banal tal enfoque a respeito da arte. Mas há também um ponto de vista muito interessante sobre o ineditismo de cada momento artístico, inclusive deste momento da arte contemporânea, que dificilmente poderá ser comparado a qualquer outro, sem uma análise maior do contexto histórico em que nos encontramos.
Só dois pequenos trechos, pra polemizar:
“Citando o teórico inglês Fredric Jameson, ela ainda falou da crise da emoção hermenêutica, que teria muita relação com o papel do crítico: ‘Antes a gente tinha aquele prazer de perceber que entendeu uma obra de arte. Mas hoje esse sábio perde a importância’.”
...
“Heloísa comparou os ataques de 11 de setembro a uma instalação, ‘um espetáculo de beleza absurda, sem deixar referências para leituras imediatas, sem autor definido’, mostrando que as reações diante do atentado são semelhantes à condição do crítico hoje, que estaria num ‘grau zero’.”
Estava casualmente vendo o site do Diário de Pernambuco e me deparei com uma reportagem, “Uma crítica à crítica contemporânea”, a respeito de uma palestra que ocorreu na Fundação Joaquim Nabuco, essa semana, com a pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda, especializada em estudos culturais e literatura. É uma pena que não tenha tomado conhecimento dessa palestra antes, mas por meio desta matéria foi possível perceber o teor da discussão, sempre muito pertinente, a respeito da arte produzida hoje e da condição dos artistas e da crítica na atualidade. Bom, melhor não emitir nenhuma opinião, porque não acho que a partir das poucas declarações transcritas pelo jornal possa conhecer plenamente as idéias desta pesquisadora, mas fiquei no mínimo intrigado. Discordo de algumas dessas idéias veementemente... Já ouvi argumentos semelhantes e acho até um pouco ridículo e banal tal enfoque a respeito da arte. Mas há também um ponto de vista muito interessante sobre o ineditismo de cada momento artístico, inclusive deste momento da arte contemporânea, que dificilmente poderá ser comparado a qualquer outro, sem uma análise maior do contexto histórico em que nos encontramos.
Só dois pequenos trechos, pra polemizar:
“Citando o teórico inglês Fredric Jameson, ela ainda falou da crise da emoção hermenêutica, que teria muita relação com o papel do crítico: ‘Antes a gente tinha aquele prazer de perceber que entendeu uma obra de arte. Mas hoje esse sábio perde a importância’.”
...
“Heloísa comparou os ataques de 11 de setembro a uma instalação, ‘um espetáculo de beleza absurda, sem deixar referências para leituras imediatas, sem autor definido’, mostrando que as reações diante do atentado são semelhantes à condição do crítico hoje, que estaria num ‘grau zero’.”
Diário de Pernambuco, 02 de setembro de 2004, Caderno Viver
Será que os meus amigos artistas – músicos, poetas, fotógrafos - caso se interessem pela leitura e pela discussão, podem emitir uma opinião, depois, pessoalmente? :p Quero ouvir opinião de pessoas com mais propriedade no assunto... Só digo que eu como admirador leigo, que sou, da arte, acho certas idéias uma grande bobagem.
Será que os meus amigos artistas – músicos, poetas, fotógrafos - caso se interessem pela leitura e pela discussão, podem emitir uma opinião, depois, pessoalmente? :p Quero ouvir opinião de pessoas com mais propriedade no assunto... Só digo que eu como admirador leigo, que sou, da arte, acho certas idéias uma grande bobagem.
P.S. Ah... Pra mim, isso só vem confirmar que eu estava certo quando tava tirando onda naquela época, em Carneiros, dizendo que hoje em dia é fácil demais ser artista. Aliás, tô até pensando em retomar aquela antiga idéia de fazer a minha instalação com garrafas de carreteiro. Alguém me ajuda a colher o material? :p
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