quinta-feira, junho 14, 2007

amantes constantes

É sobre liberdade, acho. E a sensação inexplicável de que deveria haver algo mais na vida, pelo que lutar e pelo que viver, e que, não sendo encontrado, só deixa vazio, uma falta que nem o suposto amor preenche. Porque ao lado do amor está uma procura que não cessa. Ou porque o amor é sempre outra coisa. Ou porque, como diz a mocinha quando olha bem nos nossos olhos em pleno cinema e nos fuzila, "a solidão que existe no coração de cada homem é inacreditável".
Philippe Garrel nos faz crer - de verdade - que a ressaca de 68 deve mesmo ter sido horrível, e que a ânsia daquela juventude só poderia mesmo transbordar, parcialmente sufocada. Ok, Sr. Garrel! Mas nestes dias em que não parece restar nem sombra daquelas barricadas, e em que a ânsia, a insatisfação e o desconforto são para os tolos; enfim, onde tudo é cinismo e "narcisismo desvairado", há muitos que também precisam de ópio...

quarta-feira, junho 13, 2007

selma rules

O que será que a grande e magnânima Selma teria a nos dizer em dias como ontem e hoje, hein? Ó, Selma, eu que sou teu fiel discípulo, em face dos últimos acontecimentos te suplico: dai-me sabedoria e perspicácia para manter a serenidade e continuar com meus aprendizados selmísticos, sem jamais fraquejar!

... Discípulos de Selma, uni-vos!

sábado, junho 09, 2007

uma mudança não muito sutil

Eu, como diria Fernando Sabino, estou igual àquele anúncio de remédio: "E eu era assim; cheguei quase a ficar assim; mas graças ao Elixir de Inhame, hoje eu sou assim".

domingo, junho 03, 2007

centrojá

Há um projeto chamado Bajofondo Tango Club, que mistura tango com música eletrônica e - principalmente no seu segundo trabalho, o Supervielle – um monte de outras coisas. Este projeto, que se não me engano é de um uruguaio e um argentino, é provavelmente a coisa mais linda que eu vou ter o prazer de ouvir este ano, particularmente por uma música, Centrojá.

Há pessoas que conhecem e entendem de música, e para quem a qualidade desta vem de uma certa competência melódica, de composição e execução nas obras, dentre muitas outras qualidades que podem passar despercebidas a ouvidos menos treinados. Estas são poucas, e sabem do que estão falando. Para outros, a música é como uma trilha sonora, boa não tanto pela qualidade técnica, mas pelo que despertam, pelo modo como se encaixam e passam a “pertencer-lhes”, musicando determinados momentos ou fases vividas. Um pano de fundo indispensável para os dias, um remédio, uma cápsula milagrosa que faz imergir em sensações e que, eventualmente, pode armazenar sentimentos, sempre retomados em futuras audições – o que pode ser muito agradável, mas também extremamente melancólico (e por vezes perigoso). Eu me encaixo fácil, fácil na segunda categoria. Não ousaria, então escrever uma palavra sequer para falar de música. Mas falo do que sinto. As músicas do Bajofondo são meio híbridas, urbanas, alternadamente intimistas e empolgantes, cheias de referências – de jogos de futebol a rádios populares – e, por tudo isso, modernas e cheias de possíveis sentidos.

E Centrojá, para mim, é linda.

anomia

Somos interpelados de muitas formas. Até nas mais pequenas coisas somos levados a nos expressar, a dizer o que pensamos e somos, mesmo quando não temos clara idéia do que possamos ser ou devemos pensar, de fato. Vivemos em mundos múltiplos e desconexos e respondemos por ações e palavras que não se completam, mas tentamos juntar estes pedaços de vida e sentido e atribuir-lhes o nosso nome. Buscamos saber - e dizer - o que somos, e não raramente nos surge a dúvida se podemos de fato ser nomeados de modo singular, monolítico.

Vivemos de forma fragmentada, vendo tudo a partir de molduras, recortes e enquadramentos que nem sempre se encaixam. Em um mundo de tantas formas esquizofrênico, dedicamos nossa emoção e afeto a algumas coisas, defendemos com convicção política (ou com uma certa falta dela) outras, elaboramos racionalmente nossos pensamentos de uma terceira forma, e as ações, essas simplesmente não obedecem muito ao imaterial mundo das idéias e sonhos. Perdidos no meio dessa bagunça tentamos saber quem somos, no que acreditamos de fato e, sobretudo, no que vale a pena acreditar, com a esperança de descobrirmos a forma certa de viver, mesmo sabendo racionalmente que a forma certa parece não existir de fato.

Persistimos nesse esforço para que um grande número de contradições, conflitos, vontades e convicções se encaixem e então possamos dizer: - “Está aqui: este sou eu! É este universo delimitado que responde pelo meu nome”. Porém, como eu é uma fantasia, uma ficção, sempre há algo que sobra, não se encaixa na fórmula, e quase sempre isso que sobra é a parte obscura ou incerta que não queremos que entre no inventário de nossas particularidades. Mas digo quase sempre porque, às vezes, o eu se rebela - anarquia do querer e do saber ser - e viramos um monte de partes desconexas sem qualquer hierarquia: não sabemos mais o que prevalece, o que pôr em primeiro plano e o que descartar ou esconder.

Sou muitas pessoas que não dialogam entre si, não se entendem e sequer conhecem a frágil ordem de uma fila indiana.

sexta-feira, maio 18, 2007

thought he had a

mission , Dave the Moonman , to prove to everyone that no-one had ever landed on the moon . But that wasn't it at all . He was telling everyone all this stuff he'd learned cause he was hoping someone could prove to him it was wrong, and it wasn't just a hoax . Cause dreaming was so much harder otherwise . And it was so much harder to find the belief to get things done - lying out on the lawn at night , drunk , with the dew soaking through the back of your jacket . And all that distance between here and there . And he really wanted to believe that people had travelled to the moon in that crazy rocket , that looked as if it was made out of tin-foil and cardboard . He really wanted to believe that they'd managed to get it there , just by strapping enough fuel on , even though today you probably wouldn't trust it to get you down the shops

sábado, maio 12, 2007

valor arcaico reloaded

Depois dos problemas de acessibilidade, de volta.

quarta-feira, abril 04, 2007

a medida das coisas

As pessoas ansiosas sabem o quanto custa esperar. Os incorrigíveis sabem o quanto custa sua falta de parcimônia, as renúncias que fazem por culpa do seu eterno "em cima da hora". As descompensadas sabem as penalidades que sofrem por não saber agir de outro modo a não ser com o coração suspenso e a respiração presa, esperando o próximo minuto, no eterno ato de fazer mil e um planos sem, no entanto, medir a alegria, a tristeza, a possibilidade em outro ritmo senão no imediato, na rapidez do agora.
Eu queria um tempo que se expandisse para todos os lados, um passado que se fizesse bonito apenas por se deixar guardar em forma de vida, em forma de sentimentos resolvidos, e um futuro sereno o bastante pra se reconhecer como chance e risco. Queria também não só esse tempo vertical, mas um mais sensível, que se alarga, se expande em todas as direções possíveis.
Eu quero um tempo bonito como o da música, que é único sem ser reto - vivido próprio ritmo em que se faz acontecer. Mas, acima de tudo, eu quero um tempo que me leve até aquilo que desejo, mesmo eu não conhecendo sua forma, mesmo que eu não saiba chamar-lhe pelo nome.
Eu quero essa coisa bonita e preciosa que não faço a menor idéia do que seja.


"Tempo tempo mano velho
Falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã
Tempo tempo tempo mano velho
Vai, vai, vai...
Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final"

sábado, março 24, 2007

para que não esqueça...

Todos nós temos pendências, assuntos não-resolvidos, e há muitas conversas que eu também gostaria de ter, muitas oportunidades de me explicar, de agradecer, de lamentar e pedir desculpas. Mas, para mim, há uma em especial. Na verdade é quase uma dívida, e ela só será quitada quando as circunstâncias permitirem que tudo seja bem entendido. Aí sim poderei reafirmar importâncias e afetos, corrigir as inúmeras falhas cometidas e esperar, sinceramente, que possa agir à altura de toda a beleza que me foi mostrada. Por isso chamo de dívida - porque o mínimo que precisamos fazer é merecer o que recebemos.
Mas, por enquanto, ainda espero. Porque há conversas muito difíceis, como se disse naquele diálogo final de um belo filme de Almodóvar:

- Algún dia usted y yo deberíamos hablar.
- Sí, y será más sencillo de lo que cree.
- Nada es sencillo... Soy maestra de ballet, e nada es sencillo...

quarta-feira, março 14, 2007

glossário do amor líquido

abrir relacionamento: uma espécie de agendamento de chifre, sabe?

coisa fina, como vocês podem ver...

contra o amor líquido

Tristeza pra quê? Quando está tudo certo, quando tudo é promissor, bonito, novo e cheio de entusiasmos, a tristeza não poderia nunca entrar. Então por isso é que evocaremos todos os sentimentos totalitários, intransigentes, ditatoriais e perversos para fazer valer a nossa vontade e mandar essa indesejável presença embora. Como toda limitação imposta, claro que tamanha sanção tem lá suas violências: pensamentos inoportunos, recaídas infames e pequenas reações adversas são previstas – mas esperamos que perfeitamente combatidas, com toda a munição que conseguirmos carregar.

Tomaremos então mais algumas cervejas, falaremos da vida e sorriremos muito – mesmo que em descompasso com uma certa inquietação por dentro -, porque temos uma vida para viver e nossa maior beleza a gente tem por dentro e guarda (uma beleza que é como aquele tecido do episódio do Chapolin – lembram? - que só os inteligentes é que podiam ver); está protegida contra a mesquinhez e só será mostrada para quem a gente bem entender – e desde já enfatizamos que temos o pleno direito de não a mostrarmos nem tão cedo, pois cada um tem suas pequenas feridas e todo ser humano do mundo merece, pelo menos de vez em quando, acreditar que não deve baixar a guarda e que ninguém é merecedor de tamanho voto de confiança: revelar a beleza escondida nos nossos mais esperançosos e delicados sentimentos.

Assim, até que as mágoas, os traumas de infância – causados talvez pela danada da Aurora, aquela pedófila! huahauhua – e as ressacas morais vão embora, continuaremos sendo apenas loucos correndo pelas ruas devidamente munidos de uma boa garrafa debaixo do braço (para beber ou tacar no dente dos insolentes, não é verdade?), lamentando a fluidez da nossa modernidade, surpreendendo-nos com a transitoriedade dos nossos sentimentos, remoendo nossa persistente - porém consciente - solidão e celebrando a amizade, que é nossa melhor resposta à incerteza desses amores líquidos que os acasos, atalhos e inconstâncias dos nossos caminhos nos reservam.

p.s. Para Lavínia e Joana, em doses iguais de afeto, copos cheios e cartas sobre o futuro nas mesas. (E porque desânimo besta a gente mata acompanhado, em noites de sushi e de bar :p).

***


These things I've found,

This girl,

These sounds,


These days are alright,

These days,

These nights.


These things almost make me smile,

These things almost make me smile,

These things

Almost make me smile.


These walks in this town,

These things,

I've found,


And this girl, she's alright

For these days

And these nights.


These things almost make me smile,

These things almost make me smile,

These things

Almost make me smile.


Seinfeld, and IQU,

New York

And Beck too,


South Park, and space men,

And this girl

Who's my friend.


These things almost make me smile,

These things almost make me smile,

These things

Almost make me smile.

facilitando desfechos

Sabe aquela coisa de querer sempre o inconcluso e aprender a valorizar e a amar bem as nuances? Pela primeira vez na vida eu discordo: um pouco de pragmatismo faz bem, um mínimo de lucidez é necessário e, além disso, penso que é uma lição de vida aprender a fazer uso dos pontos finais - aprender a enterrar de uma vez a bezerra, ao invés de ficar chorando indefinidamente todas as suas inúmeras mortes.

sábado, março 10, 2007

fragmentos de viagem

Andando por lá eu lembrei que uma das coisas que muito me agradam naquela terra é que praticamente em qualquer um dos pontos da cidade se pode olhar para o horizonte e ver as serras que cercam a região. E engraçado é que eu só comecei a reparar nisso depois de um tempo, quando comecei a dar mais valor a essas coisas que acontecem quando a gente muda o olhar – jogando-o pra frente, pra fora, pra cima.

Claro, olhar pra frente sempre ajudar a enxergar melhor certas coisas que vão um pouco além das nossas fuças.

***

Também nessa história de olhar é que eu fiquei mais uma vez com a impressão de que as fachadas das casas são sempre muito parecidas, de como é curioso que depois de tantos anos elas ainda me parecessem estranhas e que, olhando-as isoladamente, – em uma fotografia, por exemplo, ou sem ter seguido com os olhos o caminho percorrido para saber onde se encontram – eu provavelmente não saberia dizer a que rua ou bairro pertencem.

Dessa vez, no entanto, reparei em algo surpreendente para quem viveu por lá durante dezessete anos (mais algumas visitas permeando os outros percursos iniciados depois): das calçadas eu me lembro, claramente! Fui andando e pensando: “por aqui vivia aquela menina da escola. Mas onde? Todas as casas parecem iguais...” Só no tracejado das calçadas eu achava: um canto de parede, uma grade de ferro, uma calçada de um certo jeito, elevada, e o esgoto margeando – “opa, é esta!” Foi aí que percebi que devo ter passado mesmo muito tempo da minha vida observando o caminho dos pés, olhando pra dentro. Os desenhos das calçadas, conheço-os todos, e se é verdade que me perderia observando casas, horizontes e ruas, digo por outro lado que, pelos traços dos caminhos, certos buracos, falhas, elevações, variações de mosaicos e cores, eu sempre me acho; recupero algumas andanças e relembro outros dias.

***

Essa foi engraçada! Bom, minha avó é feirante, trabalha aos sábados e segundas em duas cidades distintas, próximas à nossa, vendendo suas coisas – coisas meio de interior mesmo, muitas delas Made in Caruaru. Pois bem, disso eu sempre soube, e tenho ótimas lembranças dos dias em que cheguei a acompanhá-la no que na época eram verdadeiras aventuras: acordar às 3h30(!!) da manhã, o cheiro do café, pegar o caminhão às 4h30, montar a banca, o almoço, as pessoas, as conversas... Pois bem, o que eu nunca soube é que em uma dessas cidades – cuja feira acontece aos sábados – a banca da minha avó ficava na frente do necrotério. E agora nem lembro... Como soube disso? Ah, sim, era algo como uma conversa sobre a necessidade de não apenas estudar com afinco, mas de realmente se esforçar para que as coisas aconteçam – conselhos importantes que sempre recebo. Minha avó se admirava de como sempre havia estudantes e médicos cubanos que se picavam lá de Cuba pras nossas bandas só pra ver os defuntos fresquinhos. “Coisa de quem se interessa mesmo, né?” Ela, por outro lado, nunca precisou se esforçar muito: sempre podia ver ali pertinho os que chegavam aos sábados – ia olhar todos!

Disso eu juro que nunca soube. Bom, acho que deveria ouvir mais as histórias da minha família...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

the life pursuit

O que resta depois de um descomeço? Vontade de concha, ou de um casco. Conclusão óbvia: as tartarugas é que são felizes. Eu hoje invejo as tartarugas, os caracóis e as emas, por essa sua felicidade estúpida.

"Oh, if I could make sense of it all!
I wish that I could sing
I'd stay in a melody
I would float along in my everlasting song
What would I do to believe?"

E sim, eu queria viver em uma melodia. Somente.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

autismo virtual forçado

Algumas almas bondosas já me avisaram que o meu blog tá uma merda: ninguém comenta porque não pode, e a tendência é continuar assim, autista, já que eu não faço a menor idéia de como se conserta. Por enquanto ele continua assim, pairando na liberdade solitária anunciada no post anterior. Neste sentido, ele não está muito diferente do "tempo real".
Ora, vejam: a internet também imita a vida.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

o que faz bem para a alma

"Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."


"you were only waiting for this moment to be free..."

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

sapupara limão clube

Eita, lá vem mais um. Adeus à comoção dos poemas da negra do “modernoso” paulista e ao carnaval sem nenhuma alegria de Manuel Bandeira. Esse ano é proibido pensar na morte da bezerra: nada de comoções.

Veremos se a equação “gosto de liberdade + sapupara = bagaceira” está correta ou se algum espírito melancólico-carnavalesco vai colocar a perder a nossa arruaça. Com a graça de todos os Recifes e de todas as Olindas, não. Mas, vejamos.

Agora só quarta.


Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber
Se você vai brincar
Ah! meu bem sem você
Não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar

***

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Moraes
Adeus, adeus, minha gente
Que já cantamos bastante...
E Recife adormecida
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

a negação e a legitimidade de alguns sentimentos

Eu compartilho do sentimento de perplexidade e revolta que toma conta de tantas pessoas, diante das recentes atrocidades das quais temos tomado conhecimento nestes últimos dias. Eu também me sinto desolado. Acredito, no entanto, que diante de tais fatos convém repensar e fortalecer as bases sobre as quais estão estabelecidas as relações de convivência e as instâncias a partir das quais se funda a vida em sociedade.

De nada nos serve o clima irracional de caça às bruxas. Afinal, a parcialidade de uma mídia que decide qual crime hediondo será motivo de comoção nacional e quais passarão em branco é no mínimo suspeita e nos leva a questionar sob que critérios se busca formatar a nossa revolta, e a partir de que perspectiva. Parece-me claro que, por mais brutal que um crime possa parecer, as formas de reagir a ele estão condicionadas a questões como o tipo de indivíduo que o comete, com que propósitos e, acima de tudo, sobre quem recai este ato. Resumindo em uma pergunta: que concepções políticas, posturas e crenças estão implicadas neste “recorte” a partir do qual a opinião pública enxerga os fatos e define sua forma de posicionar-se, reagir e contra-atacar?

Na entrevista "exclusivíssima" concedida ao Fantástico, no último domingo, pelos pais do garoto morto no Rio, o formato exibido, o teor de algumas perguntas e a ênfase em determinadas falas e respostas, como aquela proferida pela mãe do garoto e repetida à exaustão de que "eles" (os criminosos) "não têm sentimento", "não têm coração", demonstram como o grau de atenção e seriedade posto em cada um desses eventos chocantes varia e está condicionado a fatores que não devem ser ignorados, inclusive interesses diversos.

Eu sei o quanto é delicado fazer este tipo de crítica em um momento em que as pessoas estão convencidas de que a revolta é necessária, de que todos os limites foram quebrados e de que se faz necessário questionar o grau de perversidade e o caráter irrecuperável de certas pessoas. Sim, eu também fiquei chocado e considerando a possibilidade de que alguns indivíduos são extremamente danosos à sociedade e - porque desprovidos de amor e de um mínimo de espiritualidade - talvez sejam também irrecuperáveis. Apenas chamo a atenção para um ponto importantíssimo: o depoimento da mãe, por mais comovente e justificável que seja, dado o momento e as circunstâncias, é equivocado. Porque eles, os criminosos, têm sentimentos sim: sentem ódio, indiferença, desencanto, dentre muitos outros. Um ódio de classe de tal modo rancoroso que não se trata apenas de tomar aos outros o que lhes falta. Trata-se, sim, de praticar atos perversos contra os diferentes: os que possuem uma vida melhor, mais feliz e cheia de possibilidades que as suas. Daí também porque a atitude aparentemente injustificável de matar mesmo aqueles que não apresentam reação, de agir com perversidade mesmo quando isso é absolutamente desnecessário, de matar uma criança mesmo quando objetos de valor, dinheiro e carro já foram entregues, se repete com freqüência vertiginosa. A causa é o ódio: um sentimento forte e, ao contrário do que se busca argumentar, muito humano.

Assim, está claro que, por mais comovidos que possamos ficar com a brutalidade cometida contra este ser inocente e indefeso, não podemos esquecer que esta barbárie não é mais novidade para ninguém e acomete crianças e jovens em todos os lugares, sobretudo nas periferias, nas margens dos grandes centros. Igualmente impossível de ignorar é o fato de que o crime foi cometido por menores pobres contra uma criança de classe média – tudo isto em um momento em que as elites, cientes dos efeitos desastrosos da desigualdade e cada vez mais encurraladas e ameaçadas em sua ilusão de felicidade – clamam pelo confinamento absoluto dos marginais, como a última tentativa de se obter um sossego impossível. A redução da maioridade se apresenta, assim, como mais um efeito paliativo de “higienização social” que busca segregar e isolar os excluídos. Estes últimos, por sua vez, parecem cada vez menos dispostos à resignação e mais desacreditados com relação aos princípios legais e morais sobre os quais a coletividade busca se estabelecer.

É evidente que a legislação precisa ser revista e que a Justiça, em nosso país, anda muito mal das pernas, desde sempre. Trata-se, no entanto, de fortalecê-la, cobrando sua efetiva capacidade de estabelecer a ordem e garantir o convívio - jamais aprofundar os mecanismos que geram as desigualdades e os artificialismos de uma tranqüilidade fundamentada na "ética global". Neste sentido, recorro às idéias de Beatriz Sarlo em seu livro "Tempo presente: notas sobre a mudança de uma cultura", surpreendemente apropriadas ao tema:

“Os meios de comunicação colocam-se ao lado das vítimas, pois elas, as vítimas, não estão interessadas na construção de um caso judicial baseado em provas e que dê todas as garantias processuais e probatórias aos suspeitos de delinqüir; pedem, simplesmente, um castigo direto e sumário. E expressam isso quando afirmam, diante das câmeras de televisão, que os delinqüentes são animais e, portanto, não têm qualquer direito. Esse discurso é compreensível quando parte das vítimas. Elas sentem a dor da perda ou a humilhação da violência sofrida e seu discurso não é baseado na perspectiva da existência de um princípio de justiça para todos. Só mesmo de longe, à distância dessa dor, é possível garantir a imparcialidade do julgamento. No entanto o julgamento tem sido feito pelos meios audiovisuais de acordo com os costumes dos regimes não-republicanos: sumariamente. Por sorte, eles não são instâncias judiciais verdadeiras. A pior Justiça, a mais lenta e mais torpe, é preferível a um veredicto populista, no qual a dramatização demagógica do crime resulta em uma ausência total de garantias. A Justiça deve sempre se basear em garantias, e os meios audiovisuais são, na prática e na teoria, contrários às garantias. Comportam-se como vítimas, e não o são. Uma reação compreensível quando vem de vítimas indefesas passa a ser agitação antiinstitucional quando parte dos meios de comunicação.

As vítimas exigem do Estado o que este deve dar – segurança – e exigem como podem. Os meios de comunicação tendem a colocar-se no lugar imaginário de uma das esferas do Estado, a da Justiça, e não podem nem distribuir justiça nem garantir segurança. Além do mais, não cumprem sua tarefa de informar razoavelmente”.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

e nana dança...

Duas cenas têm sido recorrentes em meus pensamentos, nos últimos dias – algo como uma tradução imagética para alguns sentimentos. Coincidentemente, ambas são protagonizadas por mulheres. A primeira delas é recente: Hermila e sua amiga se refrescam à porta da geladeira no novo filme de Karim Ainouz, O céu de Suely. No entanto, nada mais óbvio: que recifense pobre não tem sentido vontade de literalmente entrar em uma geladeira nesses dias de calor infernal?

A outra é de um filme de Jean-Luc Godard, dividido em doze atos. Em um deles, a prostituta Nana, que acompanha seu cafetão em um encontro, durante o seu “dia livre”, está entediada. Vai até a radiola de ficha e coloca uma música: ela sabe que precisará se divertir sozinha. O nome da cena? Se não me engano, algo como “a felicidade não é engraçada”.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

trinta

Em uma coisa, pelo menos, eu concordei com o Banco do Brasil: seu marketing de fim de ano, que está construído sobre a idéia de que “a vida é feita de pequenas contagens regressivas”. Aliás, não deixa de ser uma ironia que eu tenha dado o ar da graça por estes dias trajando uma camiseta com estes dizeres oficiais, no meu trabalho. A minha contagem começou oficialmente, hoje, e vai de 30 a 1. Depois disso, para o bem ou para o mal, muita coisa muda em minha vida, e é com muito otimismo que eu penso que, talvez, só por essa possibilidade que nos é dada de mudar o que está colocado em nosso entorno - as nossas condições de vida - precisamos celebrar a vida. A possibilidade da mudança, da libertação, do novo; o medo e a felicidade de descobrir o nosso poder de fazer grandes ou pequenas destruições, de saber que nossos gestos surtem efeitos mais ou menos perceptíveis e que, exatamente por isso, somos tão responsáveis por cada um deles.

Há bastante tempo eu deixei de rezar, mas há uma prece que eu nunca abandono: uma prece leiga, laica e torta que pede, a cada nova reviravolta, que elas não cessem nunca, que eu jamais encontre apenas o previsível, o esperado, a temível e sedutora “estabilidade”. E sei que há um preço alto a pagar por essa possibilidade das rupturas e recomeços: pois toda época tem algo de bom e de ruim, e não há nenhuma garantia de que o bem permaneça e que somente o indesejável se afaste. Podemos mesmo, vez por outra, perceber o tempo funcionando como uma peneira ao contrário, detendo o que nos fere e levando furtivamente o que nos é precioso. Mas faz parte do risco e da graça, para quem sabe jogar: pôr à prova o que há de bom, esperando o que está por vir e apostando no que é diferente, acreditando-o melhor. É também um ato de confiança e generosidade, este: renegar o indivíduo que somos hoje acreditando na nossa capacidade de sermos melhores; que o mundo nos trará novos presentes e não nos deixará de mãos vazias.

Engraçado mesmo, nisso tudo, é também perceber como tudo parece mais entusiasmante, fantástico e cheio de promessas quando imaginado em pleno desespero. Sim, pois os louros da vitória nunca são tão perceptíveis e gritantes quanto em nossos planos e fantasias: quando conseguimos mal podemos acreditar, e é tudo tão leve e sutil que, com um pouco menos de atenção e cuidado, quase podemos deixar passar em branco e esquecer o quanto nos custou e o quanto é importante. O medo e o condicionamento a que nos submetemos são tantos que só se pode explicar a vertigem e a cautela com que celebramos esta energia vital que surge das mudanças por meio das metáforas, como àquela a que recorreu Mari, ao lembrar dos bois que, mesmo depois de libertos, continuam andando em círculos ao redor do moinho que faziam movimentar, no filme Abril despedaçado. Estão soltos, mas só sabem andar em círculos, e lhes custa olhar para os lados e imaginar que podem fazer diferente, que só lhes basta mudar o passo.

A adrenalina de tomar uma decisão importante e saber que a responsabilidade é toda sua é uma espécie de “estresse bom”, como disse um amigo: a preocupação com as conseqüências que sobrevém a uma escolha definitiva; o friozinho e a vertigem que sentimos quando abrimos mão de algo importante e precisamos fazer valer a pena a escolha; e, acima de tudo, o imperativo pela criação de novas alternativas que façam frente às que irremediavelmente deixamos para trás.

Sim, não há dúvida: é o ano novo bem ali, logo depois do carnaval, mas desde já e sempre, em cada dia.

domingo, janeiro 07, 2007

o melhor do ano



Se em 2005 o melhor filme que eu vi nos cinemas foi aquele atentando terrorista chamado Caché, no ano passado eu penso que a melhor coisa que passou por aqui foi o novo filme de Wong Kar-Wai, 2046, que deixou muita gente embriagada de amor e suspirando pelos cantos, nos cinemas, nas ruas, nos bares e nos quartos, com sua própria viagem a um espaço/tempo distante e bem particular onde as memórias e as sensações amorosas estão vivas.
Eu tenho a impressão de que, da mesma forma que me coloquei em maus lençóis ao fazer de forma tão veemente a propaganda do filme de Haneke e mobilizando pessoas para irem ao cinema assistir - e colhendo as reações mais diversas depois - também poderei ter problemas com este aqui. Então aviso logo aos destemidos que as películas desse chinês estão sempre à beira da pieguice: é algo como uma embriaguez amorosa mesmo, uma exasperação dos sentidos, com direito até mesmo a algumas idéias repetidas à exaustão - como aquela do segredo soprado no buraco da danada da árvore - o que pode aporrinhar a paciência dos menos suscetíveis ao romantismo sem limites.
Vale ressaltar também que essa obra pode ser péssima para a saúde, principalmente se você está tentando largar o cigarro. Em 2046, fumar é uma experiência quase estética, acho - assim como em seu filme anterior, "Amor à flor da pele".
Na verdade, os filmes de Wong Kar-Wai são como um bom brega daqueles das antigas: ou você embarca na dor de cotovelo ou acha um exagero só, tudo aquilo. A maior prova disso é a presença inusitadíssima da música "Perfídia", na trilha do filme.
Não é pra qualquer um não, viu? É coisa pesada: bonita e romântica de doer.
Ai, ai...

sábado, janeiro 06, 2007

apelo

LAVÍNIA, COME BACK!

WE LOVE YOU!