quinta-feira, janeiro 31, 2008

notas de carnaval #1

Carnaval 2008 já começou com a macaca nessa quarta-feira. Primeiro, conversa sobre dificuldades emocionais no ônibus com Mari, a caminho do Recife Antigo, além daquele transtorno maravilhoso (e já previsível) que acomete o trânsito da cidade devido aos blocos na rua e do qual eu nunca, nunca reclamo porque acho lindo que a cidade se transforme em um espaço festivo não-utilitarista onde o que é priorizado é a diversão, mais do que a pressa ou os fins de quem se desloca em seu carro.

(Embora eu veja isso sem muito romantismo, já que o carnaval mesmo há muito já está virando uma coisa meio utilitarista, que é bom porque emprega, porque movimenta a economia, porque faz bombar os lucros de empresas variadas e dá a alguns uma sensação de transgredir que é totalmente cooptada).

Enfim... Apesar de tudo, é uma força tensionadora - via hedonismo - que pode bem ser revertida em celebração sincera, carnavalização de um espaço urbano normalmente tão cinza. E pode parecer ingênuo, mas acredito que em Recife, particularmente, alguns traços de alegria desinteressada ainda subsistem em meio à teatralidade política e mercadológica que reina quase absoluta.

... Mas onde estávamos? Ah, no ônibus, com Mari, falando em alto e bom som sobre assuntos bem pessoais. Só que isso não vem ao caso, e como hoje eu descambei de vez pro estilo “meu diário” e resolvi adotar a escrita livre pra registrar impressões, vou esculhambar de vez e fazer uma versão fast foward do relato, já que estou sem tempo e sem saco.

O resto da noite foi: uns dois litros de coca consumidos (e muita lamentação por isso!); eu sendo abordado e parabenizado por algo de que realmente precisava de um retorno; a descoberta desconcertante de que pessoas ficam constrangidas com a minha presença; Eddie lembrando carnavais passados e mais uma vez prometendo ser parte importante da trilha sonora deste; e pra finalizar, um amigo de fora que estava desanimado com o carnaval, no fim de tudo, ensaiando passinhos de frevo com uma sombrinha. :p

Ah, já ia esquecendo: a maior concentração por metro quadrado que eu já vi em muito tempo de pessoas que olham pra você e fazem cara de... isso mesmo que vocês estão pensando. E eu me perguntando porque geralmente sou tão mal recebido por semi-conhecidos. Meu novo sonho: ficar me observando de longe pra ver o que eu faço que causa tamanha má impressão no povo em geral. Mas sempre resta o consolo de quem é detonado por muitos: o afeto de poucos – os que importam, afinal!

p.s. Os moradores da Torre estão indóceis: hoje é noite do bloco Só sai pingando que, acredito, dará a tradicional volta no Atacadão dos presentes. :p

sábado, janeiro 19, 2008

eu não morri, muito prazer

Chega essa época de obrigações acadêmicas, prazos vencendo, preocupação, ansiedade afetiva, alimentação escassa e também da equação guaraná + cigarro + café = dor de estômago, aí eu vou ficando assim com essa cara de noivo cadáver.


***

Ontem já havia um monte de gente enlouquecida ligando, mandando mensagens ou “acabando de entrar” no msn pra comentar sobre a festa do guaiamum treloso, hoje à noite. E pra piorar, agora, enquanto escrevo aqui, meu cunhado está na cozinha com seu radinho de pilha - que está tocando aquela do saca-saca-saca-saca-rolha (com direito a dedinho levantado e tudo!)

Ok, está declarada oficialmente a impossibilidade de continuar ignorando o carnaval. Depois, quando não resistir, tenho todo o direito de não me sentir um completo irresponsável. Não é mesmo, minha gente?

sexta-feira, janeiro 11, 2008

pura destreza

Pronto, acho que agora o visual aqui melhorou sensivelmente. E como diria aquele humorista, o Espanta, imitando o bêbado: "é só no equilíbrio!" Tentando manter a naturalidade, apurando a destreza e com muito cuidado para não se esborrachar de vez.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

encruzilhada

"No porão da minha cabeça dois gigantes se enfrentavam: de um lado, o gelo da covardia burguesa; do outro, na parte oposta do eu, cozinhava-se uma idéia herética. No combate entre essas duas forças pendulava eu, horrorizado."
Tropicalista lenta luta

A primeira vez em que eu postei esse trechinho do livro do Tom Zé foi em outubro de 2006. No entanto, nunca esteve tão atual pra mim - embora hoje talvez, menos maniqueísta, pense que a divisão entre essas duas partes esteja menos nítida. Ou, pior: acho cada vez mais difícil saber em que lado a covardia, onde a verdadeira transgressão...

terça-feira, janeiro 01, 2008

a forma decadente pós-réveillon

Talvez uma convenção tão certa quanto aquela de que a passagem do dia 31/12 ao 01/01 representa uma mudança tal que justifique planos, votos e abraços é a de que tudo o que é desejado ardorosamente para o ano seguinte só conta mesmo a partir do dia 02. Certamente essa convenção é bem mais velada, subentendida, mas não menos forte. O pé direito com que nos dizem que devemos entrar no ano novo provavelmente deve ser o mesmo que dá esse pulo enorme com o qual chegamos ao dia 02 no mesmo tom de começo, relegando o primeiro dia do ano a um mero intervalo não-computado na nossa narrativa de renovação.

Ressaca, estados de enfermidade aguda, corpos debilitados, cara amassada, fome sem vontade de comer, - e, claro, para alguns, um certo remorso ou ressaca moral pelos exageros permitidos pela felicidade explosiva do dia anterior - tudo isso, salvo engano, não parece rimar muito com os discursos do momento exatamente anterior, com a imagem triunfante das pessoas, a aura imaculada, brilhosa e pipocante refletindo os fogos de artifício do réveillon. Chega a ser engraçado: todos esbanjando glamour, riqueza, ostentação e alto potencial de sociabilidade, como numa vinheta da Globo, para no outro dia acordar com o que provavelmente será a pior cara dos seus 365 dias de pura novidade prometidos em meio à euforia.

Entre as bolhinhas de champanhe e o chiado do sonridor no copo às vezes há apenas algumas horas.

Claro que a festa de réveillon tem sua parte bonita e interessante. Eu mesmo tive uma ótima passagem este ano com a família de uma amiga que me permitiu estar presente e compartilhar esse momento intimista de celebração caseira. Foi simples, divertido e acolhedor. Se escrevo neste tom ranzinza é porque estou em pleno dia 01 e, como para todos os outros, minhas promessas de felicidade e moderação só valem mesmo a partir de amanhã. E se a virada foi assim agradável, eu também estiquei minha comemoração um pouco mais do que deveria, chegando em casa apenas às seis da manhã depois de algum tempo de mofo total na decadente rua da moeda, que é onde no final das contas eu sempre vou parar, por alguma predestinação cósmica. Some of us never learn!

Este ano, no entanto, juro que sou inocente. Devido ao remédio infame que estou tomando, me permiti tomar apenas umas três taças de vinho, jurando que um prêmio mais do que merecido depois de tantos meses de abstinência jamais me faria mal. Obviamente, as coisas não correram deste modo, e acordei parecendo o Mumm-Ra antes da transformação (alguém aí lembra dos Thundercats?). Quer dizer, Mumm-Ra ao menos conseguia andar com uma certa desenvoltura; eu, por outro lado, só agora no fim da tarde consegui levantar da cama (que mais parecia um gavetão do IML). Mas eis que o presunto ressuscitou para atualizar o blog neste fim de tarde...

Então é isto: eu tinha programado uma espécie de retrospectiva de algumas histórias que andaram assombrando o blog durante o ano, como uma espécie de saldão 2007. Sei que é ridículo, mas eu queria e pronto. Mas isso fica para outro dia, assim como a busca de uma nova imagem aí pro topo - afinal, faz tempo que o conteúdo, o tom e tudo o mais do que escrevo aqui não combinam nem um pouco com a foto do Jean-Pierre Léaud no Les quatre cents coups... Bom, fica pra depois, porque agora eu vou voltar pra minha tumba. Amanhã tudo será diferente, acordarei renovado e forte (serei o de vida eternaaaaaa).

terça-feira, dezembro 18, 2007

do apego

Porque eu não aprendi a perder assim. O que eu sempre quis e não tive era tão abstrato, imaterial, que se tornava muito fácil, depois de um tempo, depois da vontade, rejeitar como ilusório ou mero engano. Mas – e este é o perigo das experiências concretas – neste específico caso eu pensei que era tudo tão certo e se encaixava tão perfeitamente, mostrando-se tão melhor ou mais bonito do que eu poderia esperar, que fui insistindo, acreditando, até um ponto em que estava depois do jogo, fora do fato, sem perceber que me transformava no vilão psicopata que continua negando, insistindo, fingindo esquecer que faltava algo - uma outra vontade, a exata contrapartida da minha. E então para negar a derrota eu inventei defeitos, chamei de ordinário, fútil e desleal ao que era absolutamente correto. Acusei de narcisismo sem perceber que apontava para o meu próprio reflexo. Evoquei Nêmesis para punir os excessivamente afortunados, sem saber que era a mim que poderia ser cobrada a fatura. Mas foi quando eu vi que tudo que eu fazia só piorava a situação, só me tornava mais errado e indigno, que algo estalou por dentro e vi que era hora de deixar pra lá...

“And the hardest part
Was letting go not taking part
Was the hardest part

And the strangest thing
was waiting for that bell to ring
It was the strangest start

I could feel it go down
Bittersweet I could taste in my mouth
Silver lining the clouds
Oh and I
I wish that I could work it out”

E quando uma amiga me falava de apegos materiais desmedidos, perguntei ansioso a respeito daqueles que se apegam a sentimentos, mesmo os mais inapropriados, reconhecidamente fadados a decair. Sua resposta não poderia ser mais correta. “Porque talvez elas tenham medo de não ter nada o que colocar no lugar...” E então acho que é nessa hora que eu recorro ao meu lado mais antiquado, old-fashioned, e sinto uma nova vontade, incipiente (talvez um pouco encenada, não sei, mas, afinal, não somos nunca perfeitos...). Let it go! Melhor desejar uma bonita e duradoura felicidade a quem - suponho agora, mais amolecido - deve merecer o melhor.


Para ouvir:
The hardest part- Coldplay


p.s. E pesquisando um pouco sobre sentimentos old fashioned na internet (hahaha), achei um blog em que uma garota postava simplesmente assim: “Eu nunca sei a hora de bater em retirada”. Pois bem, este é o nosso consolo no mundo: sempre existem outros como nós. =)

p.s.2 Botei pra quebrar agora: pieguice máxima. Mas dêem um desconto: é fim de ano, o blog também precisa ser purificado, então estou "dando um fechamento" às coisas mais melosas de 2007. Bom, pelo menos o blog que citei é mesmo ótimo!

domingo, dezembro 02, 2007

previsões levemente imprecisas

Acho que está para ser feito o inventário dos costumes de previsão e destino aos quais vez por outra recorrem até as mais céticas das criaturas. Eu confesso que acho engraçado ler horóscopo de jornal - embora raramente o faça, de fato -, talvez por seu caráter assumidamente lúdico. É como se a exatidão, a pretensão e a especificidade que são próprias à idéia de profecia (penso que, por definição, a profecia tem de ser específica e bem direcionada para que seja minimamente crível) encontrasse a aleatoriedade dos jogos de palavras e sentenças combinadas. Que sorte caiu para o signo de escorpião, hoje? Uma versão, reconheço, já meio fora de moda da hoje mais pop today's fortune orkuteana. A lógica, no entanto, é a mesma: uma aleatoriedade brincando de acertar a seqüência dos fatos; um remendo (forçado) de destino brincando de antecipar o acaso. Pois bem: os escorpianos do mundo todo devem estar em um de seus dias menos nublados. Afinal, vejamos:

Vênus transita pela sua casa de mundos ocultos, segredos e labirintos, trazendo com a sua luz suave, paz e calma para os lugares mais penumbrosos do seu psiquismo. Vitória da Bela sobre terríveis dragões das dores e ressentimentos, vitória da calma sobre furiosas angústias.

Transcrita a mensagem dos astros, posso chegar enfim à justificativa de por que raios eu resolvi falar de um tema desses! Foi não apenas pelo tom místico e kitsch da linguagem exotérica - que às vezes se torna até engraçado - mas, acima de tudo, por esta pérola: "os lugares mais penumbrosos do seu psiquismo"(!)

No quesito assunto, acertou em cheio! Se tem alguma coisa que tem tomado o primeiro plano e se tornado o centro dos conflitos, atenções e interesses nestes últimos tempos são esses tais lugares penumbrosos, que definitivamente emergiram com seus temas, emoções e sentidos, trazidos todos à luz. Na minha previsão, no entanto, a luz não assume contornos tão bonzinhos: a última coisa que deixa é calma e traquilidade.

Dores, resssentimentos, furiosas angústias. Uau! Dessa vez posso dizer que me li no horóscopo estilo "filosofia- gráfica-rápida" do jornal de domingo. No entanto, tenho a impressão de que foi outra coisa o que Vênus trouxe para essa cabecinha penumbrosa. Quero dizer: o astrólogo acertou o objeto, mas errou feio na previsão.

segunda-feira, novembro 26, 2007

em duas linhas

"É no tempo-espaço da deriva urbana que reside o nosso tanto de adolescente permanente".
Ítalo Moriconi

quarta-feira, novembro 21, 2007

reel around the fountain

Mais uma do momento "songs that saved your life"...

"It’s time the tale were told
Of how you took a child
And you made him old

It’s time the tale were told
Of how you took a child
And you made him old
You made him old

Reel around the fountain
Slap me on the patio
I’ll take it now
Oh ...

Fifteen minutes with you
Well, I wouldn’t say no
Oh, people said that you were virtually dead
And they were so wrong

Fifteen minutes with you
Oh, I wouldn’t say no
People said that you were easily led
And they were half-right
They ... oh, they were half-right"

The Smiths

sábado, novembro 17, 2007

o movimento contrário

Eu admiro a integridade dos bichos que, quando doentes ou machucados, recolhem-se em um cantinho para lamber suas feridas. Mas não sei se por inexperiência, ansiedade ou mesmo por pura falta de jeito, sempre me sobra uma necessidade inconveniente de explodir aos olhos dos outros. Talvez pela pura impossibilidade de me conformar com o fato de que minha tristeza seja ignorada. Talvez pela recusa a simplesmente implodir e ter de arcar sozinho com este fardo: ser parte dos espólios e resíduos que representam aqueles que de algum modo não deram certo. Como naquela música do Ave Sangria em que o sujeito, em seu último ato de alegria perversa, ateia fogo ao próprio corpo, causando horror aos transeuntes. “Dorido, dolorido, colorido e sem razão. Ou não”.

(Mas quem, nessa época de grandes tragédias, ainda se admiraria com uma pequena e inócua explosão?).

Só sei que, talvez por isso, resta a incômoda necessidade de fugir de casa como quem foge do apagamento, como quem insiste e aposta – embora sabendo, de antemão, da derrota – no que a bagunça das ruas poderia trazer. Mas o movimento para fora é só uma muleta - artifício de bicho desprovido de sua virtude instintiva - que, com algum esforço, talvez se possa descartar. Porque, parafraseando uma outra música, Recife não mora mais em mim, e a cidade agora sequer me seduz com suas promessas.

Creio que finalmente desistimos um do outro.

quarta-feira, novembro 07, 2007

preguices de fim-de-semana

Uma leitura (muito) aberrante

No site da Prefeitura do Recife, a notícia era: Mês do servidor é encerrado com grande festa.
Eu, enquanto falava no msn, li: Mãe do servidor é enterrada com grande festa.

Ainda bem que não cheguei a perder muito tempo pensando porque a coitada da velha era tão odiada...

Uma questão de ênfase ou redundância

No cinema, pouco antes do início do filme:
- Ceci, você já colocou o celular no silencioso?
- Já! Mas peraí, vou colocar mais...
- ???

sexta-feira, novembro 02, 2007

o observador (des)atento

Eu gosto de ficar espreitando as coisas, para esperar que elas aconteçam. É um erro, eu sei. Em todos os aspectos. Mais fácil seria ficar despreparado, fazer-se de desentendido, como quem não está vendo, como quem mal sabe que algo pode acontecer, lalalala... Mas que posso fazer se eu, sempre em vigília – embora ao mesmo tempo, contraditoriamente distraído – estou sempre esmiuçando tudo, escondendo-me nos cantos, pronto para armar o flagra – ahá! – que, no entanto, nem sempre acontece...

Mas, quando se realiza, que discreto prazer nos dá! Até as coisas mais insignificantes, quando acompanhadas desde seu vir-a-ser até o posterior e merecido esquecimento, e quando percebidas em todos os seus detalhes, têm sua graça: um comentário, uma mensagem qualquer, um encontro entre terceiros do qual não participo - quando descobertos não com ajuda do pressentimento, mas pelo puro esforço incansável e doentio de desvendar a ação obscura dos fatos e revelá-los. Na verdade, qualquer insight ou manifestação de sexto sentido se chamaria outra coisa; teria outra graça e outro mérito. Que fique claro, então: o sucesso de um observador obsessivamente atento, é disso que falo agora.

No entanto, como falei em contradição, reafirmo agora que o paradoxo está posto: ansioso pelo tecido de ações que vai descobrir, o observador acaba por cair em delírio fantasioso, sonhando com o que vai encontrar. Eis quando a surpresa dá a volta e o pega desprevenido, mostrando-se, como sempre, muito diferente. Ridicularizado, então, fica o observador desatento e suas manias. Bem feito. Normal é que isso não é...

segunda-feira, outubro 15, 2007

agora é assim...

... à maneira dos (desde sempre) deslocados.

"Take me out tonight
Where there's music and there's people
Who are young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one anymore

Take me out tonight
Because I want to see people
And I want to see life
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because it's not my home, it's their home
And I'm welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well the pleasure, the privilege is mine..."

There is a light that never goes out, The Smiths

sexta-feira, outubro 12, 2007

o dentro e o fora

Sensação semelhante deve haver experimentado o primeiro ser que, depois de muita estranheza, descobre-se forasteiro, à margem do seu hábitat. E qual não é a surpresa e a perplexidade ao constatar que durante tanto tempo esteve em caminho absolutamente errado, aprendendo a acostumar-se, apesar das suspeitas, e perguntando-se: mas seria só isto mesmo, a vida?

Não que a iluminação duvidosa tenha de súbito resolvido o problema. O hábitat é delineado por sólidas paredes de vidro e resta saber – questão de ponto de vista – se ele próprio seria alguém dentro do aquário, sonhando com o ambiente em que respiraria pela primeira vez de acordo com as possibilidades de sua natureza mamífera, ou se estaria até o presente momento fora da redoma, sonhando adentrar este pequeno mundo e desempenhar o papel do feliz peixe, preenchendo o minúsculo e prazeroso espaço em desajeitadas voltas.

Cedo ou tarde, no entanto, o problema pode se mostrar despropositado ou insolúvel: no fim das contas, dos dois lados do vidro parece haver sempre

o mesmo aquário.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Palavras de incentivo (?!)

“Sabe quando você tem, assim, umas dezessete Gisele Bündchens e então resolve apostar as suas fichas em uma, digamos, Nair Belo? Pois é, neste caso fez toda a diferença”.

Frase dita por uma pessoa em um sonho que tive esta noite.

E fiquei pensando que talvez o primeiro passo seja a Nair reconhecer que nunca chegará a Gisele, e então ver o que pode fazer a respeito...

terça-feira, outubro 02, 2007

um post que resista...

Que há fases em que a gente está com uma persistente e prolífica necessidade de escrever, enquanto em outras nosso humor está nas ruas e nos gestos, mais do que nas reflexões, isso eu já sei faz tempo. Mas, entre uma e outra, parece cada vez mais claro que, por vezes, se forma uma zona nebulosa de transição, em que o sujeito acumula rascunhos, textos não-iniciados ou simplesmente insights que dificilmente resistem ao dia seguinte. No fim do último domingo, mesmo, eu tinha algo a dizer, mas que logo depois já parecia um pouco como aquela música do No porn, "o clima/ é dramático e fake/ fake fake fake..."
Nesse meio termo obscuro em que mal se vive e pouco de produtivo se pensa - mas que tampouco é de letargia, pois é meio como alguém esperando às 4 da tarde por algo que tem uma possibilidade de acontecer, mas que nem é dia, nem é noite, nem é certo que aconteça - acho que, enfim, nesse caso a única coisa que frutifica é a musica, que é como um concentrado de emoções que você começa a tomar logo cedo pra potencializar um monte de sentimentos que quer explorar até o fim, só pra ver aonde levam.
É como uma pílula que continuamos tomando: às vezes faz um bem danado, às vezes deprime, mas nos leva a algum lugar. A um novo insight, à letargia ou à rua.

Para ouvir:
Nouvelle vague - Heart of glass

quinta-feira, setembro 20, 2007

bessie smith

Minha companhia querida nestas últimas noites, antes de dormir...

sábado, setembro 15, 2007

na bolha

qual a distância entre o antes e o depois?

quarta-feira, setembro 05, 2007

voltando àquele assunto...

Creiam: eu vi no cinema, por esses dias, uma senhora encontrar e aniquilar o seu Outro - neste caso, um reflexo idealizado simpaticamente distorcido de algo perdido em um passado lírico (ou seria tempo paralelo imaginário?), tornado mais feliz pela distância. Foi uma linda solução pensada para esse embate terrível ao qual às vezes se reage com uma certa resignação ou auto-complacência. Mea culpa.

Esta, claro, é apenas uma interpretação muito pessoal dentre as muitas idéias e reflexões possíveis de se descobrir - ou criar - na película polissêmica de Cassavetes, Noite de estréia. Eu sei, tem toda aquela história da beleza, da chegada da velhice, do teatro – ah, que bonita forma de filmar o teatro! –, mas isso qualquer sinopse traz. Neste momento, o que mais me chamou a atenção mesmo foi a força e a vitalidade desta surra bem dada nas idealizações que oprimem e nas falsas correspondências “certas” com as quais a vida supostamente nos obriga. Saí do cinema pensando em quanto de responsabilidade nos cabe em (re)inventar nossa vida, ao invés de apenas aceitar o dever ser que cada idade, circunstância ou contexto social nos impõe como molde, como condição natural.

Bom, foi assim que o vi. E que maravilha quando um filme aparece em um determinado momento como uma espécie de interlocutor, como uma possibilidade de diálogo e uma resposta direta às reflexões mais persistentes do nosso momento presente! De qualquer forma, ainda pretendo revê-lo. Afinal, há muito a descobrir...

sábado, agosto 25, 2007

a prova dos nove

"If you sing when you're high and you're dry as a bone
Then you must realise that you're never alone
And you'll sing with the dead instead..."

terça-feira, agosto 21, 2007

under a blanket of blue

Recife está tão boazinha com suas chuvas, seu sucos de sabores exóticos, seus eventos fraternos, seus brigadeiros de ervas finas, seus cigarros, cafés e leituras noturnas, seus artigos e suas discussões foucaultianas ao telefone, suas madrugadas escrevendo, escrevendo, seu pó de guaraná e suas promessas, que eu até não me incomodo tanto com as outras coisas suspensas, esperando pra ver se vão acontecer... Que eu até penso que posso brincar de recém-chegado, achando que descobri como se inventa o cotidiano com as coisas que temos à mão...

terça-feira, agosto 14, 2007

a incitação aos discursos

“Desde o séc. XVIII o sexo não cessou de provocar uma espécie de erotismo discursivo generalizado. E tais discursos sobre o sexo não se multiplicaram fora do poder ou contra ele, porém lá onde ele se exercia e como meio para seu exercício; criaram-se em todo canto incitações a falar; em toda parte, dispositivos para ouvir e registrar, procedimentos para observar, interrogar e formular. Desenfurnam-no e obrigam-no a uma existência discursiva. Do singular imperativo, que impõe a cada um fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aos múltiplos mecanismos que, na ordem da economia, da pedagogia, da medicina e da justiça incitam, extraem, organizam e institucionalizam o discurso do sexo, foi imensa a prolixidade que nossa civilização exigiu e organizou. Talvez nenhum outro tipo de sociedade jamais tenha acumulado, e num período histórico relativamente tão curto, uma tal quantidade de discurso sobre o sexo. Pode ser, muito bem, que falemos mais dele do que de qualquer outra coisa: obstinamo-nos nessa tarefa; convencemo-nos por um estranho escrúpulo de que dele não falamos nunca o suficiente, de que somos demasiado tímidos e medrosos, que escondemos a deslumbrante evidência, por inércia e submissão, de que o essencial sempre nos escapa e ainda é preciso partir à sua procura. No que diz respeito ao sexo, a mais inexaurível e impaciente das sociedades talvez seja a nossa”.

Trecho de A história da sexualidade I: A vontade de saber, de Michel Foucault