segunda-feira, março 16, 2009

notícias do sétimo andar

La mujer sin cabeza foi reexibido aqui no último dia 11 como parte de uma mostra chamada Perspectiva M, realizada em comemoração ao dia da mulher. Foi o único que eu pude ver, e ainda assim saímos debaixo de uma chuva torrencial que me fez querer jogar no lixo os meus sapatos. O tempo instável finalmente se encaminha para um frio crescente e já penso em providenciar roupas mais quentes – até então, porém, apenas penso, ainda indeciso em relação ao que comprar. Sin problemas, todavía hay tiempo.


La mujer sin cabeza, de Lucrecia Martel.

No dia anterior pudemos ver uma apresentação de jazz na Casa de la Cultura: Alejandro Manzoni Trío. Aos poucos vou me encaixando nesses circuitos, onde posso conhecer melhor as coisas daqui e ao mesmo tempo suprir a vontade de participar desse tipo de atividades que costumo frequentar em Recife.

Por falar em hábitos recifenses, no sábado à noite conseguimos pela primeira vez fechar um bar. Depois que todas as mesas haviam sido devidamente recolhidas, o dono do La Resistencia veio fazer a pergunta que, longe de nos constranger, deixou-nos radiantes. Perguntou se queríamos copos de plástico para colocar nossas cervejas, e nesse momento percebemos que a noite finalmente acabava antes da nossa energia. Para lograr tal êxito, foi preciso conhecer os modos da cidade e adaptar-se a ela. Vimos séries na televisão, dormimos um pouco, tomamos banho, trocamos de roupa e saímos por volta das duas da manhã, que afinal, descobrimos, é quando a noite começa a acontecer por aqui. Primeiro umas voltas pelas ruas próximas: Defensa, Plaza Dorrego, Bolívar, Estados Unidos. Depois a escolha: Guebara, na rua Humberto Primo, até agora a maior preciosidade que encontramos. (Tem sido assim: toda semana conhecemos o nosso bar predileto. Primeiro foi o Puerta Roja, sugestão de Bel; depois o La Resistencia, na Defensa; agora o Guebara. Semana que vem provavelmente encontraremos outro lugar e teremos a certeza de que ele será aquele para o qual voltaremos todos os fins de semana).

Se ainda não disse, digo agora: finalmente encontramos um apartamento. Muito bem localizado na Av. Independencia, entre a Defensa e a Paseo Colón. Apenas um pouco acima do orçamento e sem a cobrança infame da comissão imobiliária, este nos pareceu viável. Mudamos no dia seguinte e aqui estamos, bem mais pobres e felizes, podendo dormir à vontade e ler com um pouco de paz. Enfim, algo assim como uma casa. Até já recebemos visitas. Com esse upgrade na nossa temporada argentina, estamos conseguindo aos poucos estabelecer uma rotina incipiente: cozinhamos, fumamos, bebemos vinho e ainda arranjamos tempo para ficar estarrecidos com os detalhes bizarros de parte da programação local. Outro dia um programa patrocinado por uma casa de eventos transmitia uma festa de quinze anos que era de uma cafonice sem igual nesse mundo. As novelas brasileiras também marcam presença: Lazos de familia e El rey del ganado. Dubladas em espanhol, por suspuesto.

Os sons daqui vão chegando aos poucos: ontem ouvi uma música no supermercado e já descobri os nomes da banda e da música (só falta conseguir baixar). Fora isso, ir a uma apresentação da Pequeña Orquesta Reincidentes está entre as atividades impossíveis que eu gostaria de realizar antes de ir embora (e que parece tão improvável quanto o privilégio de ver alguma conferência de Beatriz Sarlo, que nem sei se continua participando de conferências ou mesmo se ainda mora por aqui). Por enquanto me resigno à trilha sonora inusitada que tem marcado essa viagem. Músicas tão incidentais quanto Build, do Housemartins (aquela maravilhosa de motel, bem anos 80); The tide is high, do Blondie; e ainda os Beatles, que nos pegaram de jeito depois da terceira cerveja de um litro consumida na noite, pouco antes de sermos expulsos do La resistencia. Oportunidade para se admirar: "caramba, eu tinha me esquecido de como eu gosto dos Beatles..." É isso: fala-se tanto em tango, milonga, e a gente termina assim, strawberry fields forever.

quarta-feira, março 11, 2009

a melhor referência

Se antes eu já adorava os filmes de Martín Rejtman, agora que eu estou conhecendo Buenos Aires eu tenho achado ainda mais genial a forma como ele representa a cidade, suas figuras discretamente estranhas, seus lugares típicos. Está tudo ali: os paseadores de perros, o happy hour, as danceterias. Fico até preocupado com o peso dessa influência na minha percepção: onde todo mundo assinala uma certa aura romântica, charmosa e cordial eu vejo estranheza, humor absurdo e uma leve decadência.

As falas maravilhosas de seus personagens têm sido referências midiáticas onipresentes. (Eu ainda vou sentar na barra de um bar e pedir, em um fim de tarde, com cara de moribundo: cuatro whiskies!).



Felizes na danceteria, em Los guantes mágicos.


Indo e vindo de Ezeiza em Los guantes mágicos.


Os absurdos restaurantes chinos em Silvia Prieto.

terça-feira, março 10, 2009

god bless china

Ok, já que falaram tanto, aí vai um post sobre comida. Ontem finalmente pude conhecer um tenedor libre - restaurante do tipo all you can eat bem marcante pelos lados de cá. Estava ansioso. Afinal, aqui em Buenos Aires há muitas comidas interessantes, sobretudo a parrilla - de fato, carne é a grande especialidade porteña, geralmente é deliciosa - mas variedade é uma coisa que parece não existir por aqui. Pede-se uma carne e o máximo que vem é um acompanhamento: purê ou papas fritas ou arroz. E nada mais.

Para um brasileiro - ou melhor, um nordestino, ou melhor, um cearense - isso é de uma pobreza ímpar. Fico só lembrando das minhas idas a João da Carne de Sol, onde uma carne sempre vinha acompanhada por arroz, feijão, purê, macaxeira frita, vinagrete, paçoca, creme de queijo... Procurei os tais tenedores libres com a esperança de finalmente comer de forma cavalar, provando um pouquinho de cada coisa. Já estava até lembrando saudoso daqueles self services brasileiros maravilhosos onde você pode misturar de maneira absolutamente não-sofisticada uma feijoada com uma porção de camarão e outra de sushi.

Bom, minha surpresa é que esse tipo de lugar aqui parece ser uma típica invenção chinesa. Todos os que encontrei ontem na minha busca eram restaurantes chinos. Outra coisa é que a comida é terrivelmente mal preparada nesses estabelecimentos e as sobremesas, bom, para essas eu imaginei uma brincadeira: vendar os olhos, embaralhá-las e depois tentar adivinhar pelo paladar cada uma delas. Aposto que seria uma missão impossível. Ainda assim, saí de lá feliz pelo simples fato de poder comer salada com rolinho primavera e churrasco e macarrão e...

Reconheço que o nome desse post poderia ser atestado de pobreza. Mas para um magrelo como eu poucas coisas são tão importantes quanto a sensacão de saciedade, de estar bem nutrido. E aqui a carência de alguns alimentos que adoro é absurda. A pobreza dos sucos, por exemplo: sempre o exprimido de naranja ou uns licuados de banana ou pêssego que ainda não tive coragem de provar. Que saudade do Gelatto´s, aquele mixta da casa que vem com banana, abacate, mamão, laranja e tantas outras coisas que nem lembro e que fazem a gente achar que vai explodir depois que bebe. Agora eu acredito quando os nutricionistas dizem que a alimentação brasileira é exemplar: por enquanto tem me parecido impossível fazer uma refeicão fora daí que contenha vegetais, cereais, carboidratos e proteínas. É sempre uma coisa de cada vez, em porções generosas porém solitárias.

Bom, ao final dessa viagem talvez eu deva escrever um guia de sobrevivência para cafuçus em Buenos Aires. Refinamento gastronômico não é muito o meu forte.

Atualizaçao 11/03: Encontrei um lugar ótimo no Centro chamado Granix, que fica em uma galeria logo no comecinho da Calle Florida. Um buffet só com comidas vegetarianas deliciosas, saudáveis, variadas e fresquinhas. Como nada é perfeito na vida, o negócio é caro. O site que eu usei pra encontrar essa maravilha foi o happy cow.

domingo, março 08, 2009

bem-vindos ao deserto do real

Aluguel temporário de apartamentos definitivamente é coisa para turista gringo. Os preços estão sempre em dólar e as imobiliárias têm exigido uma comissão abusiva que corresponde ao valor de um mês de aluguel. A coisa fica assim inviável: vivemos três meses aqui e pagamos quatro, mais um depósito também no valor de um mês de aluguel que serve como garantia contra qualquer dano causado à propriedade e que será supostamente devolvido ao final. É desse modo que qualquer vislumbre do que seria uma boa oportunidade acaba tão logo a gente senta a bunda na cadeira das corretoras.

Nas andanças, conhecemos uma senhora estranha chamada Lida que apresenta nuances e variações no humor que me deixam perplexo e a fazem parecer um ser quase lynchiano. Nas duas vezes em que estivemos em seu escritório, dirigiu-se a nós de forma muito amável, conversou muito, falou dos filhos que vivem no Brasil, esforçou-se - junto com seu funcionário bonachão e também meio absurdo, Pancho - para encaixar-nos em alguma boa oferta. Empenhou-se, enfim, em demonstrar uma compaixão para com a nossa situação peregrina e ansiosa. Não obstante, tão logo visitamos os apartamentos e demonstramos interesse pelos mesmos, Lida revelou-se uma negociadora voraz, expondo condições, desfiando cálculos e tomando nota de nomes e dados relativos a documentos com a clara intenção de começar a redigir contratos. Desatou a falar em datas e mesmo em depósitos de reserva com uma velocidade inadmissível. Como não somos (tão) bestas, nas duas ocasiões tivemos tempo de ensaiar uns cálculos em meio ao falatório todo e perceber a inviabilidade da operação para o nosso orçamento.

Com a nossa recusa, declinando da operação, nas duas vezes a fala de Lida subitamente se transmutou, assumindo um traço exagerado de acidez e de abuso no seu tom de voz supostamente maternal, enquanto ela nos dizia, vingativa como uma matriarca que se ressente pelo não-reconhecimento dos seus esforços, que fazia tudo que era possível e que nós é que diríamos se seria suficiente ou não. Depois da fala agressiva, em uma segunda mudança repentina de tom ela se despediu e nos convidou a voltar, colocou-se à disposiçao e nos deu um beijo "afetuoso" enquanto nos dirigíamos à saída para recomeçar - do zero - a nossa busca. Embaixo do tampão de vidro de sua mesa, pudemos ver por diversas vezes o recorte de um quadrinho de jornal onde o personagem dizia: "la realidad no es responsable por la pérdida de sus ilusiones". Lida, afinal, tem um senso de humor sutilmente perverso e sentencioso, um comportamento que me pareceu tão opaco e ambivalente quanto tudo mais o que tenho visto por aqui.

quarta-feira, março 04, 2009

os primeiros percursos

Parece que já faz um mês que estou por aqui. O choque inicial foi enorme: quando cheguei no lugar onde havíamos feito reservas para os primeiros quatro dias na cidade - um hostel que fica na Calle Viamonte, pertinho do obelisco da 9 de Julio - tive vontade de sair correndo. Um lugar claustrofóbico e sem o menor charme. Desde então, Sabrina e eu já começamos a desenvolver aquela que tem sido uma estratégia essencial para a nossa viagem: beber à noite para aliviar o peso e o cansaço, processar as informaçoes e experiências vividas ao longo do dia. Na primeira noite, três quilmes fizeram o mundo parecer lindo e nos colocou falando da vida, da viagem, de tudo.

Acho que até agora não tivemos um minuto sequer de turistagem despreocupada. Milhoes de coisas para resolver que, somadas à nossa ansiedade e à preocupacão de ter que encontrar solucoes para economizar o dinheiro escasso tem nos levado a andar feito loucos pela cidade. Andamos muito, mas MUITO mesmo. A dinâmica é mais ou menos essa: passamos o dia percorrendo a cidade, depois bebemos um vinho e quando chegamos em casa detonados, fazemos um macarrão e depois desabamos na cama (quer dizer, eu desabo, porque Sabrina tem tido a insônia de sempre). Uma coisa é certa: voltarei para Recife com corpinho de maratonista queniano.

Bom, claro que conhecemos algumas coisas: fomos ao Caminito em La boca e planejamos voltar em breve, com mais calma. É um lugar absurdamente colorido, adorável e cheio de souvenirs que eu quis comprar aos montes, mas me controlei - adiar a compra é uma regra básica pra fazer o dinheiro render e evitar gastos desnecessários. Andamos também pela Recoleta, mas não tivemos paciência para ver o cemitério, apenas uma passada rápida. Nas nossas andanças chegamos também, quase por acaso, à Plaza de Mayo, vimos a Casa Rosada. Ok, esse foi o momento turistagem, mas tudo permeado pela pressa de ter que tomar as primeiras e urgentes providências.

Ah, no sábado à noite fomos para o que já sabíamos, desde o início, seria uma roubada, mas topamos porque somos pessoas destemidas e não recusamos nada que seja de graça. Ganhamos do hostel do centro, assim que fizemos o check in, duas entradas para uma boate em Palermo. Dito de forma simples, parecia a coisa mais medonha do mundo: um monte de boyzinho e boyzinha dançando músicas que fizeram a Quinta Black do Downtown chorar de inveja. Era só Beyoncé, Usher... Ainda assim nos divertimos, dançamos um pouco e falamos mal de todo mundo que víamos, inclusive com apelidos. Uma moçoila eu apelidei de menina de ouro - nao lembro bem o motivo, talvez porque me lembrou Hilary Swank e também porque, como dançarina, ela é uma ótima boxeadora. Palermo no entanto pareceu um bairro que merece ser desvendado, voltaremos lá em breve.

Depois dos primeiros dias que giraram em torno da hospedagem traumática e do medo de nos tornarmos homeless, finalmente viemos para o bairro que, já percebemos, será o nosso território aqui em Buenos Aires. San Telmo, o lugar onde as ruas são lindas, as pessoas interessantes, a comida bem mais barata e saborosa do que no centro e, por fim, os bares mais a nossa cara. No entanto, viemos para outro hostel, porque alugar um apartamento está sendo um martírio. Começo mesmo a achar impossível se não acharmos com quem dividir, ao menos pelo preço que podemos pagar. Mas isso é assunto para um outro post.

domingo, março 01, 2009

rumo ao kibbutz

Eu lembro sempre, agora, de uma pessoa muito especial que me relatou uma vez que, pensando em como poderia me conduzir a um determinado objetivo, uma tarefa a realizar - indicando pistas, rumos a seguir - viu-se tomada por uma súbita preocupação: seria eu capaz de chegar até o meu destino, objetivo final do percurso? Lembrou-se então, para seu alívio, de que bastava soltar um balão e - esperava-se - ele chegaria ao seu destino, sempre subindo, subindo...

Na madrugada desta sexta-feira fui tomado por um sintoma que pareceria (em qualquer outra situação) exagerado, fora de medida. Uma ânsia de vômito, uma dor na boca do estômago, uma pontada que não cessava. Algo próximo àquilo a que Nelly Richard certa vez chamou de desorden somático e que, neste caso, não era nada menos que a resposta de um corpo sedentário subitamente estremecido por uma cabeça nômade que lhe havia imposto a necessidade de mover-se rumo ao desconhecido, ao total desconforto - por desejo, por vontade de mudar -, e que respondia a este violento impulso com as consequências orgânicas de tal incômodo.

Minha viagem não foi nem um pouco agradável - considerando-se a noção adquirida de que minhas escolhas afetavam aqueles mais próximos e despertavam fantasmas, e de como elas careciam de bases sólidas (mas não carecem, sempre, quando sao verdadeiramente transformadoras?). É inconsistente e provisória, a jornada. É aventureira, súbita. É simples, mas ao mesmo tempo custa muito, exige decisão e - porque aqui nao cabem falsas modéstias - demanda certa coragem.

Durante os próximos tempos - talvez um mês, ou mesmo um semestre, não posso prever agora - este blog se transmite desde Buenos Aires. Uma aventura, uma aposta - uma besteira, sem dúvida. Uma vontade de mudar, porque assim eu vou subindo, subindo, voando, voando - rumo a tudo aquilo que desejo.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

minha vida sem computador

Nas lições de administração a gente aprende (ou melhor, é obrigado a ouvir) alguns truques empresariais, repetidos à exaustão por professores que fazem de conta que isso é um segredo capaz de fazer toda a diferença em qualquer negócio. Um case famoso diz que as cadeiras das redes de fast food são propositalmente desconfortáveis. Com isso, garante-se a alta rotatividade, impedindo que adolescentes-ratos-de-shopping permaneçam nas dependências do estabelecimento batendo papo, sem consumir.

Daí fico me perguntando quem foi o primeiro iluminado que decidiu transferir esse princípio para as lan houses. Sim, porque com o desconforto, o barulho ensurdecedor, as crianças gritando, o teclado travando, a iluminação precária e a dor de cabeça quase instantânea, é impossível que essa ambiência infernal não tenha sido propositamente planejada para atribuir um caráter fast ao uso das máquinas.

Porém, sendo a internet um recurso altamente viciante onde uma coisa leva à outra e que pagamos de acordo com o tempo de uso, fico me perguntando porque sou tão hostilizado a ponto de se tornar quase impossível escrever algo pra atualizar o blog. Já pensando em como farei pra me comunicar com o mundo quando estiver novamente fora de Recife - e sem dinheiro pra comprar um laptop - desisto de entender a lógica dos negócios informais com a internet. Mas tudo bem, eu nunca tive sensibilidade empreendedora mesmo...

Resta apenas uma pergunta: como serão as lan houses en La boca?

terça-feira, janeiro 27, 2009

run fay run

O ano mal começou, mas eu já tô vendo que vou precisar de uma determinação, assim, kill bill pra sair dele inteiro.

sábado, janeiro 24, 2009

errâncias

"Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio. A errância, multiplicada e reunida pela cidade, faz dela uma imensa experiência social da privação de lugar - uma experiência, é verdade, esfarelada em deportações inumeráveis e ínfimas (deslocamentos e caminhadas), compensada pelas relações e os cruzamentos desses êxodos que se entrelaçam, criando um tecido urbano, e posta sob o signo do que deveria ser, enfim, o lugar, mas é apenas um nome, a Cidade. A identidade fornecida por esse lugar é tanto mais simbólica (nomeada) quanto, malgrado a desigualdade dos títulos e das rendas entre habitantes da cidade, existe somente um pulular de passantes, uma rede de estadas tomadas de empréstimo por uma circulação, uma agitação através das aparências do próprio, um universo de locações frequentadas por um não-lugar ou por lugares sonhados".

Michel de Certeau, A invenção do cotidiano v.01.

domingo, janeiro 18, 2009

transtorno noturno

Hoje, pouco antes de despertar, tive um sonho curioso. Eu que nunca usei lentes e sequer sei bem que consistência têm me vi às voltas com um par delas nos olhos, e subitamente me dava conta de que havia estado com elas durante todo o tempo – do sono, da noite ou dos acontecimentos elaborados no sonho (e que pertenciam a uma outra temporalidade, talvez dias), não sei. Sei que toda irritação e estranhamento vinham do fato de que eu nunca tive nem o costume, nem a habilidade ou o conhecimento dos procedimentos necessários para o seu uso.

A primeira delas eu tirava de forma um pouco espantada, depois de tropeçar em muitos obstáculos sob meus pés meio descontrolados. A outra eu descobria grudada ao meu olho direito e sabia que precisava de algum líquido especial, que não possuía em mãos, para removê-la. O desespero ficava maior à medida que aquele objeto estranho ao meu corpo ia se mostrando mais e mais cravado, denunciando uma presença alheia a mim, marca de uma adesão tão minúscula quanto persistente. A situação que só piorava finalmente se resolveu quando, com movimentos já bastante agressivos, ataquei meus olhos com um grande jato d’água que sei lá de onde veio.

Essa imagem meio simplória eu supus que fosse esmaecendo ao longo do dia, perdendo importância até fugir da memória, como geralmente são os sonhos que, no instante em que despertamos, parecem muito graves e depois se revelam uma tolice. Mas a imagem não sumiu e depois de um tempo começou a me parecer bastante significativa: o sinal de um incômodo que, aparentemente banal, impõe-se e me desestabiliza com um transtorno que é imperceptível aos olhos desobstruídos dos demais.

Só sei que acordei com uma irritação terrível nos olhos.

sábado, janeiro 17, 2009

domingo, janeiro 11, 2009

uma referência

O professor Idelber Avelar está fazendo uma notável cobertura dos ataques israelenses à faixa de Gaza em seu blog, o biscoito fino e a massa. O material é extenso, repleto de referências importantes, citações, análises, comentários... Tudo pró-Palestina, obviamente. Inclusive, ele dedica boa parte do espaço para descascar os usos absurdos de recursos como a fala "ponderada".

Além disso, Idelber ataca o uso de alguns termos que, na melhor das hipóteses, seriam completamente inapropriados para discutir a questão (e digo na melhor das hipóteses porque, no fim das contas, isso cheira mais a puro cinismo que a mero equívoco). É o caso, por exemplo, das menções a um suposto "conflito" na região e também da despropositada distinção entre "civis" e "militares" no que se refere às vítimas palestinas. (Afinal, como falar em militares "numa nação que não tem estado"?)

Com essa loucura toda que envolve terminar uma dissertação, eu ainda não tive tempo para dar a devida atenção a todo o material por ele reunido, incluindo-se aí todos os links que constituem um material precioso para aqueles que queiram aprofundar a discussão sobre o tema. Desde já, no entanto, destaco, além das postagens anteriormente citadas, a rede que ele estabelece com blogueiros e usuários palestinos do facebook, que trazem uma perspectiva completamente diferente daquela a que teríamos acesso pelos noticiários.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

o milagre da criação, bem ali na cozinha...

Aqui em casa agora existe um pé de inhame. Começou tudo assim de forma muito despretensiosa: abandonaram um inhame enorme ali na mesa da cozinha e dele começou a brotar uma mudinha, justamente quando as pessoas daqui viajaram pra passar o início de janeiro em outra cidade. No começo eu ignorei, afinal, não é a primeira comida que tenta virar planta por aqui – na geladeira tem sido frequentes os casos desse tipo, embora o apodrecimento ainda seja o destino mais comum para os vegetais não consumidos. Aí ela foi crescendo, crescendo, e eu também fui começando a frequentar mais a cozinha, porque a minha dieta de lasanhas congeladas – estilo super size me sadia – começou a tornar-se inviável.

Foi assim que um dia, enquanto improvisava uma coisinha ou outra – leia-se, sanduíche ou cuscuz - olhei pra mesa e eis que já se erguia diante de mim uma pequena haste verde e tesa, galgando centímetros em direção à prancha dos enlatados que fica pouco mais de um metro acima da mesa. O mais estranho é que eu comecei a nutrir um estranho sentimento em relação àquela pequena estrutura vegetal: ela me incomodava profundamente. Não sei por que comecei a associá-la a alguma presença maligna. Pior ainda: não sei em que background, lenda urbana, historinha do passado ou elemento da cultura midiática meu inconsciente se baseou para estabelecer tal associação, mas o fato é que o pezinho de inhame quase me botou medo.

Talvez tenha sido porque eu estivesse sozinho, ou porque o meu humor não vinha sendo dos mais favoráveis, mas aquela presença rígida cortando o espaço da cozinha e, o que é mais assustador (tudo bem, não é assustador, mas na ocasião me pareceu...), denunciando um crescimento admirável e surpreendente, me deixou tão desconfiado que houve um instante em que eu quase peguei uma faca pra acabar logo com a história toda. Mas fui adiando, adiando, porque eu gosto de procrastinar, porque me deu pena e também porque achei que seria uma gracinha infame esperar que minha irmã e meu cunhado voltassem e se deparassem com a comida virando floresta em cima da mesa.

O negócio é que a plantinha do satanás deve ser mesmo irresistível, ou então, todos os moradores dessa casa irremediavelmente desprovidos de iniciativa, porque a situação só piora: ninguém come o inhame, ninguém o joga no lixo e a muda já cresce frondosa e cheia de vigor. Não demora muito e ela vai estar se enroscando pelo açucareiro, pela garrafa do café... Daí eu fico imaginando uma espécie de sitcom norte-americana em que as pessoas passam pela cozinha com uma expressão abusada, pegam uma cerveja na geladeira, vão e voltam da área de serviço desfilando com uma cueca meio frouxa, olham pra mesa com cara de preguiça (claque em momento inapropriado) e por fim voltam para a sala pra curtir um pouco mais de preguiça no sofá.

p.s. Fui informado de que o inhame não está mais em condições de ser comido, e no entanto ele permanece lá, misteriosamente intocado. Já começo a pensar em possíveis nomes, para o caso de que ele se torne uma espécie de tubérculo de estimação.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

pra essa passagem

Eu tomo, meio descontextualizado, o intertítulo de uma das coisas que ando lendo...

"Uma utopia: não esquecer nada."

quinta-feira, dezembro 25, 2008

nota raivosa

Hoje eu tô odiando em atacado.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

mais uma vez, finais

É que o natal pra mim, como para muitas outras pessoas que eu conheço, nunca foi o que se poderia chamar de uma data adorável. No entanto, eu também nunca fui do tipo que fica reclamando, sentindo-se excessivamente incomodado, simplesmente porque nunca houve motivo para tanto. Mais que isso, a ocasião me parece o momento em que estão em jogo as convenções mesmas com que se marca a passagem do tempo e as relações familiares.

A simbologia natalina surge como um elemento que se soma ao acúmulo de indícios de um final de ciclo que culmina no reveillon. Sim, porque se não sou religioso, mantenho minha crença no calendário cristão-ocidental e penso a minha vida em anos, embora esses anos nem sempre terminem em 31 de dezembro e comecem no dia 01 de janeiro. (O ano passado, por exemplo, começou em março, e o meu 2008, tal como o vivi até então, suspeito que tenha terminado no dia 29 de novembro, quando a pós teve um churrasco de confraternização que me pareceu também de despedida e Lavínia fez, no mesmo dia, o que anunciou como a última – pelo menos por enquanto – das muitas e já célebres farras no seu apartamento).

De repente é isso que está em jogo nesse natal: uma série de despedidas, últimas vezes, conclusões e também de mudanças significativas nos termos em que os afetos e as amizades são vividos e sonhados cotidianamente. Série que, em contrapartida, não viu ainda o anúncio de nenhuma estréia – embora os mais otimistas não percam tempo em lembrar que estaríamos sempre começando.

Mas é a necessidade de inventar estes tais começos aquilo em que eu sempre acreditei. É a sua natureza inventada – e, como tal, nem um pouco espontânea – o que fica mais claro justamente durante esses tais períodos festivos. Indo mais longe, é na própria necessidade de construir climas, arquitetar humores e contextos propícios para inspirar a invenção de planos e mudanças que eu de fato acredito. Os mais empolgadinhos podem não entender, mas é que eu não nasci com uma disposição inextinguível para a vida: ou eu me cobro essa procura por algo interessante, por uma motivação que ocupe minhas horas, ou eu começo a achar tudo irremediavelmente tedioso.

Em 2002, quando eu tinha começado a estagiar e, portanto, não podia viajar no natal, eu ficava em um momento drama ouvindo Joni Mitchell (“I wish I had a river I could skate away on...”) e achando ruim não poder visitar minha família. Acho que é porque eu me sentia ainda muito sozinho em Recife, na época, e a ceia em casa foi a minha melhor fantasia de compreensão e acolhimento perdidos cuja perda eu poderia lamentar. Hoje eu vejo que não me sensibilizam muito, afinal, essas pequenas ocasiões familiares. Um dia, provavelmente. Por enquanto, para além do ritual, o que me interessa é onde, com quem e em que circunstâncias eu estabeleço esse marco que é o fim e o início de qualquer coisa. Mais ainda, interessa-me que as circunstâncias sempre mudem, assim como as pessoas, os lugares. Se em algum momento a gente sempre precisa estabelecer cegamente um valor capaz de reger nossas escolhas, há tempos eu já optei pela mobilidade: pra não criar lodo e talvez porque, como está todo mundo sempre passando, saindo, chegando, antecipar um movimento é sempre uma forma de não ficar para trás.

Essa fantasia de passagem e esse modo de vida precário, mesmo quando o dia-a-dia denuncia certa fixidez e conforto, são a recorrência de um clima propício, um humor inventado, uma subjetividade mais que um conjunto de ações concretas, uma iminência de partir, uma forma transitória de perceber os encontros e transformar isso em afeto (“I drew a map of Canadá, Oh Canadá!, With your face sketched on it twice...”), história que se conta e, ao ser contada, ganha sentido.


Para ouvir (Isso de postar músicas aprendi com Aninha :p):



quinta-feira, dezembro 11, 2008

sexta-feira, dezembro 05, 2008

diretrizes acadêmicas

Tendo em vista o clima de desespero que se instaurou nesse início de dezembro – quando a ficha caiu e alguns de nós subitamente nos demos conta do volume de trabalhos relacionados à dissertação ainda pendentes e também do aperto no que se refere aos prazos – eu resolvi criar um guia de referência, tratando de como disciplinar o tempo e racionalizar as atividades ao longo dos próximos 45 dias. O intuito é encarar uma única e imensa dúvida: como criar um clima intimista e propício ao estudo, mesmo em época de festividades?


Coisas a evitar:

- Msn (de preferência acessá-lo apenas uma vez ao dia, por tempo limitado e em horário a combinar);

- Música eletrônica, ou melhor, qualquer música que seja dançante, muito alegre ou excessivamente triste;

- Prévias de carnaval;

- Sessões concorridas na Fundaj (priorizar segundas exibições);

- Saídas única e exclusivamente com o intuito de encher a cara;

- Amigos que estejam no clima "beber, cair e levantar";

- Pessoas excessivamente indóceis – sobretudo quando já se é naturalmente indócil – e também pessoas muito dúbias, já que estas demandam de nós um longo tempo para pensarmos sobre quais seriam as suas reais intenções;

- Fazer a social (i.e. Central).


Coisas recomendáveis:

- E-mails, que sempre trazem notícias sobre o mundo exterior e sobre os procedimentos do programa de pós-graduação (embora por eles também costumem chegar muitos convites e avisos de festas);

- Música erudita e também jazz, sobretudo o contemporâneo, ou, de um modo geral, músicas sem vocais que possam ser ouvidas enquanto se escreve;

- Filmes, como sempre, e em especial os de Godard, Bergman ou os antigos de Woody Allen (filmes de Tarantino, por sua vez, são desaconselháveis, assim como os muito românticos, i.e. Wong Kar-Wai, ou aqueles típicos filmes de jovens curtindo a vida livremente e sem amarras);

- Conversas com Mari - ao telefone ou pessoalmente, e se possível uma vez ao dia - para colher suas orientações indispensáveis sobre métodos de estudo;

- A favorita, porque ninguém é de ferro.


Além desses pontos básicos, acrescento que na geladeira deve haver comidas prontas e rápidas (já que períodos de estudo intensivo costumam ser, pelo menos para mim, momentos de emagrecimento vertiginoso), mas nunca, sob hipótese alguma, devem ser mantidas cervejas em estoque, pois são um palitavo fácil e perigoso para os momentos de solidão e crise criativa.

Nas perambulações urbanas inevitáveis, feitas para espairecer, devem-se evitar as ruas mais animadas, assim como qualquer contato visual com focos de alegria simples e descomprometida, como os espetinhos de Afogados ou os bares da Boa Vista na sexta à noite. A propósito, está terminantemente proibido passar por Afogados ou pela Boa Vista nas sextas à noite. A visão de pessoas simples em surtos de diversão eufórica e barata pode levantar dúvidas acerca do real sentido da existência, dúvidas estas que são muito improdutivas para quem precisa escrever um trabalho acadêmico. Afinal, sempre se pode terminar achando que a teoria não serve para nada, que o ser humano precisa de muito pouco para se sentir bem e que a felicidade verdadeira está em um aglomerado de barracas de espetinho, isopores de cerveja e carrinhos de cd pirata.

O uso do chá preto e do café é recomendado. Quanto ao cigarro, deve-se recorrer ao mesmo em doses terapêuticas, apenas em casos de extrema necessidade, angústia, ansiedade acadêmica ou depressão crônica. O ideal é procurar seguir a antiga resolução: não fumar em casa, apenas na rua.

E se até então ficamos no nível das recomendações moderadas, algumas outras coisas, por sua vez, estão expressamente proibidas até o fim desse período conturbado.


Proibições radicais:

- Youtube: todas as indicações, sugestões de vídeos, etc, serão devidamente acrescentadas à lista de favoritos e vistas somente depois da segunda quinzena de janeiro;

- In rainbows, do Radiohead: a melancolia que esse cd alimenta é altamente improdutiva, principalmente no que se refere aos B-sides;

- Discutir problemas e assuntos de terceiros com quartos e quintos: porque, ao menos teoricamente, pessoas ocupadas e com prazos vencendo não têm tempo para dar conta da vida alheia;

- Inventar posts muito longos, como este, ou que exijam qualquer tipo de elaboração. A geração de caracteres é preciosa e deve estar totalmente direcionada para fins de produtividade acadêmica. Mentalizar a quantidade de laudas a escrever serve como recurso para desencorajar rompantes criativos canalizados para lugares indevidos, como este blog.


Por fim, informo que as listas e recomendações serão constante- mente atualizadas e adaptadas, à medida que eu for lembrando novos itens a serem discutidos e possa testar, na prática, quais proibições funcionam e quais são puro delírio. As resoluções, claro, passam a valer imediatamente após a sua publicação.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

o efeito Katrina


“– O que acontece – disse a Maga, remexendo o leite que estava sobre o fogão – é que a felicidade só pertence a uma pessoa e, em contrapartida, a desgraça parece ser de todos.”

O jogo da amarelinha


É sempre assim. Aconteceu de novo - dessa vez não tão longe, foi logo ali no sul do país - mas foi o suficiente para lembrarmos que toda segurança com que nos cercamos é pouca e pode esvair-se rápido, e que as necessidades podem ser bruscamente redimensionadas pelo advento de novas circunstâncias. A noção de catástrofe, nesse sentido, pode não ser tangível e generalizada, mas instalar-se em formas bem pessoais e subjetivas de perceber os estragos.

De minha parte, olhando para trás eu acho até bastante admirável o fato de que tudo tenha dado mais certo do que eu poderia supor. De um jeito ou de outro, cronologias, oportunidades e escolhas sempre se ajustaram em um timing certeiro que até hoje me livrou do desamparo. Não é recorrendo a um histórico, então, que eu conseguiria explicar a sensação de estar sempre na iminência de uma grande derrocada. Como se a tranqüilidade nunca fosse tranqüilidade de fato porque estaria corrompida desde a origem pela certeza de que o que se anuncia é um período subseqüente que seria o da grande falta. Como se eu nunca pudesse descansar do imperativo de me preparar para o que vai dar errado – sendo esse algo sempre o momento imediatamente posterior.

É essa eterna iminência de uma coisa sem nome - que, indefinida, seria no entanto a mais provável, a mais certa - aquilo que instaura em uma vida sem grandes sobressaltos a estranha lógica da futura vítima do desastre que, prevendo a devastação, tem que manter o olho na despensa, ao mesmo tempo em que prepara os ânimos para lidar com a passagem de uma vida normal, narrada pela lógica da acumulação, para o tempo da excepcionalidade, quando as necessidades são completamente redimensionadas pelas novas circunstâncias da crise.

Claro que me refiro aqui não tanto a uma questão material. Mais precisamente, é como se o que estivesse em jogo fosse a dificuldade de combater um desagradável efeito dessa espera: as alegrias, vez por outra, vêm rasuradas por um tom melancólico que permeia o todo. Ela, a alegria, fadada a acabar, afastada para longe pela irrupção de um contexto desfavorável que viria logo em seguida. (Mas não se pode dizer isso de toda alegria? Fadada a acabar? Tomada como desmedida, no entanto, ela acaba sempre um pouco antes).

Se as conseqüências são sobretudo emocionais, não deixam no entanto de apresentar certas marcas concretas em elementos bastante específicos da rotina. Na roupa talvez esteja o exemplo mais claro disso: é notável que, mesmo fazendo visitas periódicas ao armário a fim de identificar roupas a serem doadas, eu jamais consiga me desfazer de algumas peças que eu mesmo consideraria inutilizáveis em qualquer circunstância normal. Isso porque as circunstâncias que irão surgir parecem sempre pouco mensuráveis, e o critério para definir o que serve e o que não serve, mera questão de contingência. Talvez aí seja possível encontrar, inclusive, uma pista para o hábito que muitas pessoas possuem de acumular coisas “inúteis”; uma chave para entender a dificuldade em desfazer-se de objetos, utensílios e mesmo informações cuja razão de ser ali na nossa vida já não parece mais tão clara.

Tudo isso, evidentemente, é muito mais psicológico que factual, embora na incidência de um acontecimento concreto o pesar venha reforçado pelo fato de que cada mau momento alheio ou desordem coletiva são observados, mesmo que de longe, com boa dose de receio. Tal como esponjas, assimilamos – pela lógica cristã ou das probabilidades – a convicção de que ainda chegará a nossa vez. Estranha certeza, aparentemente infundada, que vem por sua vez alimentar uma postura controversa: diante da ameaça, valoriza-se não tanto o esforço para a preservação, mas o advento mesmo da destruição como princípio. (O que talvez possa ser dito de outra forma: uma insegurança cujo mal estar é acompanhado não de um esforço no sentido da estabilidade, mas de um impulso para afrouxar o punho e perder o pé).

A cautela seria, aí, não tanto precaução, mas adiamento. Contornando os fantasmas de furacões, ciclones e enchentes – a vertigem desse Katrina, daquele Mianmar devastado – levantam-se acampamentos transitórios, refúgios sem cúmplices para o desastre que é sempre postergado por uma nova convergência, pelo novo timing que vem deslocar para um tempo futuro a iminência da catástrofe.

terça-feira, novembro 25, 2008

"é uma cilada, bino!"

Fogueira que é fogueira tem dia e hora marcada.

quinta-feira, novembro 20, 2008

a palavra improferível

Há um acúmulo fenomenal de esboços de textos aqui, incluindo-se comentários sobre filmes que vão de Shortbus, que eu vi há uns dois meses, a Andarilho, que vi ontem. Mas quem se importa! Tudo vai acontecendo e eu fico tão indócil, pra usar uma palavra do léxico celestial - leia-se, de Renata Celeste – que mal consigo sentar pra articular algumas idéias. É sempre assim, e eu já estou acostumado. (Mentira, nem tanto). De qualquer modo, algumas notas eu não queria deixar passar. O resto, assim que tiver um pouco mais de paciência, retomo.

Refiro-me a um registro que pode soar piegas ou lacrimoso, mas que considero importante. Eu penso, de forma muito recorrente – e evocando um certo senso de sobrevivência que é atiçado pelos momentos de maior fragilidade – que algumas pessoas estão sempre buscando (ou inventando) uma forma de se salvarem. E é nesse sentido muito preciso que eu tomo aquela linha de Clarice tão exaustivamente repetida – como tudo dela, aliás, nesses tempos –, que define o ato de escrever como meio de “abençoar uma vida que não foi abençoada”.

O que mais me chama a atenção nessa passagem é menos o belo e conciso lugar que ela concede à escritura, mas a idéia mesma de que existem vidas que foram e continuam sendo, ao longo do tempo e em maior ou menor grau, malditas. Vidas pouco glorificáveis às quais não é dada nem ao menos a possibilidade de tornar nobres e eloqüentes os seus pequenos desalentos. E, mesmo tendo tanto apreço pelas imagens, reconheço que por vezes as formas da escrita - não apenas a grande literatura, mas até as mais pequenas notas - me parecem o melhor lugar para se digerir e ressignificar a feiúra de problemas pouco "estetizáveis". Não apenas a escrita, repito, mas toda construção de um universo próprio - ou constituição de um mundo, como diria Deleuze - que em algum sentido termina por exigir um recolhimento ou, mais precisamente, uma re-alocação (como um mover-se em direção a esse vão pouco discernível dos que não são benditos).

Mas se a escrita é o lugar possível para a palavra que não se diz em voz alta, que não se mistura nem se dilui – sendo o meio permeável à palavra grotesca, ridícula -, não é, porém, o único. Também a amizade aponta esse caminho não-messiânico da salvação onde o que está aquém ou além da aparência - mas sempre em disjuntiva em relação a esta - pode ser proferido com sinceridade e confiança. Para além de toda regra e para além de todo código de conduta ou gesto de rechaço ou intimidação do encoberto, a disposição absoluta de outra pessoa para ouvir e compreender nos resgata deste vão, e nessa terça-feira foi uma singela conversa de msn que, com humor e generosidade, ajudou-me a tornar ínfimo o que parecia – ou é, não sei ao certo - gigantesco.

Ainda existe quem torça o nariz e duvide da densidade destas formas de comunicação menos ortodoxas, mas nessa semana minha salvação – e uso a palavra tentando, por sua vez, salvá-la da grandiloqüência a que a condenaram - esteve não em um ato solitário, mas em um lugar compartilhado que tem a mesma virtualidade dos afetos, que não são sempre evidentes. Ela esteve na possibilidade de naturalizar/assimilar o ridículo inconfessável e assumi-lo como uma coisa, afinal, bastante simples. Algo assim como uma coisa da vida, mesmo.

terça-feira, novembro 11, 2008

observações impertinentes de viagem

Assim que eu cheguei aqui nos "alpes" - meu lugar de recolhimento e descanso no coração do nordeste -, o taxista que sempre me leva até a casa dos meus pais fez um par de comentários sobre os ânimos que pairam sobre a cidade. Primeiro é que o atual prefeito estava fazendo uma espécie de queima de estoque, vendendo tudo o que tinha para ser vendido na cidade antes de largar o osso, no próximo janeiro. Mas deixemos a política um pouco de lado, porque a outra observação foi bem mais desesperadora. Toinho - juro que esse é o nome do taxista, ou melhor, apelido, e nem adianta fugir da intimidade porque todo mundo chama ele assim e seria um despropósito ou uma petulância chegar dizendo "Olá, senhor Antônio" -, enfim, Toinho disse:

- Aqui quando é mais tarde tá fazendo um calor, mas um calor que a gente pensa que vai é incendiar o mundo.

Considerando-se que eram apenas seis e meia da manhã e o sol já estava queimando, eu não ousei duvidar. Em casa, minha mãe confirmou logo a informação: a temperatura estava lascando. O bom é que, se da última vez os mosquitos não davam trégua, desta vez eles tinham simplesmente desaparecido e o meu repelente não ia ser necessário. Sintam o drama: nem os mosquitos aguentaram o calor.

**

A viagem ainda nem terminou mas o auge de tudo foi mesmo o evento religioso do último domingo. Lá estava eu entre familiares e diante da foto do Ratzinger, acompanhando meio desconsolado toda a burocracia infernal que significa realizar o batizado de uma criança, cumprir esse rito ancestral da tradição cristã que, pelo sim ou pelo não, as pessoas vão mantendo.

(Só para constar, informo que os pais e padrinhos precisam ter um cartão, que atesta a realização de um tal curso de batizado - nem me peçam para entrar em detalhes (!) - e o preenchimento da papelada relacionada a esse curso é a apoteose de tudo, ritual muito mais extenso e mobilizador que o instante mesmo da agüinha na cabeça da criança).

Alternando-me entre as funções de padrinho e fotógrafo - nos meus malabarismos colocava a mão na fronte de Davi e era um flash, a madrinha trazia a vela acesa e era outro flash - no final ainda pude observar os detalhes menos eloqüentes do evento. O total pago à igreja foi de 22,00, estando aí incluída uma singela lembracinha no valor de 2,00. Esse dia foi pouco agitado, houve apenas três batizados (esqueci de dizer que a cerimônia é coletiva). Ao final, o padre chama o nome de duas crianças - Davi incluído - e entrega aos respectivos pais a lembrança. Quanto ao terceiro, nada. Não foi difícil concluir que o último casal não havia pago os dois reais correspondentes a esse pequeno atestado de cristandade, e não foi também sem certa melancolia que eu pude testemunhar essa discreta mesquinhez de uma instituição que, em seus maiores tons, já se mostra tão reprovável.

Acabou sendo tudo muito simbólico, essa divisão de títulos escritos em letras douradas sobre papéis de temas infantis, exemplificando em diminuto a orientação tão equivocada - financeiramente pautada - de uma instituição que se diz sensível aos que acolhe. Por reles dois reais, um tanto de ostentação e constrangimento. Minha mãe ainda se perguntou, contrariada, porque então não se preferiu ao menos entregar essa lembrança no momento mais reservado destinado à conferência dos papéis e documentos de cada casal de pais e padrinhos. Mas tinha que ser tudo assim, no meio da cerimônia, muito sutilmente exposto, afinal é exatamente disso que se trata a instituição católica: até nos mais pequenos detalhes, um infinito jogo de ostentação e constrangimento.