terça-feira, maio 27, 2008

recife, a tsunami brasileira

E hoje em Recife temos um bonito tempo, ideal para usar acessórios sintéticos, levar o cachorro para encharcar ou sair com as crianças para nadar no parquinho. Àqueles que apreciam atividades um pouco mais imprevisíveis e inusitadas recomenda-se experimentar a delícia de tomar uma condução no recém-inaugurado corredor leste-oeste da nossa cidade, enquanto os mais radicais podem se aventurar nas famosas corredeiras de lama da Mascarenhas de Moraes.

sexta-feira, maio 23, 2008

zZzzZzz

Esse sono ainda arrasa o meu projeto de vida.

segunda-feira, maio 19, 2008

o tempo deliqüescente

"À tarde, íamos ver os peixes do Quai de La Mégisserie, em março, o mês leopardo, ainda frio, mas já com um sol amarelo onde o vermelho entrava um pouco mais cada dia que passava. Da grade que dava para o rio, indiferentes aos bouquinistes que nada nos dariam sem dinheiro, esperávamos o momento em que veríamos os aquários (andávamos devagar, adiando o encontro), todos os aquários ao sol e, como suspensos no ar, centenas de peixes cor-de-rosa e negros, pássaros quietos em seu ar redondo. Éramos tomados por uma alegria absurda e você, Maga, cantava com vigor, arrastando-me para atravessar uma rua, para entrar no mundo dos peixes pendurados no ar.

Os aquários, grandes e pequenos, redondos e cúbicos, eram colocados na rua para atrair os curiosos. Entre os turistas e as crianças ansiosas, sem falar das senhoras que colecionavam variedades exóticas (550 fr. pièce), encontravam-se esses aquários, ao sol, verdadeiros cubos ou esferas de água que o sol misturava com o ar, e os pássaros cor-de-rosa e negros, girando e dançando docemente numa pequena porção de ar, lentos pássaros frios.

(...) E nós pensávamos nessa coisa incrível que havíamos lido, que um peixe sozinho no seu aquário se entristece e, então, basta colocar um espelho em frente do vidro e o peixe volta a ficar contente..."

O jogo da amarelinha, Julio Cortázar

quarta-feira, maio 14, 2008

um marco do incômodo

A ministra do meio ambiente, Marina Silva, entregou ontem formalmente seu pedido de demissão à Presidência da República. A triste coincidência é que ainda na semana passada eu notava o fato de que a ministra era uma das poucas que permaneciam à frente de seu cargo desde o início da primeira gestão de Lula, em 2003.

Na ocasião da primeira vitória de Lula como candidato à presidência, lembro a euforia que tomou conta de todos aqueles que, de algum modo, mesmo que timidamente, militaram em sua campanha. Eu, no auge do meu entusiasmo político, compartilhava com muitos a expectativa de ter um governo federal composto por muitas das figuras que admirávamos e que tinham se tornado referências por se destacarem como políticos que, de certo modo, pareciam compartilhar conosco muitas posturas – e por nós refiro-me aqui principalmente ao meio estudantil, ponto a partir de onde vivenciei tudo na época. Era animador, por exemplo, ter figuras como a de Cristóvam Buarque - que em 2002 participou da abertura da Estatuinte da UPE e que tão bem havia falado, na ocasião, das ansiedades e desejos da comunidade acadêmica – no Ministério da Educação. Enfim, essa figura que, na ocasião da estatuinte, falava conosco contra eles, iria agora estar lá – ou pelo menos foi assim que eu, ingenuamente, recebi a divulgação desse e de muitos outros nomes que iriam compor os ministérios.

Sem dúvida, no auge da “esperança”, quase tudo aparecia como indício de que uma oportunidade histórica de fato se confirmava. E ao lado desses nomes, muitos já conhecidos, foi a figura de Marina Silva quem melhor personificou para mim esse entusiasmo. Ex-seringueira, alfabetizou-se no Mobral, fez supletivo e entrou para a Universidade Federal do Acre, onde cursou história. Aproximou-se do marxismo e, engajada em movimentos políticos na região norte, onde lutou ao lado de Chico Mendes pela defesa da Amazônia, participou da fundação do PT e da CUT, na década de 80. A idéia de uma figura com tal trajetória ocupando uma pasta onde poderia conjugar sua postura combativa com um poder capaz de propiciar, de fato, uma intervenção sólida e decisiva nas questões pelas quais militava, era o que melhor indicava que a gestão nascente de Lula teria uma cara radicalmente diferente da anterior. E no caso de Marina Silva, pelo menos, as expectativas se confirmaram: antagonista de madeireiros e grandes pecuaristas, acusada de entravar o crescimento econômico e criticada por sua intransigência, ela mostrou-se irredutível e coerente em suas posturas.

No entanto, não só em relação ao meio ambiente como em praticamente todos os outros pontos, o governo Lula demonstrou ser bem menos transformador do que a ingenuidade política me faria crer, e foi ainda a figura de Marina quem simbolicamente indicou para onde o embate de forças desse “governo em disputa” – jargão que se tornou comum na época e que, não raramente, servia inclusive para que a militância mais fiel justificasse as crescentes e lamentáveis “concessões” realizadas – pendia com mais força. Marina Silva manifestou-se de forma crítica e combativa em diversas disputas relacionadas ao meio ambiente, como no caso da construção de hidrelétricas e de Angra 3, nas questões dos transgênicos e dos biocombustíveis - para citar apenas alguns dos pontos que foram pauta nestes anos - e, na maior parte das vezes, foi solenemente ignorada, quando não publicamente advertida.

Assim, era quando Marina Silva se posicionava frente a assuntos que envolviam questões ambientais, e no entanto, a despeito de suas posturas, mais e mais “concessões” eram realizadas, que se tornava patente a constatação de que, nessa disputa, algo ia muito mal. Os rumos do governo brasileiro causavam um incômodo que, no meu caso, atingiu seu grau máximo no período da reeleição, quando muitos amigos militantes faziam oscilar de forma vertiginosa o seu discurso, juntamente com a retórica e as estratégias de campanha do seu partido, tentando em vão acompanhar as mudanças de rumo sem, no entanto, abrir mão do tom radical e progressista de suas falas. Para mim, pelo menos, a esta altura já parecia impossível.

É claro que existem inúmeros outros fatos muito mais significativos – além do pedido de demissão entregue ontem por Marina Silva - que podem demarcar este ponto em que se torna impossível negar a desfavorável dinâmica de poder no atual governo brasileiro. Para mim, no entanto, o marco mais significativo e melancólico foi sem dúvida esse.

quinta-feira, abril 17, 2008

é mambo!

Atrapalhado, feliz, deslumbrado, tenso, esperando, desconfiado, petulante, triste, animado, melancólico, saltitante...

Eu tô que nem Cabíria no night club!

sexta-feira, abril 11, 2008

contra a corrente (?)

"A espontaneidade e a atitude de 'deixa cair', de se permitir liberdade excessiva, pertencem àqueles que têm meios para tanto - os que nada têm só têm a própria disciplina".
Slavoj Zizek

terça-feira, abril 08, 2008

ill wind

Blow, ill wind, blow away
Let me rest today
You're blowin' me no good
No good

Go, ill wind, go away
Skies are oh so gray
Around my neighborhood
And that's no good

You're only misleading
The sunshine I'm needing
Ain't that a shame
It's so hard to keep up
With troubles that creep up
From out of nowhere
When love's to blame

So, ill wind, blow away
Let me rest today
You're blowin' me no good
No good

segunda-feira, março 31, 2008

noves fora

A vida opera por meio de estranhas contabilidades. Por via das dúvidas, vou aprendendo a contar, tentando entender esta bagunça pouco lógica de somas, subtrações...

Bom, devo dizer que, por enquanto, eu muito feliz com os saldos.

***

Continuam valendo aqueles versos da música de Tom Zé:

"quanto maior o romantismo,
mais cruel se transfigura o carinho em tortura".

Pois é. Se for pra aderir a certos romantismos que existem por aí, prefiro ser uma pedra. De qualquer forma decidi, afinal, que não sou um insensível. Depois de quase ser convencido do contrário, continuo por fim acreditando que sou sim, de alguma forma, muito romântico e idealista, mas de um romantismo secreto - desajeitado, talvez -, que não se derrete em palavras e gestos grandiloqüentes, apressados (e quase sempre muito suspeitos). A questão é que até que algo realmente valha a pena, essa delicadeza eu vou guardando pra mim.

***

Para ouvir:
The warning (2006), do Hot chip

quinta-feira, março 20, 2008

trouble every day

Feriado com chuva dá nisso: preguiça, vontade de ficar em casa comendo, vendo filme, e dificuldade para articular mais do que duas ou três palavras. E se a geladeira apresenta perspectivas pouco animadoras - vazio desolador... - por outro lado o repertório de filmes que tenho para ver aqui é dos mais promissores.
Pra começar, esse que faz tempo eu estava procurando: Trouble every day, de Claire Denis. Em uma sinopse bem pobre, algo como um filme sobre pessoas com um desejo sexual incontrolável que devoram(!) os seus parceiros em atos canibalísticos. Fiquei besta! Sem maiores comentários...




P.S. E só agora me liguei que, justamente na semana santa, tanta carne, sangue e sexo! Eu juro que não foi provocação. :p

sexta-feira, março 14, 2008

o jogo

Há um momento muito bonito no filme Dançando no escuro. Selma Jezkova, depois de ser advertida por causa de mais uma das muitas trapalhadas cometidas por ela na fábrica enquanto submergia num universo de fantasias e pensamentos muito próprios – o que acontecia sempre – diz com aquela cara de cachorrinho que só Bjork sabe fazer: “eu tinha decidido parar de sonhar acordada... mas depois... eu esqueci”.

Acho que no fim das contas a gente sempre precisa sonhar, de um jeito ou de outro, e nisso está muito da nossa beleza. O problema é que, como diria Mari, quando algo assim foge do controle, a gente fica muito – cerebral. Não no sentido de privilegiar o racional – nada menos racional do que isso! - mas é que a gente vai se fechando em torno de pensamentos e divagações e vai ficando cada vez mais retraído, mais imerso. E, além disso, sempre se corre o risco de começar a achar que a vida paralela que a gente inventa é melhor que “a outra” – pelo menos as pessoas são melhorzinhas, e assim machuca menos.

Daí que só sei-lá-quem sabe o trabalho que dá restringir um mundo quando ele começa a assumir dimensões incomodamente gigantescas, impondo-se com muita força e ameaçando suplantar essa dimensão imprevisível e intempestiva que é o encontro no espaço que é criado não só por nós, mas por várias pessoas diferentes através de formas e combinações que não dependem em absoluto da nossa “direção”. Falando isso, tento não cair na separação duvidosa entre realidade e fantasia, abstrato e concreto - estas formas puras não existem, mas se contaminam, transformam-se mutuamente. Seria mais, talvez, algo como uma diferença entre ser sozinho para os outros ou ser com os outros para algo que não resulta da vontade de ninguém em particular, mas da soma incerta de muitas vontades distintas. E porque apesar de tudo se acredita no outro, e se espera o encontro, ou até mesmo porque é preciso exorcizar um outro-ideal ou um outro-fantasma que toma conta da nossa cabeça, é que a gente tenta não se atolar de vez nessas fantasias, tenta redimensioná-las de modo a deixar um pouco de espaço para todo o resto, para a esfera do possível e inimaginável.

O problema é que moderar sentimentos é um exercício desgastante e quase sempre fadado ao fracasso. No entanto é necessário e, para esta necessidade, a melhor metáfora que encontrei até hoje foi um jogo de que tomei conhecimento pela internet. O jogo consiste justamente em esquecer a existência dele. Cada vez que lembramos que o estamos jogando, perdemos, e basta voltarmos a esquecê-lo para começarmos a ganhar novamente. A artimanha maior do jogo consiste assim em evitar os sinais e pistas que reativam sua lembrança, e as pequenas derrotas devem ser avisadas aos demais participantes (ou seja, o jogador deve anunciar que perdeu ao lembrar-se do jogo e, sobretudo, deve voltar a esquecer para que recomece a ganhá-lo).

Infelizmente alguns de nós perdemos quase sempre, ao recordar infinitas vezes o que, por bem, deveria ser moderadamente esquecido para dar lugar a outros pensamentos ou, mais ainda, para o impensável que nos espera. Para tentar esquecer, recorremos a alguns outros pensamentos que preenchem, que afastam a lembrança e, consequentemente, evitam a derrota, o fracasso na missão que nos impusemos de atrofiar presenças constantes na memória.

Um outro problema é que neste caso, ao contrário do jogo com regras claras, bem definidas e amplamente divulgadas, as circunstâncias são diferentes. Sabemos quando ganhamos, mas dificilmente anunciamos nossas derrotas: porque também faz parte do nosso jogo, cujas regras moldamos, não dar a conhecer que jogamos.

Para conhecer o jogo, clique aqui.

terça-feira, março 04, 2008

quando a imagem é demais

Já há algum tempo, os noticiários foram tomados pelas imagens de Ingrid Betancourt no cativeiro, supostamente filmadas em outubro do ano passado e veiculadas com o intuito de atestar sua existência, provando que ela ainda está viva. Mal acompanhando os noticiários nestes últimos tempos, na ocasião eu as vejo com freqüência - dada a forma exaustiva com que foram divulgadas - e quando isto acontece, sou tomado por certo incômodo: entendo que preciso inteirar-me do que acontece, formar opiniões a respeito, e que ali está posto algo muito sério que merece uma observação cautelosa e atenta. No entanto, não consigo. Não porque seja mais forte a displicência inicial com que voltei o olhar à tela antes de deparar-me com o vídeo e perceber a urgência do assunto. Mas porque, de antemão, senti que nenhum esforço para processar o que me atingia pareceria suficiente.

Algum tempo depois, já quando o tema assume uma nova forma - do problema crônico e já assimilado das guerrilhas, passando pelo reaquecimento do debate ocasionado pelas novidades nas negociações para libertação de seqüestrados, até a recentemente deflagrada crise sul-americana, cujo estopim foi a violação ao território estrangeiro do Equador pelas forças oficiais colombianas - retomo o assunto de uma forma, suponho, um pouco menos preguiçosa e irresponsável. Diante dos desdobramentos, vou aos jornais, tento ler notícias, opiniões, análises a respeito, e buscar algo que de fato me envolva ao tema e me distancie do odioso auto-glorificante acúmulo de informações. Porque não, nunca devoro atualidades apenas para me gabar de ser um sujeito bem-informado - o que, se por um lado, não é motivo de orgulho nenhum, uma vez que não são poucas as vezes em que ignoro discussões e fatos notáveis, pelo menos é uma atitude que considero um pouco mais espontânea. Nesse fluxo histérico de informações, dou-me ao luxo (e normalmente sem muito sentimento de culpa) de simplesmente dizer que não tenho condições, no momento, de opinar sobre o que se passa.

Assim, se retomo este assunto e busco inteirar-me é porque sinto que algo aqui me diz respeito: não sei bem o que, nem como, mas acredito que algo, de algum modo, me afeta. Ou melhor, eu sei: é a imagem de Ingrid Betancourt, que ficou calada dentro de mim mas não se neutralizou; falou mais alto de novo, em seu silêncio, e me causou incômodo. Não por acaso, então, voltei a ela: precisei ver de novo o vídeo, talvez buscando uma forma de me aproximar emocionalmente do assunto e assim ser menos cínico, menos enciclopédico na minha vontade de entender.

Mas ainda assim é difícil. Vendo-o, foi impossível não lembrar daquilo que li sobre a imagem traumática. O trauma, para Roland Barthes, seria aquilo que interrompe a linguagem e bloqueia a significação. No que se refere especificamente à imagem fotográfica, ele diz: “a foto-choque é, estruturalmente, insignificante: nenhum valor, nenhum saber, em última análise, nenhuma categorização verbal pode influir sobre o processo institucional da significação. Poderíamos imaginar uma espécie de lei: quanto mais direto é o trauma, mais difícil a conotação; ou ainda: o efeito ‘mitológico’ de uma fotografia é inversamente proporcional a seu efeito traumático”.

Essa idéia de bloqueio diante de uma imagem traumática, por sua vez, me fez lembrar do filme Persona: a atriz Elizabeth Vogler, internada em um hospital, assiste diante da televisão à imagem de um homem ateando fogo ao próprio corpo como forma de protesto. Diante do choque de testemunhar aquele corpo em chamas, da força das imagens e da radicalidade do protesto, a atriz, estarrecida, contempla a cena, imóvel. Diante deste horror a arte emudece, o cinema não tem meios de processá-lo, assimilá-lo, mostrando-se impotente.

É possível no entanto que a citação de Barthes esteja bastante deslocada. Porque me parece que não é o caso de ter sido bloqueada a significação; muito pelo contrário, o que se percebe é a supercodificação do visto por uma infinidade de discursos que possuem motivações políticas diversas. Assim, creio que não era exatamente sobre isso que Barthes falava. Mas tomo a liberdade para a apropriação indevida, para a des-(ou re)contextualização, como forma de expressar um pouco a dificuldade de, a despeito da espetacularização a que a imagem foi submetida, significá-la, dar conta de tudo o que ela representa.

Porque se a imagem de Ingrid em seu cativeiro choca, talvez seja isso o que a torna tão difícil de assimilar. Diante dela não há palavras, não há análises de conjuntura, não há opiniões, palpites ou arrebatamentos que abranjam o horror que ela evoca. Se, para os familiares, vê-las deve ser quase insuportável, para qualquer pessoa que por um minuto coloque-se no lugar de Ingrid ou tente enxergar nela um familiar querido (mas é exercício fadado ao fracasso, é impossível imaginar algo assim!), enfim, para pessoas que se permitam essa sensibilização, não parece exagero associar essa imagem à idéia de um trauma. Diante dela, não há sentido completo possível. A palavra seria sempre insuficiente. E a racionalização, cínica.

Arriscaria, então, dizer que estaríamos neste caso diante de algo como o Real inapreensível de que fala Slavoj Zizek, filósofo esloveno. Qualquer tentativa de assimilá-lo mostra-se quase impossível, porque o entendimento sempre se dá no nível simbólico, da linguagem. Ou, nas palavras de Zizek: este Real, “exatamente por ser real, ou seja, em razão de seu caráter traumático e excessivo, não somos capazes de integrá-lo na nossa realidade (no que sentimos como tal), e portanto somos forçados a senti-lo como um pesadelo fantástico”. E não seria isto o que eu mesmo estaria tentando fazer aqui: possibilitar a conotação, estabelecer mediações simbólicas, mitológicas para tornar a imagem de Ingrid assimilável?

O fato é que não pude ignorar, e fui à rede saber um pouco mais.

Um breve panorama na internet sobre a cobertura no Brasil nos dá uma idéia da disputa ideológica que se dá em torno dos fatos. Resumindo o estado dos argumentos de forma bem grosseira (neste caso, intencionalmente redutora, para tentar emular a grosseria com que alguns articulistas têm recortado e exposto o quadro): enquanto sistemas de mídia direitistas enfatizam aspectos como o uso da palavra guerra por Hugo Chávez como mais um mecanismo e recurso para a caracterização do presidente venezuelano como um louco paranóico e irresponsável - capaz de colocar sob ameaça todo o subcontinente latino-americano - colunistas como Emir Sader, por sua vez, jogam os holofotes sobre as ações conspiratórias do governo de Uribe na Colômbia e suas relações com o poderio norte-americano. Enquanto isso, Fidel Castro já nos informa ouvir soarem as trombetas da guerra...

Diante de tudo isso, penso com certa irritação em como muitos dados são manipulados sob a forma de opiniões anti-chavistas ou anti-estadunidenses. Penso com ainda mais irritação em como as pessoas ainda supõem, convenientemente, haver explicações fáceis para uma questão tão complexa quanto a do narcotráfico, das guerrilhas e das disputas políticas na região. O que eu não consigo sequer pensar é na existência provável de pessoas que ponderem, considerando justificável que vidas como a de Ingrid Betancourt sejam relativizadas em nome de qualquer causa bem intencionada que pretenda tornar a vida humana minimamente mais digna. Porque o que estes fatos lamentáveis denunciam é a barbárie, e para ela não existem justificativas fáceis ou antagonismos claros. Sem querer soar grandiloqüente, diria: somos todos responsáveis.

Eu, como há muito já deixei de me entusiasmar com grandes causas gloriosas e messiânicas e comecei a recusar o jogo das respostas fáceis – no qual as pessoas acreditam de modo a tornar (para o alívio de todos) o mundo mais ordenável, inteligível e explicável; eu, que aprendi a assumir que não entendo, que muitas vezes não sei o que dizer e que a experiência me transpassa (ou por vezes parece que me contorna, me dribla), apenas tento responder ao alto impacto daquilo que vejo e que, somado às mensagens lingüísticas que o acompanham, torna-se simplesmente demais, um excesso que não consigo absorver.

Sim, porque não temos somente o vídeo: temos o relato. Ingrid Betancourt não come, não tem forças, está esgotada física e emocionalmente, seus cabelos caem aos montes, seus ossos já se tornam visíveis sob a pele e acredita-se que tenha hepatite do tipo B (e a partir daí imaginamos como podem estar os outros seqüestrados, dos quais não temos muitas notícias). No vídeo, sua cabeça está sempre voltada para baixo, seus braços caídos sobre o corpo, imóveis, e seu semblante triste, muito triste e desolado(r)! São cinqüenta e cinco segundos de um silêncio pungente, indescritível, em registros feitos por uma câmera perscrutadora que vai se aproximando do rosto de Ingrid até quase o limite da distorção. E é tudo tão forte e impossível, e é tudo tão terrível que nos comove.


Para ver:

Vídeo divulgado pelas Farc com as imagens, aqui.

E para que não reste dúvidas de que perplexidade e suspeita não se confundem com omissão ou descrédito a qualquer tentativa de posicionamento político concreto, coloco também o link para um vídeo que trata das obscuras relações entre Uribe, Estados Unidos e narcotráfico. Note-se que a postura lamentável do presidente colombiano no que diz respeito às negociações para libertação dos seqüestrados torna-se ainda mais ambígua diante destas informações. Disponível em espanhol, aqui.


Para ler:

O óbvio e o obtuso, de Roland Barthes.

Bem-vindo ao deserto do real, de Slavoj Zizek.

sábado, março 01, 2008

“o que te ilude é roliúde”

Todo mundo precisa de um filme bem xarope às vezes, para descolar-se da atmosfera de pensamentos difíceis que a gente respira quase todo o tempo. O problema é que sempre que vejo um filme assim, bem meloso, fico me perguntando o quanto isso inconscientemente não deve ter contribuído para me assinalar promessas que jamais serão cumpridas – digo, principalmente antes que eu começasse a ter o mínimo discernimento (ou senso de auto-proteção) capaz de me advertir a tomar cuidado e recuar de histórias que insinuem a possibilidade, em qualquer tempo e lugar dessa existência, de conseguir um reconhecimento mútuo e uma delicadeza rara que me permita ficar menos sozinho, menos desamparado nesse mundo difícil.

Pense bem: se você duvida que de fato todo o repertório de cultura midiática que a gente vem acumulando desde criancinha influencia as nossas expectativas com relação aos nossos encontros (e sobretudo desencontros) pela vida afora, imagine quantos e quantos filmes, seriados, novelas etc etc nós viemos absorvendo e armazenando na nossa cabecinha durante todos esses anos. Pense em como a crença em um amor romântico, monogâmico, sensível, cúmplice e duradouro capaz de nos acolher e proteger da nossa condição de seres avulsos não pode bem ser um resultado de narrativas culturais bem forjadas. Pense na persistência desse romantismo, mesmo que as pessoas neguem, finjam não se importar, não buscar (aliás, pense em como um certo tipo de romantismo sobrevive mesmo com tantos declarando sua morte!) e diga se não deve haver algo muito enraizado no nosso universo pessoal de sonhos.

Para isso, não cabe nem tanto considerar o momento presente com que, em maior ou menor grau, já conseguimos desenvolver um certo cinismo que (supomos) nos protegerá dessa vontade. Em vez disso, coloque-se na sua existência infantil, naquele momento de formação da sua personalidade e do seu perfil emocional que - embora correndo o risco de parecer essencialista – arriscaria dizer que se mantém relativamente constante (o que, a propósito, pode ser a origem daquela sensação terrível de que cometemos sempre os mesmos erros no quesito “relações pessoais”).

Um exemplo concreto: pense em você criancinha assistindo ao episódio do Chaves em que todos vão para Acapulco - menos ele que, tristíssimo, fica sozinho na vila. Lembre que depois Seu Barriga o convida, de modo que o episódio termina com todos felizes comendo churrasquinho na praia ao pôr-do-sol. Não há dúvida de que você é colocado no lugar do Chaves – levado a comover-se com o abandono para logo em seguida sentir-se aceito e participando da aventura na ida à praia. Este episódio do Chaves, em suma, te leva a acreditar que você será emocionalmente incluído, ao longo da vida, por um ou outro salvador - mesmo que seja um barrigudo careca. Mas creia: a verdade é que ninguém te levará a Acapulco.

O mesmo se poderia dizer da nossa adolescência quando, sentindo-nos um pouco mais espertos, consideramo-nos imunes a histórias bobas de boa vizinhança. Eis que aí é justamente quando muitos são impiedosamente arrebatados pela vontade irresistível de torcer por algum casalzinho problemático da tv: uma dobradinha tipo Dawson e Joey, pra ficar só nos mais lesos, que sempre agradam aos adeptos do bom mocismo. Memória fraca, romântico(a)? Então experimente voltar a alguns episódios daquele seriado americano que você via (se é que ainda não vê) e simplesmente mooorra de vergonha. Sim, era trash demais. Mas no seu inconsciente, não negue: você ainda quer aquilo.

Só que não acabou! Eu continuo minha explanação, afinal, a coisa é mais grave. Porque não se trata apenas daquelas histórias magníficas em que o acaso une pessoas (a propósito, alguém aí já experimentou depender do acaso? Às vezes parece que ele não chega nunca...). Nem daquelas em que a efemeridade é poeticamente vivenciada pelas partes envolvidas que, supõe-se, devem ser sempre duas - embora em alguns casos até os triângulos pareçam lindos e esteticamente excelentes (vide Os sonhadores, Jules et Jim, etc). A gente até tenta zombar um pouco, tirar onda, dizer que “três, na vida real, não é amor, é gaaaaaia!” Mas no fundo, todo mundo segue acreditando. Nem que seja um pouco.

Enfim, como dizia, a coisa é mais grave porque não é só por meio de histórias deslumbrantes que nossos sonhos afetivos são alimentados. Em Hollywood - e muito além dela, na verdade (vide os exemplos anteriores) - até os fracassos amorosos são lindos. Como no filme que vi na sessão de sábado da Globo pela quarta ou quinta vez, em um momento de desespero e ócio: O casamento do meu melhor amigo. É fato que Julia Roberts se fode, mas é tão “fofinho” como tudo se resolve com dignidade e afeto! Repito: isso é muito, muito grave. Porque a dor de cotovelo causada pelo fracasso em uma disputa amorosa gera tudo, menos sentimentos nobres.

Isso tudo posto, confesso: eu continuo assistindo, vez por outra, a filmes assim. Mas me digam: quem não continua? Quem não precisa de uma ilusãozinha a 24 frames por segundo para suportar a desolação de uma tarde ruim?

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

sabino

"Não me permitia ler senão com os cotovelos fincados na mesa, rabiscando o livro todo, anotando tudo. Tinha de ler do princípio ao fim. Até hoje sinto complexo de culpa quando salto uma página. Houve época em que lia, estudava Direito, lecionava português no colégio do pai de Otto Lara Resende, dava aula particular de taquigrafia, trabalhava numa repartição pública e num jornal, e ainda sobrava tempo para namorar e para o chope com os amigos. Tinha instrução no CPOR toda manhã, às seis horas, não podia faltar. Às vezes já saía à noite fardado e ia direto do bar para a instituição. Naquele tempo o dia tinha 48 horas.

Passei a tomar emprestado cinco livros por semana com o Etienne - João Etienne Filho, escritor e jornalista mineiro, que me iniciou na literatura brasileira. Assumi comigo o compromisso de ler um livro por dia. Lia durante horas seguidas, em casa ou na Biblioteca Pública. E até mesmo em plena rua: andava de livro aberto diante do nariz. Volta e meia chegava com um galo na testa, porque ia lendo pelo caminho e dava com a cabeça num poste. Em Belo Horizonte havia muito poste na rua".

Fernando Sabino, O tabuleiro de damas

terça-feira, fevereiro 19, 2008

parênteses

Tava ali na janela fumando um cigarro quando pensei que qualquer consideração sobre um ser humano deveria vir acompanhada de um parêntese: (ou não) – de modo a garantir, para ambos os lados, o benefício da dúvida. Logo lembrei que a tal coisa dita sobre alguém, seja ela o que for, precisava também vir seguida de um (dentre outras coisas) - porque uma pessoa nunca é uma coisa só. Daí tomei gosto pela brincadeira e comecei a pensar em outros parênteses necessários. Ocorreu-me mais um: (até hoje) – já que nunca se sabe se a consideração feita será válida para o momento imediatamente seguinte, uma vez que as pessoas mudam e não se sabe o que serão amanhã. Depois disso ainda achei que havia muitos outros parênteses possíveis e quis continuar inventando. Mas o cigarro acabou.

Para ouvir: Jigsaw falling into place – Radiohead

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

overreacting

Porque nós superestimamos tudo, perdendo um tempo enorme com detalhes e minúcias que para os outros são absolutamente insignificantes.

Porque a gente acha (como eu, de segunda-feira até agora) que está na iminência de fazer uma coisona - ousada e fora de protocolo - e daí planeja, hesita, decide, até que faz... E no fim das contas a outra pessoa mal detém a vista.

Mas o overreacting é algo sem fim. Porque a própria reação à não-reação alheia é desmedida, uma vez que deixa a dúvida: e agora? Seria um sinal de que é melhor deixar pra lá ou, como diz aquela música, you've gotta try a little bit harder?

Odeio as sociabilidades virtuais e suas ambigüidades...

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

notas de carnaval #2

Há uns dois anos parecia impossível, mas já começo a considerar o momento em que o carnaval de Recife vai deixar de me despertar grande entusiasmo. Este ano percebi que meu interesse já demonstra sinais de cansaço, minha alegria já parece um pouco institucionalizada - e nada mais insosso que uma alegria meio-termo, meia-boca, vivida de uma forma que a gente já sabe como começa, quando termina e até onde é capaz de ir.

Porque no fim das contas eu sou a contradição de uma criatura extremamente carente de seguranças de todo o tipo que, no entanto, só consegue aceitar uma vida com aventuras, que se transforme e refaça constantemente. Até acho isso bom, tenho aprendido cada vez mais a viver dessa forma meio mutante, aceitando e vendo com bons olhos o fato de que a gente muda tanto com o tempo que até as coisas mais estimadas são meio que deixadas de lado, depois.

Tem acontecido assim com Recife, que há alguns anos parecia a cidade da minha vida, e agora me faz sentir meio preso, com a sensação de que estou estagnado no meio do tempo, sendo observado pelas mesmas pessoas de sempre e que, não raramente, são chatíssimas. Acontece agora também com o carnaval daqui, que é o cúmulo de Recife: é "Recife" entre aspas, potencializada, exagerada. A beleza das pontes aumenta; a maravilha que é andar pela balbúrdia das ruas da Boa Vista aumenta; o prazer simples que é perambular pela Cidade Alta, em Olinda, aumenta, mas tudo em escala proporcional ao fedor, ao caos do transporte coletivo e à famigerada pernambucanidade, dentre outras coisas, que são levados ao limite. Tudo em Recife é demais nessa época do ano, e o carnaval daqui, na minha opinião, tem se confundido com o mesmíssimo e por vezes irritante hábito de "fazer a social".

Obviamente isso deve ser culpa minha. Será que é a falta de bebida? Provavelmente. A vida sem álcool, sobretudo por estas bandas, é de fato uma chatice e nessas ocasiões apenas uma frase me vem à mente, aquela de Erickson Luna: "a sobriedade é medíocre".

Mas não, não é isso. Provavelmente não tem nem tanto a ver com carnaval. É algo diferente, que acontece aqui uma vez que é onde estou, mas que diz respeito a outras coisas, mais amplas e difíceis. Volto a isso outro dia, que é quando pretendo falar sobre madrugadas, política, filmes e Godard. Enquanto isso, tento elaborar melhor o que incomoda e que me parece tão difícil de nomear.

Acho que perdi o jeito na vida para as coisas abstratas...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

notas de carnaval #1

Carnaval 2008 já começou com a macaca nessa quarta-feira. Primeiro, conversa sobre dificuldades emocionais no ônibus com Mari, a caminho do Recife Antigo, além daquele transtorno maravilhoso (e já previsível) que acomete o trânsito da cidade devido aos blocos na rua e do qual eu nunca, nunca reclamo porque acho lindo que a cidade se transforme em um espaço festivo não-utilitarista onde o que é priorizado é a diversão, mais do que a pressa ou os fins de quem se desloca em seu carro.

(Embora eu veja isso sem muito romantismo, já que o carnaval mesmo há muito já está virando uma coisa meio utilitarista, que é bom porque emprega, porque movimenta a economia, porque faz bombar os lucros de empresas variadas e dá a alguns uma sensação de transgredir que é totalmente cooptada).

Enfim... Apesar de tudo, é uma força tensionadora - via hedonismo - que pode bem ser revertida em celebração sincera, carnavalização de um espaço urbano normalmente tão cinza. E pode parecer ingênuo, mas acredito que em Recife, particularmente, alguns traços de alegria desinteressada ainda subsistem em meio à teatralidade política e mercadológica que reina quase absoluta.

... Mas onde estávamos? Ah, no ônibus, com Mari, falando em alto e bom som sobre assuntos bem pessoais. Só que isso não vem ao caso, e como hoje eu descambei de vez pro estilo “meu diário” e resolvi adotar a escrita livre pra registrar impressões, vou esculhambar de vez e fazer uma versão fast foward do relato, já que estou sem tempo e sem saco.

O resto da noite foi: uns dois litros de coca consumidos (e muita lamentação por isso!); eu sendo abordado e parabenizado por algo de que realmente precisava de um retorno; a descoberta desconcertante de que pessoas ficam constrangidas com a minha presença; Eddie lembrando carnavais passados e mais uma vez prometendo ser parte importante da trilha sonora deste; e pra finalizar, um amigo de fora que estava desanimado com o carnaval, no fim de tudo, ensaiando passinhos de frevo com uma sombrinha. :p

Ah, já ia esquecendo: a maior concentração por metro quadrado que eu já vi em muito tempo de pessoas que olham pra você e fazem cara de... isso mesmo que vocês estão pensando. E eu me perguntando porque geralmente sou tão mal recebido por semi-conhecidos. Meu novo sonho: ficar me observando de longe pra ver o que eu faço que causa tamanha má impressão no povo em geral. Mas sempre resta o consolo de quem é detonado por muitos: o afeto de poucos – os que importam, afinal!

p.s. Os moradores da Torre estão indóceis: hoje é noite do bloco Só sai pingando que, acredito, dará a tradicional volta no Atacadão dos presentes. :p

sábado, janeiro 19, 2008

eu não morri, muito prazer

Chega essa época de obrigações acadêmicas, prazos vencendo, preocupação, ansiedade afetiva, alimentação escassa e também da equação guaraná + cigarro + café = dor de estômago, aí eu vou ficando assim com essa cara de noivo cadáver.


***

Ontem já havia um monte de gente enlouquecida ligando, mandando mensagens ou “acabando de entrar” no msn pra comentar sobre a festa do guaiamum treloso, hoje à noite. E pra piorar, agora, enquanto escrevo aqui, meu cunhado está na cozinha com seu radinho de pilha - que está tocando aquela do saca-saca-saca-saca-rolha (com direito a dedinho levantado e tudo!)

Ok, está declarada oficialmente a impossibilidade de continuar ignorando o carnaval. Depois, quando não resistir, tenho todo o direito de não me sentir um completo irresponsável. Não é mesmo, minha gente?

sexta-feira, janeiro 11, 2008

pura destreza

Pronto, acho que agora o visual aqui melhorou sensivelmente. E como diria aquele humorista, o Espanta, imitando o bêbado: "é só no equilíbrio!" Tentando manter a naturalidade, apurando a destreza e com muito cuidado para não se esborrachar de vez.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

encruzilhada

"No porão da minha cabeça dois gigantes se enfrentavam: de um lado, o gelo da covardia burguesa; do outro, na parte oposta do eu, cozinhava-se uma idéia herética. No combate entre essas duas forças pendulava eu, horrorizado."
Tropicalista lenta luta

A primeira vez em que eu postei esse trechinho do livro do Tom Zé foi em outubro de 2006. No entanto, nunca esteve tão atual pra mim - embora hoje talvez, menos maniqueísta, pense que a divisão entre essas duas partes esteja menos nítida. Ou, pior: acho cada vez mais difícil saber em que lado a covardia, onde a verdadeira transgressão...

terça-feira, janeiro 01, 2008

a forma decadente pós-réveillon

Talvez uma convenção tão certa quanto aquela de que a passagem do dia 31/12 ao 01/01 representa uma mudança tal que justifique planos, votos e abraços é a de que tudo o que é desejado ardorosamente para o ano seguinte só conta mesmo a partir do dia 02. Certamente essa convenção é bem mais velada, subentendida, mas não menos forte. O pé direito com que nos dizem que devemos entrar no ano novo provavelmente deve ser o mesmo que dá esse pulo enorme com o qual chegamos ao dia 02 no mesmo tom de começo, relegando o primeiro dia do ano a um mero intervalo não-computado na nossa narrativa de renovação.

Ressaca, estados de enfermidade aguda, corpos debilitados, cara amassada, fome sem vontade de comer, - e, claro, para alguns, um certo remorso ou ressaca moral pelos exageros permitidos pela felicidade explosiva do dia anterior - tudo isso, salvo engano, não parece rimar muito com os discursos do momento exatamente anterior, com a imagem triunfante das pessoas, a aura imaculada, brilhosa e pipocante refletindo os fogos de artifício do réveillon. Chega a ser engraçado: todos esbanjando glamour, riqueza, ostentação e alto potencial de sociabilidade, como numa vinheta da Globo, para no outro dia acordar com o que provavelmente será a pior cara dos seus 365 dias de pura novidade prometidos em meio à euforia.

Entre as bolhinhas de champanhe e o chiado do sonridor no copo às vezes há apenas algumas horas.

Claro que a festa de réveillon tem sua parte bonita e interessante. Eu mesmo tive uma ótima passagem este ano com a família de uma amiga que me permitiu estar presente e compartilhar esse momento intimista de celebração caseira. Foi simples, divertido e acolhedor. Se escrevo neste tom ranzinza é porque estou em pleno dia 01 e, como para todos os outros, minhas promessas de felicidade e moderação só valem mesmo a partir de amanhã. E se a virada foi assim agradável, eu também estiquei minha comemoração um pouco mais do que deveria, chegando em casa apenas às seis da manhã depois de algum tempo de mofo total na decadente rua da moeda, que é onde no final das contas eu sempre vou parar, por alguma predestinação cósmica. Some of us never learn!

Este ano, no entanto, juro que sou inocente. Devido ao remédio infame que estou tomando, me permiti tomar apenas umas três taças de vinho, jurando que um prêmio mais do que merecido depois de tantos meses de abstinência jamais me faria mal. Obviamente, as coisas não correram deste modo, e acordei parecendo o Mumm-Ra antes da transformação (alguém aí lembra dos Thundercats?). Quer dizer, Mumm-Ra ao menos conseguia andar com uma certa desenvoltura; eu, por outro lado, só agora no fim da tarde consegui levantar da cama (que mais parecia um gavetão do IML). Mas eis que o presunto ressuscitou para atualizar o blog neste fim de tarde...

Então é isto: eu tinha programado uma espécie de retrospectiva de algumas histórias que andaram assombrando o blog durante o ano, como uma espécie de saldão 2007. Sei que é ridículo, mas eu queria e pronto. Mas isso fica para outro dia, assim como a busca de uma nova imagem aí pro topo - afinal, faz tempo que o conteúdo, o tom e tudo o mais do que escrevo aqui não combinam nem um pouco com a foto do Jean-Pierre Léaud no Les quatre cents coups... Bom, fica pra depois, porque agora eu vou voltar pra minha tumba. Amanhã tudo será diferente, acordarei renovado e forte (serei o de vida eternaaaaaa).

terça-feira, dezembro 18, 2007

do apego

Porque eu não aprendi a perder assim. O que eu sempre quis e não tive era tão abstrato, imaterial, que se tornava muito fácil, depois de um tempo, depois da vontade, rejeitar como ilusório ou mero engano. Mas – e este é o perigo das experiências concretas – neste específico caso eu pensei que era tudo tão certo e se encaixava tão perfeitamente, mostrando-se tão melhor ou mais bonito do que eu poderia esperar, que fui insistindo, acreditando, até um ponto em que estava depois do jogo, fora do fato, sem perceber que me transformava no vilão psicopata que continua negando, insistindo, fingindo esquecer que faltava algo - uma outra vontade, a exata contrapartida da minha. E então para negar a derrota eu inventei defeitos, chamei de ordinário, fútil e desleal ao que era absolutamente correto. Acusei de narcisismo sem perceber que apontava para o meu próprio reflexo. Evoquei Nêmesis para punir os excessivamente afortunados, sem saber que era a mim que poderia ser cobrada a fatura. Mas foi quando eu vi que tudo que eu fazia só piorava a situação, só me tornava mais errado e indigno, que algo estalou por dentro e vi que era hora de deixar pra lá...

“And the hardest part
Was letting go not taking part
Was the hardest part

And the strangest thing
was waiting for that bell to ring
It was the strangest start

I could feel it go down
Bittersweet I could taste in my mouth
Silver lining the clouds
Oh and I
I wish that I could work it out”

E quando uma amiga me falava de apegos materiais desmedidos, perguntei ansioso a respeito daqueles que se apegam a sentimentos, mesmo os mais inapropriados, reconhecidamente fadados a decair. Sua resposta não poderia ser mais correta. “Porque talvez elas tenham medo de não ter nada o que colocar no lugar...” E então acho que é nessa hora que eu recorro ao meu lado mais antiquado, old-fashioned, e sinto uma nova vontade, incipiente (talvez um pouco encenada, não sei, mas, afinal, não somos nunca perfeitos...). Let it go! Melhor desejar uma bonita e duradoura felicidade a quem - suponho agora, mais amolecido - deve merecer o melhor.


Para ouvir:
The hardest part- Coldplay


p.s. E pesquisando um pouco sobre sentimentos old fashioned na internet (hahaha), achei um blog em que uma garota postava simplesmente assim: “Eu nunca sei a hora de bater em retirada”. Pois bem, este é o nosso consolo no mundo: sempre existem outros como nós. =)

p.s.2 Botei pra quebrar agora: pieguice máxima. Mas dêem um desconto: é fim de ano, o blog também precisa ser purificado, então estou "dando um fechamento" às coisas mais melosas de 2007. Bom, pelo menos o blog que citei é mesmo ótimo!