sábado, setembro 24, 2005

Tem um momento que começa assim: uma música vai fazendo tum, tum, tum... Ela já começa alta, mas vai crescendo ainda mais, ocupando o espaço, e parece que todo mundo começa a se mover de acordo com seu ritmo, inclusive o ambiente, que vai se envolvendo em fumaça, como aromas e incensos transformando a atmosfera do lugar. O álcool vai embaçando os olhos, líquidos sorvidos em goles generosos, e vez por outra um trago daquelas cigarrilhas que deixam um gostinho bom nos lábios. As bocas começam a proferir palavras que já têm cadência própria, e são palavras muitíssimas, desbragadas, sem sentido, apaixonadas e lançadas com ímpeto, sendo que múltiplas, vindas de todas as direções e formando um diálogo único, indiscutivelmente coeso e harmônico em sua completa falta de sentido. A música fica mais forte e, numa mudança súbita, sacode a todos, que numa sincronia quase ensaiada assumem o novo ritmo, alguns levantando das cadeiras na hora do tcharan-ran-tchum e já pegando seus parceiros, outros dançando sentados, imóveis, contemplativos, envoltos na espessa atmosfera carregada de ebriedade e cheiros quentes.
De repente não faz mais diferença fechar os olhos e tê-los abertos; todos estão verdadeiramente presentes, e se fecham os olhos o fazem apenas para desenhar melhor a cena, e quando os abrem são capazes de vislumbrar novamente aquelas imagens como que histórias de sonhos, quando tudo tem névoa, mas somente na cabeça de quem lembra.
Os sons - outrora chamados barulhos - de risadas, copos tilintando, garrafas estilhaçadas, mesas e cadeiras arrastando-se e riscando o chão, já estão perfeitamente integrados à melodia, que por sua vez já está naquela hora em que as pessoas começam a fechar os olhos e balançar a cabeça com risinho besta na cara, sendo que dessa vez não é se amostrando não – elas estão sentindo a música de verdade! Nas vozes os psius, os êpas, os oxes e as risadas cheias de pra-quê-isso se intensificam, na exata medida em que frases completas viram interjeições, lamentos viram choros exagerados, vontades viram pouca vergonha e amizades viram brindes.
Tem uma luz que vem de não sei onde e colore um pouco mais a cena, deixando tudo meio alaranjado, meio perdido em tons e nuances de natural luminosidade. Aí há momento pra tudo: pra comida que chega cheirosa e acaba ligeiro, pra outra rodada de bebida, pra confissões, para o quase impossível silêncio, e tudo vem e passa, porque tem outro momento diferente logo em seguida. A única coisa que não passa é a quentura, que deixa testas gotejando, roupas grudando, olhos lacrimejantes. Os copos que suam mancham círculos nas mesas de madeira, testemunhas de noites boêmias, alcoviteiras de encontros, cúmplices de conversas e verdades.
A cena toda continua assim, bonita, intensa, durante um bom tempo, até que tudo vai se amenizando, ficando vazio, e nada está mais suspenso no ar, novamente. Todos vão se acomodando à nova hora, reorganizam-se, saem pingando de um em um, dois em dois, até que grupos inteiros se formam e dizem adeus, olham de novo para o tempo e lembram de esquecer que são só momentos assim que valem a pena na vida.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Eu devo ter perdido de vez a medida do que seja um blog (e do tamanho que um post deve ter). Mas enfim, só lê quem quer...
Este poema foi o que eu descobri em uma noite, numa rápida e despretensiosa leitura antes de dormir. E o que ele diz é tudo, e tão essencial, assustadoramente significativo e próximo, agora, que não tem como resumir. Tampouco poderia comentar: perderia a graça, banalizaria, seria excesso de exposição, redundância, porque está completo, claro, sinceramente exposto.
E sim, é forte...


Reconhecimento de Nêmesis
(Março de 1926)


Mão morena dele pousa
No meu braço... Estremeci.
Sou eu quando era guri,
Esse garoto feioso.
Eu era assim mesmo... Eu era
Olhos e cabelos só.
Tão vulgar que fazia dó.
Nenhuma fruta não viera
Madurando temporã.
Eu era menino mesmo,
Menino... Cabelos só,
Que à custa de muita escova
E de brilhantina,
Me ondulavam na cabeça
Que nem sapé na lagoa
Si vem brisando a manhã.

É gente que não compreendo
Os saudosos do passado
Nem os gratos... Relembrança
Porta muito raramente
Nos olhos dos ocupados.
Por isso enxergo sem gosto
A casa da minha infância,
Casão meio espandongado
Onde meu pai se acabou.
Só mesmo o que é bem de agora
Possui direito de lágrima,
Sofrer... pois sim, mas lutando
Pela replanta brotando,
Sofrer sim, mas porém nunca
Sofrer puxando memória
Pelo café que secou.

No entanto quando sucede
Mais braba a vileza humana
Arranhar na minha porta,
Não sei porque o curumim
Que eu já fui, surge e se bota
Assim rentinho de mim.
Será que é um anjo da guarda?...
Não sei não... Creio que não.
Ele faz que não me enxerga,
Que não me conhece... Mão
Morena sempre pousando
No meu ombro, aluada muito!
Até o menino inteirinho
É que nem cousa perdida
E não dá tento de si.
Possui a vida sem vida
Das sombras. É assombração.

Remexe por todo o quarto,
Não desloca nenhum traste,
Se vê bem que não faz parte
Do grupo dos meus amigos...
Volta-e-meia vem e pousa
No meu braço a mão morena...
É um silêncio atravessando
O corpo manso das cousas.

Eu também si o reconheço,
É só porque sofro agreste,
E embora grudando a vista
No livro, eu faça de conta
Que não reparo no tal,
Minha alma espia o menino
Enquanto a vista devora
Uma sopa de aletria
Feita de letras malucas.
Mas ele não vai-se embora,
E o vulto do curumim,
Sem piedade, me recorda
A minha presença em mim.

Só isso. E por causa disso
Não posso fugir de mim!
Não posso ser como os outros!
Riso não pega de enxerto,
Ser mau carece raiz...
E confessando que sofro,
Não sei si é pela coragem,
Mas tenho como uma aragem
E fico bem mais feliz.
Menino, tu me recordas
A minha presença em mim!

... A primeira vez que veio
Tive uma alegria enorme,
Gostei de ver que já era
Bem mais taludo e mais forte
Que em pequeno e que possuía
Uma alma aquecida pelo
Fogo humano do universo.
Segunda vez me irritou.
Fui covarde, fui perverso,
Peguei no tal, lhe ensinei
A indecente dança-do-ombro.
Não quis saber, foi-se embora.
E quando não o vi mais,
Sozinho, me arrependi.
A terceira vez é agora
E eu... não sei... não gosto dele
Mas não quero que o rapaz
Me deixe sozinho aqui.
Não danço mais dança-do-ombro!
Eu reconheço que sofro!

Ah! malvadeza brutaça
Dos indivíduos humanos,
Dos humanos desta praça!
Ah! Homens filhos-da-puta,
Gente bem ruim, bem odiando,
Homens bem homens, grandiosos
Na sua inveja acordada!
Grandiosos na força bruta,
Na estupidez develada!
Que heroísmo sem inocência,
O do sujeito esquecendo
Do remorso e da consciência!
Ôh! força reta, bem homem,
De ser talqualmente os mares,
E os movimentos do mundo!
Perversidades solares
Da magrém! ser matapau!
Sucuri, raio, minuano!
Forçura destes humanos,
Iguais na perversidade,
Iguais na imbecilidade,
Na calúnia, iguais no ciúme!...
Conscientemente implacáveis!
Imperiais no riso mau!...
Ota, cabra demográfico,
Jornaleiro do azedume,
Secreção de baço podre,
Alma em que a sífilis deu!
Burrice gorda, indiscreta,
Veneranda... Homo imbecilis,
Invejado pelo poeta...
Viva piolho de galinha!
Êh! homem, bosta de Deus!

Menino, sai! Eu te odeio,
Menino assombrado, feio,
Menino de mim, menino,
Menino trelento, que enches
Com teus silêncios puríssimos
A bulha dos meus desejos,
Que nem a calma da tarde
Vence a bulha da cidade...
Menino mau, que me impedes
De entrar também pro recheio
Das estatísticas... sai!
Menino vago, sem nome,
Que me embebes inteirinho
Nesta amargura visguenta
Pelos homens! Pelos homens!...

Puxa! rapazes, minha alma,
Comprida que não se acaba,
Está negra tal-e-qual
Fruta seca de goiaba!
Meus olhos tão gostadores
Nem têm mais gosto de olhar!
E pela primeira vez
O murmurejo natal
Desta vida está sem graça,
E eu só desejo uma calma
Que apagasse até meus ais!
Tudo amarga porque os homens
Me amargaram por demais!
Uma tristeza profunda,
Uma fadiga profunda,
E até, miseravelmente,
O projeto inconfessável
De parar...

Menino, sai!
Você é o estranho periódico
Que me separa do ritmo
Unânime desta vida...
E o que é pior, você relembra
Em mim o que geralmente
Se acaba ao primeiro sopro:
Você renova a presença
De mim em mim mesmo... E eu sofro.

É tarde. Vamos dormir.
Amanhã escrevo o artigo.
Respondo cartas, almoço,
Depois tomo o bonde e sigo
Para o trabalho... Depois...
Depois o mesmo... Depois,
Enquanto fora os malévolos
Se preocupam com ele,
Vorazes feito caprinos,
Nesta rua Lopes chaves
Terá um homem concertando
As cruzes do seu destino.

Mário de Andrade

quarta-feira, setembro 14, 2005

Disse o crítico a Guido Anselmi, em Oito e meio: “é preferível destruir, quando não se cria o essencial”. Também o personagem de Kundera, Ludvik, sentia prazeres quase ilícitos em cometer belas destruições.
Seria hora de retomar o gosto pelas pequenas destruições?

Parafraseando Carla Camuratti, em entrevista à Continente Multicultural de agosto: entre mortos e feridos, eu consigo me salvar de mim mesmo.
A intensidade dos últimos dias tem virado do avesso o mínimo de método e linearidade que consigo me impor. Neles, ao mesmo tempo em que nada de novo realmente acontece, minha cabeça fervilha de questões que pelo menos a princípio parecem derradeiras, conclusivas e – espera-se - determinantes de amplas e inadiáveis mudanças.
Tudo convulsiona ante os fatos agora tornados claros pelo meu cansaço em ignorá-los. E quanto trabalho não dá, encara-los de frente! E quanto risco não existe nessa lucidez (mesmo que embriagada, como no livro de Hélio Pellegrino que nunca li) e nessa fingida coragem. Porque não é coragem, é falta de opções. É o fim da artificial tolerância, da ilusão deliberada ou, quem sabe até, do benefício da dúvida, destruído pela realidade que agora é tornada visível pelo desejo de enxergá-la.
São os mesmos temas, os mesmos assuntos. Nada muda, em cada um dos desordenados caminhos a que interiormente me submeto. Mas tantas verdades! E dentre o que resultará disso tudo eu espero que se encontre um pouco de força e sensatez, para que eu possa lidar com o que sucede a essa clareza e também para que eu possa perceber que nem tudo me tirará o chão se eu puder, pelo menos, ter-me como apoio. Chegar a tanto, a tão longe – a essa aspirada auto-reconciliação – seria, isso sim, o impensado; a verdadeira ruptura.
E se a convulsão de tudo, nesse processo, me permitir o que tem sido difícil – escrever – pretendo aqui revisitar, aos poucos, antigas verdades, reprocessar sentimentos, o que pode ser entendido de muitas formas... Para mim, é apenas um pouco de vida que se pensa: vida que ainda se percebe e acredita disposta a acertar, embora sempre se admire do quanto pode perder no caminho.
A máquina

“É o mundo que você quer?
Então eu trago ele para você.”

Antônio? Não. Sempre fui da laia dos ímpares desemparelhados.

Eita livrinho simpático.Mas da próxima vez preferiria lê-lo em um lugar onde pudesse rir de verdade.
“O inevitável aconteceu.”

Sendo o “aconteceu” substantivo, e não verbo – como no livro de Sabino.
Come on in, I’ve gotta tell you what a state I’m in
I’ve gotta tell you in my loudest tones
That I started looking for a warning sign
When the truth is
I miss you
Yeah the truth is
That I miss you so

Warning sign, Coldplay

quinta-feira, setembro 08, 2005

Terminei, enfim, o livro de Joyce. Inalcançável? De modo algum. Hermético? Um pouco. O fato é que demorei a me envolver, a me identificar com a história.
Em todos os bons romances, no entanto, parece haver aquele momento que nos derruba, nos puxa para dentro de sentimentos alheios, tornando-os nossos, também, graças à possibilidade da identificação.
Esse trecho do livro me pegou, e não me canso de lê-lo:

(...)

“Escancarou a porta sem tramela do alpendre e cruzou a soleira desconjuntada da cozinha. O grupo dos seus irmãos e irmãs estava sentado em volta da mesa. O chá estava praticamente no fim, e apenas a última água a ferver posta sobre ele restava ainda ao fundo do pequeno bule e dos potes de geléia que faziam as vezes de xícaras. Restos de pão açucarado, em crostas e pedaços, escurecidos pelo chá em folha que caíra sobre eles, jaziam espalhados sobre a mesa. Pingos de chá, aqui e acolá, sobre a tábua da mesa, e uma faca, com cabo quebrado de marfim, esquecida dentro de um moedor estragado.
O triste reflexo, cinza e azul, do dia morrendo, entrava pela janela e pela porta aberta, alisando aos poucos súbito instinto de remorso no coração de Stephen. Tudo quanto a eles fora negado fora dado, sem razão, a ele, que era o mais velho; mas o lânguido clarão da tarde não mostrava em seus rostos traço algum de rancor. Sentou-se junto deles à mesa e perguntou onde estavam o pai e a mãe. Um respondeu:
- Sairamboro paraboro procuraroboro casaboro.
Mais outra mudança! Um rapaz chamado Fallon, no Belvedere, mais de uma vez lhe tinha perguntado, com uma risada maldosa, por que era que se mudavam tanto. Rugas de raiva tinham sombreado a sua testa ao ouvir de novo a risada escarninha desse curioso.
Stephen perguntou aos irmãos:
- Mas por que é que vamos nos mudar outra vez, posso saber?
- Porqueboro oboro proprietárioboro nosboro queroboro botaroboro paraboro foraboro daboro casaboro.
A voz do irmão mais novo, lá do lado afastado da chaminé, começou a cantar ‘Quanta vez na noite calma-a-a’. Um a um os outros começaram a acompanhar até que um coro cheio de vozes estava cantando. Cantariam assim horas e horas, melodia após melodia, canção após canção, até que a última claridade pálida morresse ao horizonte, até que o crepúsculo viesse com suas primeiras sombras, até que a noite caísse.
Ficou esperando por uns momentos, antes que também começasse a ária com eles. Estava escutando, com dó de espírito, o acento agudo de cansaço que havia por detrás de suas fracas e frescas vozes inocentes. Mesmo antes de se prepararem para a jornada da vida pareciam cansados, já, do caminho.
Ouvia o coro de vozes na cozinha ecoar e multiplicar-se através de uma infindável reverberação de coros de infindáveis gerações de crianças; e ouvia em todos os ecos um eco também dessa nota persistente de fadiga e de pena. Todos pareciam cansados da vida antes mesmo de entrarem nela. E se recordava que Newman tinha ouvido essa nota também nas linhas quebradas de Virgílio ‘dando expressão, como a voz da própria natureza, a essa pena e a esse cansaço na esperança ainda de melhores coisas que fossem a experiência de seus filhos e em todos os tempos.’”

Retrato do artista quando jovem, James Joyce

domingo, agosto 28, 2005

Fábio e a vida de estudante – Parte 1

Tenho ido agora, sempre que posso – isto quer dizer: quando não tem cachaça, festinha pra ir, obrigações cotidianas, fome ou qualquer outra coisa que impeça – estudar na biblioteca da Católica. Tudo começou quando a idéia de cursar mestrado deixou de ser uma fantasia besta pra virar um delírio megalomaníaco: parei de apenas “pensar em fazer” e decidi encarar a montanha de livros das bibliografias - pra logo depois ter a certeza desesperadora de que aquilo tudo era só o “indiscutivelmente obrigatório”, mas que para ter uma pontinha de possibilidade de levar essa história adiante, a quantidade de títulos que preciso ler quadruplica, incluindo aí teoria do conhecimento, metodologia de pesquisa e outros assuntos básicos de que minha graduação capenga passou longe.
A última desculpa a ser vencida era a de comprar um caderno, e também esta deixou de ser empecilho há pouco tempo. Na verdade, o que fiz foi adotar uma estratégia que funcionava muito na infância: aproveitar o entusiasmo da compra de um novo material de estudo pra me animar às leituras, tomar nota, organizar “matérias”, definir roteiros e começar sabe-se-lá-deus-por-onde. Pena que, historicamente, essa estratégia nunca deu muito certo e, no colégio mesmo, lá para o segundo mês do ano letivo o caderno já estava todo largado, com metade das folhas arrancadas e com poucos rabiscos que só continham futilidades.
Do mestrado que é bom, aliás, (ou melhor, dos mestrados, porque pra mim nada é simples... mas deixa esse assunto pra lá...) não peguei nada. Com a desculpa cínica de pegar o ritmo e me entusiasmar, estou aproveitando estes dias para leituras de ócio e prazer que, apesar de essenciais, são totalmente improdutivas e - diria até, neste momento – prejudiciais, uma vez que o tempo já é escasso e a disposição menor ainda.
O mais engraçado é que livro da biblioteca, também, não li ainda nenhum. Vou pra lá só pelo ambiente – mais tranqüilo, porém menos aconchegante e convidativo à vagabundagem que minha casa – e para desde já adquirir o hábito. Metódico como sou, decidi terminar primeiro os livros que estavam pela metade antes de começar qualquer coisa (embora a tentação e a falta de disciplina sejam grandes). Eis porque me vi hoje durante três horas seguidas lendo um livro de James Joyce que me acompanha há tempos, e aí cabe um comentário pertinente:
Como se estuda? Como se faz isso? Porque eu desaprendi como se faz, se é que algum dia soube. Fiquei embasbacado pelo quanto foi difícil passar algumas horas sentado, lendo. Eu olhava pro lado, fechava o livro, mexia no celular, via as horas, prestava atenção ao povo que passava, contava quantas páginas já tinha lido, quantas faltavam para terminar o livro – e tudo isso lendo um romance! No fim da noite, já estava me sentindo com um colapso no juízo (vulgo estafa mental) e Joyce não ajudava muito, colocando aqui e acolá trechos em latim e aumentando suas acrobacias narrativas.
Pior é saber dessas histórias de gente que estuda oito, dez horas seguidas, sete dias por semana, sem descanso, com tal maratona já fazendo parte de sua rotina. É... Mestrado parece que é assim, né? Será que ainda dá tempo de se habituar ao estudo prolongado? Por via das dúvidas, amanhã creio que termino “O retrato do artista quando jovem” e vou ler “A máquina”, de Adriana Falcão, leitura água-com-açúcar que parece da melhor qualidade. Eu sei, eu sei, tem as coisas do mestrado. Mas é só por esses dias. Só pra pegar o ritmo e me acostumar à idéia... :p

(continua...)

quarta-feira, agosto 24, 2005

Reflexão em três tempos


“É legítimo que as emissoras de televisão nos atinjam com a força de ‘meios de massa’ mas que nós, apenas espectadores individualizados, não tenhamos a menor possibilidade de ‘reagir como massa’, isolados que somos por esses mesmos meios?”


“No início da estruturação das sociedades industriais instalou-se um aparelho punitivo para selecionar e adequar os indivíduos às normas. No entanto, o desenvolvimento da sociedade organizacional trouxe a necessidade e a possibilidade de implantarem-se formas de controle mais eficazes, que não gerassem tantos conflitos, que implicassem custos menores, funcionassem sem interrupções e permitissem maior previsibilidade dos comportamentos. A partir do séc. XIX pode ser identificada a ascensão dessas formas não diretas e não invasivas de controle, que dispensam a figura do vigilante ou supervisor. Elas utilizam ‘mecanismos que penetram nos corpos, nos gestos, nos comportamentos...’ (FOUCAULT, 1979, p. 150). Esses mecanismos são os controles cognitivos sobre os indivíduos. Na nossa sociedade, se está tão mergulhado em uma rede de vigilância mútua, imbricada nas relações e normas sociais, que somos todos constrangidos a nos comportarmos e agirmos de um modo determinado, internalizando certos valores, e a continuarmos agindo de acordo, mesmo longe de qualquer vigilância direta. Esse é o princípio do poder disciplinador.”


“Segundo Arrow (1974), o enfraquecimento dos laços primários dos indivíduos ocorre a partir do processo de industrialização com o tempo, demasiado longo, dedicado à organização, limitando a preservação e o desenvolvimento de outras relações sociais; a dependência salarial gera um enfraquecimento do capital social dos indivíduos, que passam a concentrar cada vez mais na organização as suas relações sociais.”


Do livro “Organizações, Cultura e Desenvolvimento Local: a agenda de pesquisa do Observatório da Realidade Organizacional”

quinta-feira, agosto 18, 2005

Um.
E o que a gente leva é o conforto de ter feliz o ausente.
Forever yellow skies.
Nem as minhas experiências, nem o meu tão aclamado bom senso. Nada me prepararia para esse aprendizado, para essa realidade que é vivência crua, é necessidade de estar. Nada. Todos os pensamentos bem criados, as ilusões falsas cultivadas em cinismo reconfortante: nada. Nessa curva volto ao início, e ele é doce como uma reflexão não-assistida, espontaneamente sofrida, como o é cada retorno.
Quem haverá de ensinar? Em que memória se perdem...?
"Forever, forever I'll be, forever holding you. "

segunda-feira, agosto 15, 2005

Everyone wants to be found

Domingo à noite, dia 07, após assistirmos ao filme “Sobre cafés e cigarros” – embora no meu caso, aqui, assistir ao filme tenha um sentido bem relativo – resolvemos seguir o caminho mais sugestivo e ir ao Burle Marx para, claro, tomar café. Dentre piadinhas infames do tipo “café forte é café com buchada”, conversamos, fumamos, rimos e ouvimos Billie Holliday. Quarta, em mais um dos nossos encontros boêmios “do bem”, Mari Durant (que por sinal já está concluindo a contagem regressiva para sua ida a Madrid) comentou que chegou a sua casa, naquele dia, e ainda ouviu alguém falar sobre Billie Holliday na televisão - e expressou sua admiração com a coincidência. Eu então disse algo que tantas vezes já ouvi: coincidências não existem. Claro, foi algo que falei mais por falar, apenas pelo prazer de dizer algo do tipo e assumir o ar grave de quem acredita em algo tão sério como a reta determinação dos fatos.
Também com Lavínia e Nathalia comentei a respeito de tudo o que tem assumido feições irrefutáveis: os ciclos, as coincidências, as ações conclusivas, a inevitável urgência dos fatos não mais ignorados e a atual ineficácia de qualquer paliativo para o que é impossível de se ignorar. Estamos todos juntos, nós que somos mais próximos e, no entanto, a alegria é incompleta. Conversamos e, no entanto, parece cada vez mais difícil saber o que acontece a cada um. O ceticismo, a aleatoriedade, o deus-dará não dão mais conta: a vida parece pedir reflexões, significados – e nos ensina.
Não se trata apenas de perder, de ter distante, de abandonar no passado, e é ruim pensar que talvez alguns entendam dessa forma. Porque não é perda: é apenas uma diluição que torna o intenso em incompleto, que transmuta o que nos rodeia de modo que, embora ainda em sua permanência aparente, nos incomoda como um corpo estranho, uma realidade morna e insuficiente, desfalcada e nova. É estar no meio de todos, em uma cidade nova, como quando fomos para São Bento do Una, por exemplo, com todas as possibilidades de divertimento, e ainda assim querer ir para casa, abatido de desgosto e desânimo. Ou ao menos, então, querer estar ali de verdade – e não como um corpo inerte que tem sua cabeça em um tempo suspenso, imaginário e irreal. Ou então é como quando se está sozinho e isso não significa nada: o aprendizado, a introspecção, as vontades, os planos, tudo zerado em pensamentos sem vontade. A unidade que prevalece nos instantes individuais parece vazia: ainda não se aprendeu a viver senão na soma.
Continuamos tomando as ruas, ainda, e talvez com a mesma freqüência. A diferença é que agora cada um parece estar em um tempo diferente, e essas novas realidades que vivemos nem sempre convergem. Por isso é que percebo alguns silêncios, faltas de assunto, comportamentos destoantes. E quando falo em nós, sei a quem me refiro e creio que quem ler estas linhas e me conhecer também entenderá facilmente. Tipo, como quando eu ligo pra Iarinha e ela imediatamente pergunta: “Onde vocês estão?” E eu fingindo que não entendo: “Como assim, Iara? Nós? Eu virei um monte de gente? Por que você acha que eu estou com alguém? A quem você se refere quando diz ‘nós’?” E ela então começa uma lista que abrange boa parte dos dez, quinze, às vezes até vinte nomes que costumam sair juntos, beber, conversar, rir, chorar – e na qual ela, claro, também está incluída. Nem sempre ela acerta; às vezes estou só mesmo. Mas ela tem razão: estamos todos quase sempre juntos. Temos essa oportunidade rara de sermos ‘nós’, ao invés de apenas ‘eu’, ou ‘eles’. E achando um, é até fácil achar os outros. Isso é precioso, com ou sem convergência de momentos. E, francamente, é também muito engraçado!

domingo, agosto 07, 2005

Tanto amar - Chico Buarque

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita

Tem um olho que não está
Meus olhares evita
E outro olho a me arregalar
Sua pepita

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

Ela pode rodopiar
E mudar de figura
A paloma do seu mirar
Virar miúra

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita

Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito

Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico


Para pessoas que têm o olho e o sorriso bonito, e que vivem.


Durante um bom tempo – há uns seis, talvez sete anos atrás – só havia um tipo de música que eu escutava: rock psicodélico. Lembro que, de tudo em que estive imerso nesse período, ninguém deixou uma marca tão grande de fascínio e influência em mim quanto Janis Joplin. Era triste e impressionante descobrir o desenrolar da história de alguém que, durante sua vida, teve que lidar com os problemas da falta de aceitação, compreensão e tolerância por parte daqueles que a rodeavam. Mais que isso: era tocante e brutal reconhecer, por meio de uma história contada em palavras e música, por meio de uma experiência refletida e alheia - apesar de, no entanto, ironicamente inteligível - o quanto um ser humano podia ser minado, enfraquecido em suas convicções, fragilizado em seus sentimentos e levado ao colapso emocional por uma sociedade intolerante, reta e excessivamente rigorosa em seus modos de agir e nas suas concepções do que seriam virtudes desejadas ou comportamentos condenáveis. Ainda, era inevitável acreditar em como há certas pessoas que parecem estar sempre perdidas, lutando para estabelecer convicções duradouras e buscando, quase sempre em vão, bases sólidas nas quais possam encontrar algum tipo de apoio.
Não era nem a música, o rock ou o show business que mais me atraíam, tampouco os boatos, a extravagância, a fama. Eu gostava mesmo era de ler sobre como Janis, na adolescência, costumava subir com seus amigos ao alto das torres petrolíferas do Texas e na Ponte Arco-Íris, à noite, e que, ao longo da madrugada, permaneciam lá, como marionetes, “como pequenos fantoches sobre aquela ponte monstruosa”, bebendo, ouvindo jazz e descobrindo os antigos cantores de blues. Gostava também das histórias de quando Janis trabalhava no boliche e, ao sair do trabalho, à meia-noite, pegava o carro e algumas cervejas e ia com seu amigo Jack Smith ao píer, beber e conversar durante a madrugada; ou quando saiu de casa e foi para a universidade, em Austin, e começou a cantar em bares locais, integrada à vida boêmia da cidade; ou, ainda, quando chegou a San Francisco, a capital do flower power, e foi morar em uma comunidade em Haight Ashbury, epicentro da cultura hippie.
Gosto também, ainda hoje, de ler Myra Friedman, sua assessora de imprensa, contar o último encontro das duas, quando Janis, pouco antes de sua morte, falou com incomum ternura e franqueza a respeito de seus pais e da sua cidade natal, Port Arthur, e revelou uma de suas últimas idas à igreja. Gosto de perceber a gravidade do momento e pensar em como pequenos instantes podem vir carregados de significação - uma saída para fazer compras e uma pausa em um bar, um último encontro; acreditar que uma simples conversa está repleta de subtextos; que comportamentos tão aparentes escondem questões sérias e não reveladas; que uma conversa trivial pode encobrir um instante de vital cumplicidade e pode suprir, ainda, uma urgência de compartilhar, de estar junto, de sentir-se próximo a alguém.
Janis era uma menina. Vinte e sete anos, apenas, quando faleceu. Ingênua em alguns aspectos, irresponsável e imatura em outros, magoada, ferida mas ainda esperançosa, tentando viver e disposta aos riscos que enfrentaria ao longo desta busca. Por isso procurei, para colocar aqui, uma imagem não do mito em que forçadamente a transformaram ou, pior ainda, do estereótipo pobre e datado da roqueira drogada, hippie-símbolo do sexo, das drogas e do rock and roll. Como não achei, no entanto, uma fotografia que represente bem a imagem que busco, coloquei esta, da Janis cantora, ao microfone, mas com uma sutil expressão de delicadeza – expressão da menina que foi e que construiu um mundo, uma história, uma persona, e os viu, aos poucos, desmoronar.

“A revolta começou despercebida e talvez na própria mente de Janis não tenha sido mais do que uma sombra estranha, um olhar mais demorado para o céu, uma bela noite, um poema, um perturbador arrepio da carne, tudo muito passageiro, desaparecendo com o sepultar das recordações. Talvez uma pergunta: “Por que não?” E uma resposta: “Porque.”
Enterrada viva, Myra Friedman

domingo, julho 24, 2005

Ainda sem computador.
Vontade de escrever.
O mundo virtual é excludente.


E blogs viciam.

sábado, julho 09, 2005

but it did happen

Esta idéia nunca me pareceu tão verdadeira quanto agora:

"We may be through with the past, but the past is not through with us"
Magnolia, visto mais uma vez essa semana

quarta-feira, julho 06, 2005

Sem computador. Fora do ar, fora do mundo. Out of season.
Enquanto isso, fazendo e pensando... coisas.
Ah... E rindo sozinho, correndo atrás dos ônibus, planejando conspirações e fazendo suposições estúpidas acerca do comportamento alheio - "com a calma que Bilac não teve para envelhecer".

segunda-feira, junho 27, 2005

Os tênues laços

O que significa “passado” e “rebelar-se”. Mais: o que significa aceitar. Aula prática: o que chamamos de desencontro. Pífano e pólvora. Trégua: porque a guerra mais exaustiva é a que travamos contra nós mesmos. Presença ausente e duradoura. Vanilla sky.

Pavão na neve, mar de celofane, filosofia virtual e reincidência de antigas preocupações - porque somos todos imperfeitos.


O que te faz feliz?

quinta-feira, junho 16, 2005

E agora que, para tudo isso que agora estou sentindo, não há um filme?

quarta-feira, junho 15, 2005

Você já foi peão?




Um dia a areia branca
Seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante