quarta-feira, abril 04, 2007

a medida das coisas

As pessoas ansiosas sabem o quanto custa esperar. Os incorrigíveis sabem o quanto custa sua falta de parcimônia, as renúncias que fazem por culpa do seu eterno "em cima da hora". As descompensadas sabem as penalidades que sofrem por não saber agir de outro modo a não ser com o coração suspenso e a respiração presa, esperando o próximo minuto, no eterno ato de fazer mil e um planos sem, no entanto, medir a alegria, a tristeza, a possibilidade em outro ritmo senão no imediato, na rapidez do agora.
Eu queria um tempo que se expandisse para todos os lados, um passado que se fizesse bonito apenas por se deixar guardar em forma de vida, em forma de sentimentos resolvidos, e um futuro sereno o bastante pra se reconhecer como chance e risco. Queria também não só esse tempo vertical, mas um mais sensível, que se alarga, se expande em todas as direções possíveis.
Eu quero um tempo bonito como o da música, que é único sem ser reto - vivido próprio ritmo em que se faz acontecer. Mas, acima de tudo, eu quero um tempo que me leve até aquilo que desejo, mesmo eu não conhecendo sua forma, mesmo que eu não saiba chamar-lhe pelo nome.
Eu quero essa coisa bonita e preciosa que não faço a menor idéia do que seja.


"Tempo tempo mano velho
Falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã
Tempo tempo tempo mano velho
Vai, vai, vai...
Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final"

sábado, março 24, 2007

para que não esqueça...

Todos nós temos pendências, assuntos não-resolvidos, e há muitas conversas que eu também gostaria de ter, muitas oportunidades de me explicar, de agradecer, de lamentar e pedir desculpas. Mas, para mim, há uma em especial. Na verdade é quase uma dívida, e ela só será quitada quando as circunstâncias permitirem que tudo seja bem entendido. Aí sim poderei reafirmar importâncias e afetos, corrigir as inúmeras falhas cometidas e esperar, sinceramente, que possa agir à altura de toda a beleza que me foi mostrada. Por isso chamo de dívida - porque o mínimo que precisamos fazer é merecer o que recebemos.
Mas, por enquanto, ainda espero. Porque há conversas muito difíceis, como se disse naquele diálogo final de um belo filme de Almodóvar:

- Algún dia usted y yo deberíamos hablar.
- Sí, y será más sencillo de lo que cree.
- Nada es sencillo... Soy maestra de ballet, e nada es sencillo...

quarta-feira, março 14, 2007

glossário do amor líquido

abrir relacionamento: uma espécie de agendamento de chifre, sabe?

coisa fina, como vocês podem ver...

contra o amor líquido

Tristeza pra quê? Quando está tudo certo, quando tudo é promissor, bonito, novo e cheio de entusiasmos, a tristeza não poderia nunca entrar. Então por isso é que evocaremos todos os sentimentos totalitários, intransigentes, ditatoriais e perversos para fazer valer a nossa vontade e mandar essa indesejável presença embora. Como toda limitação imposta, claro que tamanha sanção tem lá suas violências: pensamentos inoportunos, recaídas infames e pequenas reações adversas são previstas – mas esperamos que perfeitamente combatidas, com toda a munição que conseguirmos carregar.

Tomaremos então mais algumas cervejas, falaremos da vida e sorriremos muito – mesmo que em descompasso com uma certa inquietação por dentro -, porque temos uma vida para viver e nossa maior beleza a gente tem por dentro e guarda (uma beleza que é como aquele tecido do episódio do Chapolin – lembram? - que só os inteligentes é que podiam ver); está protegida contra a mesquinhez e só será mostrada para quem a gente bem entender – e desde já enfatizamos que temos o pleno direito de não a mostrarmos nem tão cedo, pois cada um tem suas pequenas feridas e todo ser humano do mundo merece, pelo menos de vez em quando, acreditar que não deve baixar a guarda e que ninguém é merecedor de tamanho voto de confiança: revelar a beleza escondida nos nossos mais esperançosos e delicados sentimentos.

Assim, até que as mágoas, os traumas de infância – causados talvez pela danada da Aurora, aquela pedófila! huahauhua – e as ressacas morais vão embora, continuaremos sendo apenas loucos correndo pelas ruas devidamente munidos de uma boa garrafa debaixo do braço (para beber ou tacar no dente dos insolentes, não é verdade?), lamentando a fluidez da nossa modernidade, surpreendendo-nos com a transitoriedade dos nossos sentimentos, remoendo nossa persistente - porém consciente - solidão e celebrando a amizade, que é nossa melhor resposta à incerteza desses amores líquidos que os acasos, atalhos e inconstâncias dos nossos caminhos nos reservam.

p.s. Para Lavínia e Joana, em doses iguais de afeto, copos cheios e cartas sobre o futuro nas mesas. (E porque desânimo besta a gente mata acompanhado, em noites de sushi e de bar :p).

***


These things I've found,

This girl,

These sounds,


These days are alright,

These days,

These nights.


These things almost make me smile,

These things almost make me smile,

These things

Almost make me smile.


These walks in this town,

These things,

I've found,


And this girl, she's alright

For these days

And these nights.


These things almost make me smile,

These things almost make me smile,

These things

Almost make me smile.


Seinfeld, and IQU,

New York

And Beck too,


South Park, and space men,

And this girl

Who's my friend.


These things almost make me smile,

These things almost make me smile,

These things

Almost make me smile.

facilitando desfechos

Sabe aquela coisa de querer sempre o inconcluso e aprender a valorizar e a amar bem as nuances? Pela primeira vez na vida eu discordo: um pouco de pragmatismo faz bem, um mínimo de lucidez é necessário e, além disso, penso que é uma lição de vida aprender a fazer uso dos pontos finais - aprender a enterrar de uma vez a bezerra, ao invés de ficar chorando indefinidamente todas as suas inúmeras mortes.

sábado, março 10, 2007

fragmentos de viagem

Andando por lá eu lembrei que uma das coisas que muito me agradam naquela terra é que praticamente em qualquer um dos pontos da cidade se pode olhar para o horizonte e ver as serras que cercam a região. E engraçado é que eu só comecei a reparar nisso depois de um tempo, quando comecei a dar mais valor a essas coisas que acontecem quando a gente muda o olhar – jogando-o pra frente, pra fora, pra cima.

Claro, olhar pra frente sempre ajudar a enxergar melhor certas coisas que vão um pouco além das nossas fuças.

***

Também nessa história de olhar é que eu fiquei mais uma vez com a impressão de que as fachadas das casas são sempre muito parecidas, de como é curioso que depois de tantos anos elas ainda me parecessem estranhas e que, olhando-as isoladamente, – em uma fotografia, por exemplo, ou sem ter seguido com os olhos o caminho percorrido para saber onde se encontram – eu provavelmente não saberia dizer a que rua ou bairro pertencem.

Dessa vez, no entanto, reparei em algo surpreendente para quem viveu por lá durante dezessete anos (mais algumas visitas permeando os outros percursos iniciados depois): das calçadas eu me lembro, claramente! Fui andando e pensando: “por aqui vivia aquela menina da escola. Mas onde? Todas as casas parecem iguais...” Só no tracejado das calçadas eu achava: um canto de parede, uma grade de ferro, uma calçada de um certo jeito, elevada, e o esgoto margeando – “opa, é esta!” Foi aí que percebi que devo ter passado mesmo muito tempo da minha vida observando o caminho dos pés, olhando pra dentro. Os desenhos das calçadas, conheço-os todos, e se é verdade que me perderia observando casas, horizontes e ruas, digo por outro lado que, pelos traços dos caminhos, certos buracos, falhas, elevações, variações de mosaicos e cores, eu sempre me acho; recupero algumas andanças e relembro outros dias.

***

Essa foi engraçada! Bom, minha avó é feirante, trabalha aos sábados e segundas em duas cidades distintas, próximas à nossa, vendendo suas coisas – coisas meio de interior mesmo, muitas delas Made in Caruaru. Pois bem, disso eu sempre soube, e tenho ótimas lembranças dos dias em que cheguei a acompanhá-la no que na época eram verdadeiras aventuras: acordar às 3h30(!!) da manhã, o cheiro do café, pegar o caminhão às 4h30, montar a banca, o almoço, as pessoas, as conversas... Pois bem, o que eu nunca soube é que em uma dessas cidades – cuja feira acontece aos sábados – a banca da minha avó ficava na frente do necrotério. E agora nem lembro... Como soube disso? Ah, sim, era algo como uma conversa sobre a necessidade de não apenas estudar com afinco, mas de realmente se esforçar para que as coisas aconteçam – conselhos importantes que sempre recebo. Minha avó se admirava de como sempre havia estudantes e médicos cubanos que se picavam lá de Cuba pras nossas bandas só pra ver os defuntos fresquinhos. “Coisa de quem se interessa mesmo, né?” Ela, por outro lado, nunca precisou se esforçar muito: sempre podia ver ali pertinho os que chegavam aos sábados – ia olhar todos!

Disso eu juro que nunca soube. Bom, acho que deveria ouvir mais as histórias da minha família...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

the life pursuit

O que resta depois de um descomeço? Vontade de concha, ou de um casco. Conclusão óbvia: as tartarugas é que são felizes. Eu hoje invejo as tartarugas, os caracóis e as emas, por essa sua felicidade estúpida.

"Oh, if I could make sense of it all!
I wish that I could sing
I'd stay in a melody
I would float along in my everlasting song
What would I do to believe?"

E sim, eu queria viver em uma melodia. Somente.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

autismo virtual forçado

Algumas almas bondosas já me avisaram que o meu blog tá uma merda: ninguém comenta porque não pode, e a tendência é continuar assim, autista, já que eu não faço a menor idéia de como se conserta. Por enquanto ele continua assim, pairando na liberdade solitária anunciada no post anterior. Neste sentido, ele não está muito diferente do "tempo real".
Ora, vejam: a internet também imita a vida.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

o que faz bem para a alma

"Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."


"you were only waiting for this moment to be free..."

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

sapupara limão clube

Eita, lá vem mais um. Adeus à comoção dos poemas da negra do “modernoso” paulista e ao carnaval sem nenhuma alegria de Manuel Bandeira. Esse ano é proibido pensar na morte da bezerra: nada de comoções.

Veremos se a equação “gosto de liberdade + sapupara = bagaceira” está correta ou se algum espírito melancólico-carnavalesco vai colocar a perder a nossa arruaça. Com a graça de todos os Recifes e de todas as Olindas, não. Mas, vejamos.

Agora só quarta.


Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber
Se você vai brincar
Ah! meu bem sem você
Não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar

***

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Moraes
Adeus, adeus, minha gente
Que já cantamos bastante...
E Recife adormecida
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

a negação e a legitimidade de alguns sentimentos

Eu compartilho do sentimento de perplexidade e revolta que toma conta de tantas pessoas, diante das recentes atrocidades das quais temos tomado conhecimento nestes últimos dias. Eu também me sinto desolado. Acredito, no entanto, que diante de tais fatos convém repensar e fortalecer as bases sobre as quais estão estabelecidas as relações de convivência e as instâncias a partir das quais se funda a vida em sociedade.

De nada nos serve o clima irracional de caça às bruxas. Afinal, a parcialidade de uma mídia que decide qual crime hediondo será motivo de comoção nacional e quais passarão em branco é no mínimo suspeita e nos leva a questionar sob que critérios se busca formatar a nossa revolta, e a partir de que perspectiva. Parece-me claro que, por mais brutal que um crime possa parecer, as formas de reagir a ele estão condicionadas a questões como o tipo de indivíduo que o comete, com que propósitos e, acima de tudo, sobre quem recai este ato. Resumindo em uma pergunta: que concepções políticas, posturas e crenças estão implicadas neste “recorte” a partir do qual a opinião pública enxerga os fatos e define sua forma de posicionar-se, reagir e contra-atacar?

Na entrevista "exclusivíssima" concedida ao Fantástico, no último domingo, pelos pais do garoto morto no Rio, o formato exibido, o teor de algumas perguntas e a ênfase em determinadas falas e respostas, como aquela proferida pela mãe do garoto e repetida à exaustão de que "eles" (os criminosos) "não têm sentimento", "não têm coração", demonstram como o grau de atenção e seriedade posto em cada um desses eventos chocantes varia e está condicionado a fatores que não devem ser ignorados, inclusive interesses diversos.

Eu sei o quanto é delicado fazer este tipo de crítica em um momento em que as pessoas estão convencidas de que a revolta é necessária, de que todos os limites foram quebrados e de que se faz necessário questionar o grau de perversidade e o caráter irrecuperável de certas pessoas. Sim, eu também fiquei chocado e considerando a possibilidade de que alguns indivíduos são extremamente danosos à sociedade e - porque desprovidos de amor e de um mínimo de espiritualidade - talvez sejam também irrecuperáveis. Apenas chamo a atenção para um ponto importantíssimo: o depoimento da mãe, por mais comovente e justificável que seja, dado o momento e as circunstâncias, é equivocado. Porque eles, os criminosos, têm sentimentos sim: sentem ódio, indiferença, desencanto, dentre muitos outros. Um ódio de classe de tal modo rancoroso que não se trata apenas de tomar aos outros o que lhes falta. Trata-se, sim, de praticar atos perversos contra os diferentes: os que possuem uma vida melhor, mais feliz e cheia de possibilidades que as suas. Daí também porque a atitude aparentemente injustificável de matar mesmo aqueles que não apresentam reação, de agir com perversidade mesmo quando isso é absolutamente desnecessário, de matar uma criança mesmo quando objetos de valor, dinheiro e carro já foram entregues, se repete com freqüência vertiginosa. A causa é o ódio: um sentimento forte e, ao contrário do que se busca argumentar, muito humano.

Assim, está claro que, por mais comovidos que possamos ficar com a brutalidade cometida contra este ser inocente e indefeso, não podemos esquecer que esta barbárie não é mais novidade para ninguém e acomete crianças e jovens em todos os lugares, sobretudo nas periferias, nas margens dos grandes centros. Igualmente impossível de ignorar é o fato de que o crime foi cometido por menores pobres contra uma criança de classe média – tudo isto em um momento em que as elites, cientes dos efeitos desastrosos da desigualdade e cada vez mais encurraladas e ameaçadas em sua ilusão de felicidade – clamam pelo confinamento absoluto dos marginais, como a última tentativa de se obter um sossego impossível. A redução da maioridade se apresenta, assim, como mais um efeito paliativo de “higienização social” que busca segregar e isolar os excluídos. Estes últimos, por sua vez, parecem cada vez menos dispostos à resignação e mais desacreditados com relação aos princípios legais e morais sobre os quais a coletividade busca se estabelecer.

É evidente que a legislação precisa ser revista e que a Justiça, em nosso país, anda muito mal das pernas, desde sempre. Trata-se, no entanto, de fortalecê-la, cobrando sua efetiva capacidade de estabelecer a ordem e garantir o convívio - jamais aprofundar os mecanismos que geram as desigualdades e os artificialismos de uma tranqüilidade fundamentada na "ética global". Neste sentido, recorro às idéias de Beatriz Sarlo em seu livro "Tempo presente: notas sobre a mudança de uma cultura", surpreendemente apropriadas ao tema:

“Os meios de comunicação colocam-se ao lado das vítimas, pois elas, as vítimas, não estão interessadas na construção de um caso judicial baseado em provas e que dê todas as garantias processuais e probatórias aos suspeitos de delinqüir; pedem, simplesmente, um castigo direto e sumário. E expressam isso quando afirmam, diante das câmeras de televisão, que os delinqüentes são animais e, portanto, não têm qualquer direito. Esse discurso é compreensível quando parte das vítimas. Elas sentem a dor da perda ou a humilhação da violência sofrida e seu discurso não é baseado na perspectiva da existência de um princípio de justiça para todos. Só mesmo de longe, à distância dessa dor, é possível garantir a imparcialidade do julgamento. No entanto o julgamento tem sido feito pelos meios audiovisuais de acordo com os costumes dos regimes não-republicanos: sumariamente. Por sorte, eles não são instâncias judiciais verdadeiras. A pior Justiça, a mais lenta e mais torpe, é preferível a um veredicto populista, no qual a dramatização demagógica do crime resulta em uma ausência total de garantias. A Justiça deve sempre se basear em garantias, e os meios audiovisuais são, na prática e na teoria, contrários às garantias. Comportam-se como vítimas, e não o são. Uma reação compreensível quando vem de vítimas indefesas passa a ser agitação antiinstitucional quando parte dos meios de comunicação.

As vítimas exigem do Estado o que este deve dar – segurança – e exigem como podem. Os meios de comunicação tendem a colocar-se no lugar imaginário de uma das esferas do Estado, a da Justiça, e não podem nem distribuir justiça nem garantir segurança. Além do mais, não cumprem sua tarefa de informar razoavelmente”.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

e nana dança...

Duas cenas têm sido recorrentes em meus pensamentos, nos últimos dias – algo como uma tradução imagética para alguns sentimentos. Coincidentemente, ambas são protagonizadas por mulheres. A primeira delas é recente: Hermila e sua amiga se refrescam à porta da geladeira no novo filme de Karim Ainouz, O céu de Suely. No entanto, nada mais óbvio: que recifense pobre não tem sentido vontade de literalmente entrar em uma geladeira nesses dias de calor infernal?

A outra é de um filme de Jean-Luc Godard, dividido em doze atos. Em um deles, a prostituta Nana, que acompanha seu cafetão em um encontro, durante o seu “dia livre”, está entediada. Vai até a radiola de ficha e coloca uma música: ela sabe que precisará se divertir sozinha. O nome da cena? Se não me engano, algo como “a felicidade não é engraçada”.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

trinta

Em uma coisa, pelo menos, eu concordei com o Banco do Brasil: seu marketing de fim de ano, que está construído sobre a idéia de que “a vida é feita de pequenas contagens regressivas”. Aliás, não deixa de ser uma ironia que eu tenha dado o ar da graça por estes dias trajando uma camiseta com estes dizeres oficiais, no meu trabalho. A minha contagem começou oficialmente, hoje, e vai de 30 a 1. Depois disso, para o bem ou para o mal, muita coisa muda em minha vida, e é com muito otimismo que eu penso que, talvez, só por essa possibilidade que nos é dada de mudar o que está colocado em nosso entorno - as nossas condições de vida - precisamos celebrar a vida. A possibilidade da mudança, da libertação, do novo; o medo e a felicidade de descobrir o nosso poder de fazer grandes ou pequenas destruições, de saber que nossos gestos surtem efeitos mais ou menos perceptíveis e que, exatamente por isso, somos tão responsáveis por cada um deles.

Há bastante tempo eu deixei de rezar, mas há uma prece que eu nunca abandono: uma prece leiga, laica e torta que pede, a cada nova reviravolta, que elas não cessem nunca, que eu jamais encontre apenas o previsível, o esperado, a temível e sedutora “estabilidade”. E sei que há um preço alto a pagar por essa possibilidade das rupturas e recomeços: pois toda época tem algo de bom e de ruim, e não há nenhuma garantia de que o bem permaneça e que somente o indesejável se afaste. Podemos mesmo, vez por outra, perceber o tempo funcionando como uma peneira ao contrário, detendo o que nos fere e levando furtivamente o que nos é precioso. Mas faz parte do risco e da graça, para quem sabe jogar: pôr à prova o que há de bom, esperando o que está por vir e apostando no que é diferente, acreditando-o melhor. É também um ato de confiança e generosidade, este: renegar o indivíduo que somos hoje acreditando na nossa capacidade de sermos melhores; que o mundo nos trará novos presentes e não nos deixará de mãos vazias.

Engraçado mesmo, nisso tudo, é também perceber como tudo parece mais entusiasmante, fantástico e cheio de promessas quando imaginado em pleno desespero. Sim, pois os louros da vitória nunca são tão perceptíveis e gritantes quanto em nossos planos e fantasias: quando conseguimos mal podemos acreditar, e é tudo tão leve e sutil que, com um pouco menos de atenção e cuidado, quase podemos deixar passar em branco e esquecer o quanto nos custou e o quanto é importante. O medo e o condicionamento a que nos submetemos são tantos que só se pode explicar a vertigem e a cautela com que celebramos esta energia vital que surge das mudanças por meio das metáforas, como àquela a que recorreu Mari, ao lembrar dos bois que, mesmo depois de libertos, continuam andando em círculos ao redor do moinho que faziam movimentar, no filme Abril despedaçado. Estão soltos, mas só sabem andar em círculos, e lhes custa olhar para os lados e imaginar que podem fazer diferente, que só lhes basta mudar o passo.

A adrenalina de tomar uma decisão importante e saber que a responsabilidade é toda sua é uma espécie de “estresse bom”, como disse um amigo: a preocupação com as conseqüências que sobrevém a uma escolha definitiva; o friozinho e a vertigem que sentimos quando abrimos mão de algo importante e precisamos fazer valer a pena a escolha; e, acima de tudo, o imperativo pela criação de novas alternativas que façam frente às que irremediavelmente deixamos para trás.

Sim, não há dúvida: é o ano novo bem ali, logo depois do carnaval, mas desde já e sempre, em cada dia.

domingo, janeiro 07, 2007

o melhor do ano



Se em 2005 o melhor filme que eu vi nos cinemas foi aquele atentando terrorista chamado Caché, no ano passado eu penso que a melhor coisa que passou por aqui foi o novo filme de Wong Kar-Wai, 2046, que deixou muita gente embriagada de amor e suspirando pelos cantos, nos cinemas, nas ruas, nos bares e nos quartos, com sua própria viagem a um espaço/tempo distante e bem particular onde as memórias e as sensações amorosas estão vivas.
Eu tenho a impressão de que, da mesma forma que me coloquei em maus lençóis ao fazer de forma tão veemente a propaganda do filme de Haneke e mobilizando pessoas para irem ao cinema assistir - e colhendo as reações mais diversas depois - também poderei ter problemas com este aqui. Então aviso logo aos destemidos que as películas desse chinês estão sempre à beira da pieguice: é algo como uma embriaguez amorosa mesmo, uma exasperação dos sentidos, com direito até mesmo a algumas idéias repetidas à exaustão - como aquela do segredo soprado no buraco da danada da árvore - o que pode aporrinhar a paciência dos menos suscetíveis ao romantismo sem limites.
Vale ressaltar também que essa obra pode ser péssima para a saúde, principalmente se você está tentando largar o cigarro. Em 2046, fumar é uma experiência quase estética, acho - assim como em seu filme anterior, "Amor à flor da pele".
Na verdade, os filmes de Wong Kar-Wai são como um bom brega daqueles das antigas: ou você embarca na dor de cotovelo ou acha um exagero só, tudo aquilo. A maior prova disso é a presença inusitadíssima da música "Perfídia", na trilha do filme.
Não é pra qualquer um não, viu? É coisa pesada: bonita e romântica de doer.
Ai, ai...

sábado, janeiro 06, 2007

apelo

LAVÍNIA, COME BACK!

WE LOVE YOU!

sábado, dezembro 30, 2006

a confirmação de ontem

Tenho cá comigo a impressão de que Recife mofou.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

catarses coletivas, singelas cortesias globais

Em um certo dia, há pouco mais de dois anos, quem passasse pela estreita Rua do Lazer - lugar que agrega diversos estandes e barracas de alimentação e amplamente freqüentado pelos universitários que circulam pelos prédios e instalações da Universidade Católica de Pernambuco - testemunharia um inusitado evento certamente vivenciado em diversas outras partes da cidade e do país, tanto nos espaços públicos quanto no aconchego de milhões de lares brasileiros. Um público eufórico e radiante, digno dos grandes espetáculos desportivos de Copa do Mundo, se acotovelava, aglomerado, em frente aos televisores dos pequenos estabelecimentos dispostos pela rua, assistindo ao que seria o mais recente mega-acontecimento da grande mídia brasileira: um acerto de contas regado a muita porrada entre ninguém menos que Laura e Maria Clara, personagens arquetípicas (ou seriam estereotípicas?) que ocupavam os postos de “vilã” e “mocinha” na pedante novela Celebridade.

Aos gritos, urros e outras interjeições de euforia e espanto, os passantes disputavam, ávidos, cada centímetro quadrado em frente aos aparelhos, diante dos quais apenas vez por outra olhavam para os lados, mas sempre sorrindo, fazendo comentários, vibrando, quiçá desfiando apostas e palpites. Em uma experiência estranhamente coletiva, por meio da qual compartilhavam problematicamente seus desejos de superioridade e suas noções moralistas do bem e do mal, os presentes explicitavam seus códigos duvidosos de justiça em uma diferente roupagem, amparada em uma nova versão das convenções maniqueístas das narrativas nacionais, dessa vez assumindo alegremente a convicção de que os bonzinhos tinham mesmo era que sentar a porrada nas maléficas criaturas vilãs que habitam o caricatural reino do Projac.

Muito distante do ultrapassado conceito da mocinha ingênua e desafortunada que sofre quieta até o fim, a protagonista pop, fashion e umbiguista Maria Clara Diniz - do alto do poder já sugerido pelo seu ostensivo duplo-nome-próprio-e-sobrenome - mostra as suas garras e, para delírio do público, parte para o inusitado acerto de contas – por algum motivo obscuro do qual não cheguei a tomar conhecimento. Nesse encontro meticulosamente arquitetado pelos operários-padrão do mundo fantástico da Rede Globo – estes que, juntos, ajudam a incutir no imaginário popular a noção de um cotidiano delirante regado a praias, Leblon, pequenos luxos, grandes intrigas e uma inacreditavelmente pequena dose de trabalho e responsabilidade – não havia espaço para defesa, tampouco para uma disputa equilibrada: a atitude revanchista e descaradamente moralista de punir a diabólica personagem de Cláudia Abreu implicava na imobilização do alvo, na sucessão vertiginosa de golpes e, por fim, na demonstração ostensiva de poder que se caracterizaria como clímax da catarse coletiva, na qual nos é apresentada a imagem da cambaleante e surrada vilã, realçada com todas as cores fortes que uma violência selvagem e punitiva desenha no rosto de suas vítimas. Cláudia Abreu, de olho roxo e boca rasgada, sai de cena com a sensação de mais um dia cumprido.

Como no universo de valores e sentidos mercadologicamente legitimados tudo o que dá certo é reproduzido à exaustão, o pega-pra-capar novelístico que bateu recordes de audiência deu origem a um sem-número de acertos de contas produzidos em série e cada vez mais alimentados pela máquina auto-referente de programas televisivos, noticiários e impressos da indústria do fútil, tão próspera em nossas terras. Esta semana, eu estava no trânsito quando o rádio noticiou mais uma sessão de espancamento em horário nobre, cortesia do mestre dos barracos globais Manoel Carlos. Em breve, o locutor dizia, o mosca-morta Alex iria esbofetear a desumana – no sentido mais ridículo do termo – personagem de Lília Cabral. Assim, o momento-porrada que foi sempre ansiosamente aguardado e desfrutado por boa parte do público global se transformou em elemento obrigatório das novelas, repetido ad infinitum a cada nova produção. Nada disso chega a ser novo, de fato: a baixaria e a valorização do olho por olho são lugares-comuns em certos discursos midiáticos. A novidade é que, dado o seu grau de eficácia, a coisa se alastrou por todos os núcleos das novelas, de modo que até mesmo os coadjuvantes agora têm direito ao seu merecido duelo.

Cabem aqui duas questões. Em primeiro lugar, nos resta saber até quando os espectadores irão ver alguma graça nestes momentos-catarse em que empregados ofendidos, populações massacradas, cornos indignados e outros seres com motivos para revolta se sentirão verdadeiramente vingados ao testemunhar a “surra aos malvados” encenada em seus televisores. A segunda pergunta, mais sombria: o que virá depois, para saciar este senso de justiça que leva o acerto de contas para a esfera do privado e alimenta discursos fundamentalistas sobre bons e maus, definindo o tratamento destinado a estes últimos por cada indivíduo, em seu moralismo duvidoso que conecta justiça e desforra?

A lógica da repetição, fundamentada na reprodução das fórmulas de sucesso e potencializada pelas políticas de baixo risco que permeiam as tentativas no mercado televisivo de agradar ao seu público consumidor, transformam os eventos espetacularizados do horário nobre em uma sucessão de clichês fabricados e “grandes acontecimentos” redundantes. Estes continuam a render até que, por sua própria obviedade e natureza descartável, acabam por cansar até o mais passivo dos espectadores, sempre sedento por novas remessas de catarses coletivas. É assim que a fábrica global de compensações cria, recria e veicula suas fórmulas exaustivas - e, não raras vezes, sexistas -, desafiando a indulgente cumplicidade de seus fiéis interlocutores e transformando tudo em mercadorias de emoção barata: até uma “boa” surra.

domingo, dezembro 03, 2006

enquanto isso

“- Meu Deus, por que me abandonaste?
- Porque eu não existo."

quinta-feira, novembro 23, 2006

a-histórico

Recife ingressou em um tempo parado. Não sei há quanto tempo foi isso, e nem poderia saber, afinal, o tempo parou e, desde então, não se conta mais. Como pequena cápsula hermeticamente fechada, o apartamento onde vivo, no entanto, sofre descompassadamente a falta daquilo que chamam de “condições normais de temperatura e pressão”. O calor aqui é insuportável e os ouvidos, enganados, por vezes estalam reclamando uma altitude inexistente. Mas o tempo aqui não chega: está tudo suspenso. Aqui não há história, o telejornal é capricho e ficção, e não é que este dia seja igual a ontem: é que ele não parece dia, parece coisa que não se conta.
Olho pro aparelho de som e penso em escutar algo, mas não coloco nada. Poderia ser a velha indecisão de não saber o que ouvir, mas não: é falta de vontade mesmo. E aí me ocorreu essa associação engraçada: estou sem paciência para música, que é a arte temporal por definição. Seria coincidência ou eu realmente estou confortável e acomodado, circunscrito em um espaço sem sucessão de horas? E o espaço sem tempo, é o quê?
Tenho visto muitos filmes, mas isso é diferente: o filme é um instante irreal, meio passado, meio futuro, talvez imaginado, mas nunca um tempo concreto, histórico e vivo. É como uma amostra de fatos e instantes, que se pode viver, ainda que não vivendo, e que é feito de experiências que, não raro, podemos guardar pra mais tarde - para quando o relógio voltar a andar.
A parede da cápsula, voltada para o poente, emana um ar quente e doentio à tarde que molha as roupas e inviabiliza toda e qualquer tentativa de pensamento, refrescado apenas no artificialismo heróico da geladeira. Penso que nesses dias os recifenses ficam perambulando, enfraquecidos e fatigados pelo calor, até o momento em que se amontoam em camas impossíveis implorando vapores quentes dispersados pelo ventilador. Nesses dias a gente até se sente mesmo como o escritor daquele filme cubano: tropical e subdesenvolvido. Lembrei da afirmação dele, quando diz que se sente já velho e podre, e que deve ser porque tudo amadurece e apodrece muito rápido nos trópicos. Viver por estas bandas às vezes parece mesmo impossível, perecível. A cidade está realmente um inferno.



sábado, novembro 04, 2006

uma de menos

"o que importa, na verdade, é este instante entre tudo o que já foi e o que ainda será".

sábado, outubro 21, 2006

dois mundos

"No porão da minha cabeça dois gigantes se enfrentavam: de um lado, o gelo da covardia burguesa; do outro, na parte oposta do eu, cozinhava-se uma idéia herética.
No combate entre essas duas forças pendulava eu, horrorizado."

Tom Zé, Tropicalista lenta luta

quinta-feira, outubro 05, 2006

dos males, o primeiro que apareceu

Nada melhor para alguém meio idiota do que um idiota completo.

Ou pior - não decidi ainda.