domingo, janeiro 30, 2005

Aleatórias

- 1 -

Depois da experiência passada um dia desses, ia dizer que chuva só não é bom quando é preciso sair pra trabalhar.
Mas o certo mesmo é dizer que nem quando chove o meu trabalho presta. :p

- 2 -

O que faz um sábado feliz?
Cidade alta, ladeiras, cerveja, fotografias frustradas, pontos turísticos, duas tapiocas com coca-cola, arquitetura, complexos, batuque, casas antigas, sorvete azedo, mais conversas, melancolia produtiva, beleza e estética, planos, meio-fio, montmartre, crepe, ajuda profissional?, motivação, conversas, conversas, conversas.

Bifurcação.

- 3 -

O que construímos nos nossos dias...
O que você quer ser quando morrer?

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Anúncio

Procuram-se novos referenciais de vida. Pessoas que tenham o indubitável poder de tornar nossos atos menos sem sentido, nossas possibilidades mais concretas, nossas capacidades mais inigualáveis e a realização dos nossos sonhos mais plausível. Tais referências não precisam, para tanto, de muita consistência: basta que nos convençam. Afinal, como todas as outras, estas também deixarão, mesmo, de ser referências quando forem conhecidas a fundo e abandonarem sua condição de estereótipos para serem, enfim, humanos, com todos os seus defeitos e a sua própria necessidade de modelos a seguir.
Na falta destas, um ídolo serve. Com todas as concessões que o rótulo exige.
Artistas? De preferência. Esse negócio de ficar lendo entrevista de executivo e achar o máximo tem um quê de decadência. Políticos também são aceitos, desde que possuam algum apreço pela estética e pelo abstrato.
O que importa é a influência. O que importa é facilitar. Porque esse negócio de objetivar a vida de modo claro e consistente dá um trabalho...


P.S. A propósito: já está na hora de começar o ano, não é mesmo?

sábado, janeiro 22, 2005

I'm Only Sleeping - The Beatles

When I wake up early in the morning
Lift my head, I'm still yawning
When I'm in the middle of a dream
Stay in bed, float upstream

Please don't wake me
No don't shake me
Leave me where I am
I'm only sleeping

Everybody seems to think I'm lazy
I don't mind, I think they're crazy
Running everywhere at such a speed
Till they find there's no need

Please don't spoil my day
I'm miles away
And after all
I'm only sleeping

Keeping an eye on the world going by my window
Taking my time

Lying there and staring at the ceiling
Waiting for that sleepy feeling

quarta-feira, janeiro 19, 2005

De minha silenciosa e inconsolável ambigüidade...

É com simulada destreza que me movo através das horas. Dentre blocos de instantes desconexos retiro o mal argumento que sustenta meus passos. Incoerente é a minha forma de agir: lógica incerta encoberta pelo puro reflexo daquilo que me rodeia e é firme. Na dureza da sucessão de fatos encadeados, algo que desmente a mais livre crença infundada - aspirações se desmancham no que é cômodo, óbvio e brutalmente incisivo no homem.
Multiplicidade de incoerências maleáveis – e o que é humano sobrevive ao nó no estômago, acreditando que posso ser muitos e, ainda assim, individual em meus sonhos. Inconstância disfarçável que não se deixa espreitar: assumo muitas caras, mesmo que não sabendo mentir – tão fácil mentir quando todos aceitam a mentira, sem nervos!
No entanto, sabe-se. Eu não sou um deles. Não são roupas, não são amabilidades, técnicas, habilidades, falsas destrezas, forçosas virtudes: nada, a não ser um pacto, é capaz de omitir a velada distinção. Todo o resto é cinismo. Não tenho suas caras limpas, suas feições lineares, suas certezas futuras, sua odiada estabilidade. Por que não gritam? Serão incapazes de chorar ao menos pela única e incontornável certeza de ser? Serão também incapazes de rir um riso embriagadamente insano, patético e excessivo? Tão práticos na vida, tão retos, sem nenhuma curva, com seus problemas normais, seus defeitos normais, suas anormalidades – até essas, mesmo – tão normais?
Porque eu choro. Não aquele choro de portas cerradas, lenço na mão, lágrima enxuta com o canto do dedo: eu choro um choro público, descontrolado, que constrange o pudor subitamente em um ônibus, em uma esquina, e recusa-se a trancar em casa o seu desespero, e se o faz é com ódio, amargura e encontrando frestas por onde fugir para consolidar-se no que não se esconde. É também um choro forte, que arde as pálpebras, enfraquece os músculos e alivia a mente em doce cansaço - pretendida exaustão que inibe pensamentos, torna a expressão quieta, desabafada. E eu também rio: mas não o riso de canto de boca, de gargalhada bonita e sonora, de alegria sociável e plástica. É o riso que desfigura, lacrimeja os olhos, coloca sangue na testa e salta as veias do pescoço. Uma alegria mal-educada, exagerada e extrema.
É por tal instintiva natureza, espontânea e avulsa, que me sinto, à parte qualquer inegável privilégio, um indivíduo de pé crestado no barro, olhos baixos, certezas curvas, vaidades escassas, desejos simplórios e ásperos impulsos. No entanto sei que sou fraco – frágil, protegido, pouco sofrido e bastante agraciado pelas circunstâncias que me tornam parte de uma injusta exceção. Assim, no cerne desta contradição eu encontro, resignado, o meu papel. E quantas concessões! E quanta inibida impaciência! Mas como me faz falta, ainda, esta dureza, esta simplicidade, este pouco querer - pois sou reto e de aspecto sóbrio e, no entanto, me rasgo por dentro em contradições que são o mais puro fruto da inadequação.
Um dia houve algo no trabalho. Foi logo no início, e mencione-se que, ali, em todos os dias ganha-se um pouco em cinismo, hábito e pragmatismo. Mas houve um dia no trabalho em que uma senhora muito idosa se aproximou, cabelos armados em negra arapuca, corpo magro, feições murchas, criança puxada por um braço e a outra mão livre escondendo, suspensa, a boca balbuciante. Aproximou-se e a mim se dirigiu: falou de modo muito canhestro, inaudível, pequeno, inferior. Falou de modo tão incerto que parecia querer livrar-se de palavras que eram um fardo e, no entanto, mal as pronunciava. Inclinei-me o quanto pude, subitamente tocado pelo despertar da imediata cumplicidade que atinge, vez por outra, dois seres humanos que se compreendem, e foi com tamanho esforço e apaixonada veneração que, calmo e passivo, decifrei cada fonema proferido. E era tanta vergonha, tanta inferioridade naquela mão que segurava cada palavra, que seu corpo tremia, seus olhos se abriam em susto e seu porte ficava menor, à medida que era obrigada a repetir-me sua intenção, tão logo eu demonstrava minha absoluta incapacidade em compreende-la.
Poderia ter-lhe pedido que descobrisse os lábios, falasse mais alto, ou gentilmente tê-la induzido a aumentar seu tom de voz de modo a ser um pouco mais clara. Mas foi tal minha comoção com aquela simplicidade, aquele envergonhado e ingênuo pudor... Mais que isso: foi tamanha a minha vergonha por ter sido visto de modo superior, e maior ainda minha decepção por ver-me irremediavelmente distante e grandioso - embora tantas tivessem sido as vezes em que também me apavorei com a força das palavras e com o rosto indagante de quem me ouvia, e tantas as vezes também em que levei a mão à boca e repeti este mesmo gesto cabreiro no colégio, nas ruas e na minha vida, num irremediável constrangimento e timidez... Foi tal a minha comoção, enfim, que curvei-me o quanto pude, com total respeito e amarelo sorriso no rosto, para com esforço ouvir-lhe a pergunta.
Do alto da minha função, na minha postura forçadamente longilínea - incremento para a boa aparência que me exigem diariamente no trabalho, nas ruas, nos livros, nos dias, e que sei que não posso dar – vi uma parte daquilo a que aspiro tão distante! Um traço de simplicidade dos meus pais, da minha cidade, dos meus valores, tão irremediavelmente distantes, afogados em ambições, convívios, circunstâncias e pretensões diversas...
Senti os olhos úmidos, e uma vez mais quis pensar por que parecia que só eu era tão incapaz de resguardar-me à pública exposição, ao mostrar meus olhos brilhando pela mágoa, a tristeza e os esperançosos ideais que se frustraram na mediocridade de certas horas.
Quanto à senhora? Queria saber – mãos trêmulas - o que precisava fazer para conseguir um empréstimo de “mil real”. Disse-lhe que pegasse uma fichinha. Que mais poderia dizer? Tantas vezes eu também segurei com os dedos cada palavra, por medo, vergonha e sentimento de inferioridade diante daqueles que me olhavam! Mas ali era somente eu, minha gravata, minha distância... E ela que se dirigia à máquina, olhando-me com inestimável gratidão. Creio até que me chamou de meu filho, no seu modo muito verdadeiro de dizer obrigado.

domingo, janeiro 16, 2005

"E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão."
Clarice Lispector, Água viva

Curto e grosso, como eu mesmo, estes dias. Sem paciência para muitas firulas.
Depois volto e escrevo mais.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Fim do ano.
O não do início.
A cada dia um novo sim.
Mesmo que à recusa.

Fim do não.
Até o próximo fim-de-semana.
Ou sim.
Porque isto é só o começo.

“Eu sou feito o ladrão roubado pelo roubo que leva”

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Estas noites de domingo... Coração apertado, vontade de planos, tentativa de amenizar o compromisso, prolongar os minutos, desacelerar a noite, emergir. Silenciosa vigília, sonolenta espera, preocupações coexistindo em segundo plano, roteiros fracassados, responsabilidades, imobilidade do dia seguinte.
Estas noites de domingo, quando acabam...

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Acabou o alvoroço de fim de ano. Estamos quase em meados de janeiro e agora todos estão, oficialmente, fora do clima festivo que prevaleceu até a semana passada. Os enfeites, inclusive, estão sendo retirados - exceto pela minha vizinha que, se não me engano, apenas ontem se decidiu a enrolar um pisca-pisca na trepadeira que emoldura a porta do seu apartamento: coisa linda de se ver. :p
Do mesmo modo, outros aspectos da vida humana assumem sua forma cotidiana. Não se pode mais fazer promessas e tampouco dizer mentiras deslavadas (as juras de abandonar o álcool, as drogas, a compulsão sexual e o fumo incluídas), sob pena de o indivíduo realmente ser cobrado pelas suas palavras. Assim, também: comunicar planos irreais, traçar objetivos inalcançáveis e incapazes de perdurar depois da segunda-feira, declarar metas de austeridade financeira e pretensões de depósitos em poupança, proferir declarações de amor descaradamente inconsistentes – tudo ficou mais difícil e arriscado depois do dia de reis.
Àqueles cuja simpatia durou até a presente data, ficam os meus parabéns. No entanto, aviso-lhes que é hora também de deixar de lado os cumprimentos afetados, as mensagens orkutianas de mil caracteres desenhando estrelinhas, arvorezinhas de natal, corações, presépios do menino Jesus e afins; os arroubos católicos de evocação à paz de Cristo e à “benção do Senhor em nossas vidas”; as liquidações, saldões de balanço e queimas de estoque de tudo que é branco e tem escrito os dizeres “feliz 2005”; e, por fim, as ceias fartas cheias de peru, massas, arroz de forno e salpicões, promovendo a união dos semelhantes à mesa – embora tudo fique mais gostoso no dia seguinte, com o gostinho apurado pelo descanso e a inconfundível casquinha de comida requentada.
É neste clima de saudosismo que o presente blog se despede do espírito natalino e da alegria da renovação (que só durou um post, na verdade). Volto com o poema prometido há alguns dias, antes do início das festividades.
Pela noite de barulhos espaçados...
(Junho de 1929)

Pela noite de barulhos espaçados,
Neste silêncio que me livra do momento
E acentua a fraqueza do meu ser fatigadíssimo,
Eu me aproximo de mim mesmo
No espanto ignaro com que a gente se chega pra morte.

Meu espírito ringe cruzado por dores sem nexo,
Numa dor unida, tão violentamente física,
Que me sinto feito um joelho que dobrasse.
A luz excessiva do estúdio desmancha a carícia do objeto,
Um frio de vento vem que me pisa talqual um contacto,
Tudo me choca, me fere, uma angústia me leva,
Estou vivendo idéias que por si já são destinos, não escolho mais minhas visões.

A aparência é de calma, eu sei. Dir-se-ia que as nações vivem em paz...
Há um sono exausto de repouso em tudo,
E uma cega esperança, cantando benditos, esmola
Em favor dos homens algum bem que não virá...
Me sinto joelho. Há um arrependimento vasto em mim.
Eu digo que os séculos todos
Se atrasaram propositalmente no caminho,
Me esperaram, e puxo-os agora como boi fatal.
Me sinto culpado de milhões de séculos desumanos...
Milhões de séculos desumanos me fizeram, fizeram-te, irmã;
E pela noite de barulhos espaçados
Não quero escutar o conselho que desce dos arranhacéus do norte!
Eu sei que teremos um tempo de horror mais fecundo
Que as rapsódias da força e do dinheiro!

Será que nem uma arrebentação...
Os postos isolados das cidades
Se responderão em alarmas raivacentos,
Saídos das casas iguais e da incúria dos donos da vida.
Havemos de ver muitos manos passando a fronteira,
Haverá pão grátis muito duvidoso,
As salas de improviso se encherão de discussões apaixonadas
Mortas no dia seguinte em desastres que não sei quais.
Será tempo de esforço caudaloso,
Será humano e será também terribilísimo...
Só há-de haver mulheres que não serão mais nossas mulheres.
Os piás hão-de estar sem confiança catalogados na fila,
E os homens morrerão violentamente
Antes que chegue o tempo da velhice.

Mário de Andrade

quinta-feira, janeiro 06, 2005

"Across the morning sky,
all the birds are leaving,
Ah, how can they know it's time for them to go?
Before the winter fire,
We'll still be dreaming.
I do not count the time.
Who knows where the time goes?
Who knows where the time...
goes..."

...E quando eu voltar da rua, deixem a luz acesa pra que eu não me perca. O velho tapete no chão, pra tirar a poeira, e a porta destrancada, se possível. Só não me esperem acordado. Não me sinto mais "solto no mundo largo" nem "semeando o vento na minha cidade", mas ainda estou ganhando as ruas, embora estas pareçam, no momento, bem menos interessantes e acolhedoras. Mas deixem, sim, a luz acesa, para que persista aquele sentimento de que há um lugar aconchegante para onde eu possa voltar e onde eu caminhe com desenvoltura. E acima de tudo: não fiquem para trás. Todos nós já temos tão pouco... Tenhamos uns aos outros, na certeza de uma velada cumplicidade. E sigamos sem contar o tempo, pois é mais reconfortante crer que tudo segue uma ordem natural: a ordem dos pássaros, das águas, das rugas, das lágrimas e do ventre.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Acordei hoje cedo, às sete da manhã, já meio sem sono, mas resolvi dormir um pouco mais. Coloquei o despertador para as nove e cultivei, ainda assim, o velho vício dos “cinco minutos a mais”. Tolice, a minha. Não pode estar certa essa idéia de que o único motivo para acordar seja uma hora marcada e um compromisso. A prova dessa tolice veio ao finalmente levantar.
Ao longo dos anos, as pessoas incorporam à sua vida uma série de hábitos, pequenos rituais e íntimos prazeres que, se são decorrentes de suas vivências, nem por isso tornam-se mais explicáveis. Talvez o que explique mesmo tais particularidades é o fato de que a “máquina do mundo”, como no poema de Drummond, se abre e se mostra em momentos diferentes para cada um. Porque hoje, quando acordei, a sensação arcaica e indizível proporcionada pela chuva me deixou à janela por uns dois minutos, e não há nada que explique porque ela sempre muda não apenas meu humor, mas todo o meu estado de espírito.
Nem sei onde tudo começou. Na cidade de onde vim não chovia com muita freqüência, o que já atribuía ao fato um certo ineditismo. A temperatura também não era das mais agradáveis, e se há pessoas que desfrutam de um clima agradável o ano inteiro, há outras que se sentem convidadas a sair à rua e dar um passeio unicamente para aproveitar o “friozinho”.
Não é querendo dar uma de sertanejo fugido da seca, não, mas na rua do limoeiro a chuva não chegava tão fácil, e havia meses em que era quase um acontecimento. Daí, no mercantil do meu pai, à porta, via-se a água descendo ladeira abaixo, embolando-se toda, arrastando pedras do calçamento, com barulho, forma e movimento de pequeno riacho. A maioria das crianças se espojava na água, deitando-se na “correnteza”, tomando banho nas bicas das casas, correndo, abrindo a boca e deixando a água entrar – e tudo era saudavelmente divertido. Outros, na maior parte das vezes, jogavam pedrinhas e caroços de feijão ou milho para verem a superfície da água se estilhaçar, ou então depositavam pequenos objetos planos que desciam como barquinhos ladeira abaixo – para onde iam? Eram vários os objetos lançados, mas nada comparado à atitude revoltante de alguns adultos, mal-educadamente jogando sacos de lixo para serem levados pela correnteza – ação quase sempre revoltante para mim, a não ser quando me permitia acreditar que eles tinham a mesma ingenuidade de não pensar no destino daquelas águas – porque, àquela altura, eu ainda pensava que elas corriam para sempre. Ou melhor, não pensava nada: não havia preocupações ambientais nem conhecimentos sanitários - só alegria de uma criança quando nada pergunta. Tudo, pois, em alguns momentos parecia existir, simplesmente, a despeito de qualquer relação de causa e efeito.
Quando a chuva era à noite, então, deitava-se com o barulho das águas, e os meninos do interior que eram, no entanto, já urbanamente frustrados pela sucessão pouco atraente de casas, ruas e nada mais, podiam, finalmente, esquecer onde estavam e dormir jurando que ouviam os sons de um pequeno rio. Nessas horas, de olho fechado, falta de saneamento era beleza natural.
Hoje, ainda, deitar-se ao som da chuva torna as noites mais agradáveis, do mesmo modo que acordar com seus sons, desfrutar da temperatura agradável e sair à rua em meio a uma paisagem subitamente modificada pela água dá aos dias um aspecto que só pode ser explicado – mesmo assim de forma bastante pobre – como um inconfundível ar de feriado. Mais que isso: com a chuva, a vida parece envolver-se em mistério, densidade e leveza. Pois coisas estranhas acontecem o tempo inteiro: quer chovam sapos, magnólias ou águas com sabor de passado.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Sete dias sem escrever. Penso que as últimas semanas foram como uma catarse. Tempo de chorar, de rir e, acima de tudo, de engatinhar um pouquinho no aprendizado daquela habilidade tão adulta de driblar a tristeza com a compensação, prolongar a alegria com a sensibilidade e os sentidos aguçados, disciplinar-se nos exercícios do silêncio e da palavra, da quietude e da euforia, da urgência e da contemplação.
Hoje é dia de escrever coisas bonitas: sou avesso a comemorações pomposas, palavras de fraternidade elegantemente distantes, abraços e beijos neutros e superstições desacreditadas, embora sempre repetidas. Sou, no entanto, adepto das linhas, dos marcos e de certos simbolismos internos (mesmo que pouco tenham a ver com tradições ou calendários). De todo modo, aceito este dia como o fim de algo bom, comovente, vivo, intenso. Aceito este dia como uma vírgula nas minhas experiências atribuladas, nos sonhos que descobri serem espantosamente realizáveis e naqueles que ainda se resguardam, inconsistentes e incertos.
Ver o tempo assim, em bloco, tem o seu valor. E encho-me de felicidade em perceber que somando e subtraindo as horas ao longo desses doze meses reafirmo, por um cálculo absurdo e inconcebível, de tão subjetivo, que este foi um ano único para se viver – e embora tenha medo de esquecer muitos destes instantes, sei que a maioria preservarei, mesmo que de forma sutil; mesmo que não os revisite na memória, cotidianamente.
É fim de ano e não sei o que dizer - mas também não tem muita importância. Amanhã haverá mais horas que se devem somar à nossa essência - ou serem descontadas dos nossos anos de vida, como queiram!
Deixo então ao menos dois fragmentos do que foi e do que ainda será, nestes muitos outros dias que virão...








Amor de loca juventud – Buena Vista social club

Mueren ya las ilusiones del ayer
que sacié con lujurioso amor
Y mueren también con sus promesas crueles
la inspiración que un día le brindé
Con candor el alma entera yo le di
pensando en nuestro idilio consagrar
Sin pensar que ella lo que buscaba en mí
era le amor de loca juventud.


sexta-feira, dezembro 24, 2004

Troquei a casa vazia de ontem por conversas existencialistas na cozinha, hoje, o que considero sobretudo inesperado – e momentaneamente animador.
Na verdade, só a idéia de sair um pouco daqui já torna os dias que se seguem mais alegres - tão fácil mudar as perspectivas depois que resolvi deixar a cidade em uma viagem relâmpago! Decidi deixar qualquer constatação para mais tarde e embarco rumo ao regaço familiar, permeado de conforto acolhedor, embora inevitavelmente distante. Vou assim para a terra onde penso menos, ambiciono menos e, no entanto, sublimo meu olhar tornando-o, uma vez mais, sensível ao que me cerca, no simples e ancestral entendimento que me aproxima da real dimensão de minhas dificuldades.
Há aqui um poema enorme e bonito, embora melancólico, que gostaria de compartilhar mas deixo para outra oportunidade, caso contrário esse blog desandaria de vez, necessitado que está de um contraponto para os excessos do dia anterior.
Ficam, então, outros versos - de força, simples e poderosos - mantendo suspensa a minha volta:

“... os que esperam, os que perdem
o motivo, os que emudecem,
os que ignoram, os que ocultam
a dor, os que desfalecem

os que continuam, os
que duvidam... Coração,
Afirma, afirma e te abrasa
Pelas milícias do não!”

Mário de Andrade, em Lira Paulistana

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Rosário

Pergunto-me como cheguei a este ponto: a minha lista de intenções está repleta de linhas brancas. Levanto-me de súbito e o meu ambiente levemente particular, onde me deixo estar sem calma, está escuro. Aqui ninguém me veria. Aqui é o lugar do esforço, onde só o interesse é capaz de me fazer alcançar, só a indagação pode perscrutar o isolamento e o distante apenas com uma pergunta pode fazer-se solidário - mas ninguém pergunta nada. Fez-se o escuro para preservar a espera, a dormência: para o cansaço, é tarde às nove horas da noite. A luz deita-se então e forra, com pesar, um lamento que não ousa existir além da sua possibilidade. Quem poderia ver-me, pois - mesmo que sem dúvida ou curiosidade aparente, acostumada a saber-me a existência - dorme.

Eu não. Eu não durmo ainda. Esforço-me para ler, cochilo um pouco, perco. Negando-lhe a derrota, no entanto, espanto do corpo o esmorecimento com um banho frio, reativo as idéias, depois escrevo. Para que escrevo? Antes havia uma certa desculpa cínica de procurar a resposta, ordenar idéias e concluir, mesmo com pensamentos inconclusos. Hoje, cansado demais que estou para ao menos pensar ou esboçar iniciativas de raciocínio a respeito desta recorrente insatisfação de desconhecida intensidade, causa e efeito, reduzo meu esforço textual a mera masturbação expressiva, em um prazer sempre solitário mas agora, além de tudo, deliberadamente inútil.

Caso contrário, o que falaria? Se há manhãs em que a simples intenção de acordar parece despropositada e todas as horas seguintes prometem-se estéreis e brancas como minhas linhas de intenções, o que escreverei? Talvez por isso se sobressaiam aqueles instantes em que as motivações tornam-se claras e grandiosas em sua verdade natural (e digo natural não como expressão do espontâneo, mas como algo tão integrado à vida quanto o é a própria natureza, como são as verdades inexplicáveis do nascer e do morrer). Sim, tal compreensão da alegria do ver-nascer, de descobrir novos seres no mundo, seres que crescem e mudam, amores que nascem e se desfazem quando a paixão pela vida se faz maior que o estabelecido na certeza do presente, personalidades inconstantes, caminhos mal traçados, enfim, parece até que observar tudo isto - mero ato de figuração e construção ausente - já vale a pena. Saber de uma criança nascendo e, acima de tudo, perceber a felicidade que esta pequena notícia desperta em todos ao meu redor; entender-me como alguém que pode vê-la crescer; concluir que sua vida será uma dádiva e que eu, de certa forma, a testemunharei - tudo isso traz um sentido vegetal e orgânico, um forte motivo que desmente a razão e justifica, por uma lógica macroscópica e impiedosamente distanciada, a necessidade de suportar a sucessão de dias iguais.

E no entanto é, ainda, muito pouco. A opressão das horas nos faz mais egoístas e insistimos na recusa de sermos apenas coadjuvantes, narradores de histórias alheias, ainda que intrinsecamente unidas à nossa. Esgarçamos as motivações à procura de uma verdade nossa e nos deparamos com verdades misteriosas, alheias e imutáveis, e certezas que nos punem, a despeito de qualquer explicação.

Por isso pergunto-me, uma vez mais, como cheguei a este ponto. Um instante em que não me faço entender, em que precisaria abrir mão do meu último movimento de busca em nome da preservação de doces atenuantes. Por isso eu sigo, também, nesse exercício de espera: rosário de pensamentos rezado em contas, sozinho, com leves murmúrios de lábios. Rosário desfiado repetidamente com uma fé sem paixão, institucionalizada pelo hábito.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Eu queria escrever uma história. Uma história que começasse agora, sem um grande marco inicial nem um evento decisivo, definido, característico da mudança ou determinante na quebra temporal que possibilita o início. Seria apenas um instante, mais um ponto na cronologia de fatos consecutivos e incertos, mas um ponto repleto de vontade e certeza, não a certeza idealizada do que vai acontecer, mas do que hoje é. Para este começo, não far-se-ia necessária sequer uma ação, apenas uma atitude, um olhar diferente, uma sensação que nem se sabe de quê entreabrindo leveza e vontade novas, insuspeitas, reveladoras e que sutilmente transformam.
Nessa história, alguns instantes denotariam um gosto duvidoso, talvez, já que nem tudo o que seria contado teria muito nexo. Seriam fatos improváveis, atitudes destoantes, centenas de milhares de movimentos bruscos desembocando na mais fina imobilidade, no mais rígido silêncio e quietude. Fatos sem clímax, revelações sem propósito, reviravoltas levando a lugar algum que não a manhã seguinte...
Diria ainda que meus personagens não teriam muita credibilidade; dispensariam qualquer admiração persistente, qualquer aparência equivocada, qualquer calma superficial ou suposta inteligência; a sensibilidade aguçada também seria desmentida em seus atos, na medida em que teriam preguiça, anestésicos e mesquinhez, medo e paradigmas; desmentiriam também sua refinada emoção com lágrimas piegas e crises rasteiras; rejeitariam inconscientemente seu suposto talento, sua convocada sorte, seu destino prometido; mas seriam verdadeiros.
Também digo que seriam bons. Bons, humanos e ousados, porque garanto que os construiria sem modéstia e os faria detentores de uma loucura só comprovável pela sua insistente crença nos sentimentos, na poesia, na estética, no amor, e por aquela estupidamente ingênua persistência em escavar um pouco mais sua dor à procura de algo de extraordinário em suas vidas.
E digo mais: construi-los-ia com tamanha vontade que seriam eles capazes de atitudes impensáveis. Então daria à história tons de fábula: porque eles seriam tolerantes com diferenças, espontâneos na sua forma de agir, pródigos em sua assumida imprudência, eternos em sua inquieta juventude, sinceros na sua raiva e cautelosos em todos os julgamentos. Um pouco fracos de espírito, admito. Todos meio sem vontade, alheios, e o próprio enredo de suas vidas perdendo-se, por vezes, em seus objetivos, criando significados inconsistentes, dando voltas, idas e vindas, a narrativa estagnando, de quando em quando, para logo depois se reerguer, num sobressalto.
Escancarariam suas incongruências, suas fraquezas, desmentiriam com seus atos a reconfortante porém equivocada admiração alheia e perceberiam que com isso a cada dia ficariam mais leves, porque prometeriam menos, e deles não muito poder-se-ia esperar.
Assim construiria uma história, e não seria diferente da história de qualquer ser humano. Mas seria, ainda assim, uma nova, esperançosa e urgente tentativa de pensar o indecifrável sentimento de liberdade e avulso pertencimento.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Recebido o resultado do segundo trabalho de Estratégia de Marketing - no qual, devo confessar, nem sequer tomei parte - considero-me, de fato, formado. Oficialmente, só com a colação de grau, em janeiro.
Expressar em uma palavra o que isso significa? Alívio, diria. Assistir às aulas há muito havia se tornado um suplício, pois considero no mínimo incômodo assistir a uma aula quando nada se espera dela, quando não há a menor avidez pelo conhecimento e pelas informações por ela transmitidas. Além disso, com o afastamento natural – e sobretudo inevitável, diria - das atividades extra-classe, não restava mais muito a prender-me àquele ambiente, durante cinco anos freqüentado e, por que não dizer, intensamente vivido.
Há, no entanto, além do alívio, uma sensação difícil de exprimir. Não apenas a sensação intraduzível proporcionada pela mudança, pelo novo, mas também uma “alfinetada” inexplicável e - principalmente agora, depois da quase confirmação de um esperado e indiscutível desfecho para o que um dia foi plano de conquista e reinício e uma inegável pretensão de freqüentar ainda os bancos acadêmicos - há, enfim, em tudo isso, talvez, uma falta de algo que não mais haverá, de um aprendizado e um convívio pelo menos por enquanto abandonados. Uma preocupação de que nos próximos meses não se aprenda tanto e as atividades sejam menos múltiplas.
Posso dizer com orgulho, no entanto, que ao formar-me deixo não apenas de ser graduando, mas, sobretudo, deixo de fazer parte de uma comunidade. E que felicidade poder dizer que pude realmente conhecer o que significa fazer parte da conhecida – e muitas vezes estereotipada, idealizada, venerada e atacada – comunidade acadêmica da UPE.
Minto: há mais que felicidade... Há um sentimento “que está cá dentro e não quer sair”...

“Mas a poesia deste momento
Inunda a minha vida inteira”

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Resolvi “desmudar” o que já estava mudado. A partir de agora, este blog volta a se chamar Lost in solitude. Poderia enumerar diversas explicações para isso, mas os motivos se resumem a dois, e são bem simples.
Primeiro: desde que nasceu, este espaço sofreu de dupla personalidade, ora se reconhecendo como uma referência à estima pessoal por certos sentimentos anacrônicos herdados de um estado de deslocamento constante e por um apreço a valores “arcaicos” - podendo ser estes encarados como ultrapassados, importantes ou simplesmente excêntricos - ora como o sentimento solitário contido nas palavras não-compartilhadas e a expressão tímida de pensamentos inconfessados ou não-articulados em sons durante as conversas cotidianas. Ocorre que, depois da mudança de título feita há semanas atrás, tal espaço virou – para simplificar a história - uma zona! Na maioria dos outros blogs em que é mencionado, os links estão com o nome antigo, no contador t-extreme está lá o mesmo nome de antes e, o que para mim pareceu a gota d’água: minha própria pasta de rascunhos para possíveis posts futuros ainda se chama Lost in solitude! Imaginando que tripla personalidade já é um pouco demais até mesmo para um blog que tem lá seus momentos de sincera esquizofrenia, considerei sensato deixar tudo como estava antes.
Segundo motivo: eu simplesmente não me acostumei ao novo nome e achava esquisito toda vez que o via – cheio de palavras compridas, consoantes, e sei lá mais que motivos subjetivos e ilógicos que me fizeram antipatizar com ele, tão logo o publiquei no alto do meu insosso template...
Quanto a ele, ainda (o “ex-novo-nome”), tirei-o de um aforismo de Nietzche. Achei-o interessante, e como já pensava em dar novo título ao blog, por achar “Lost in solitude” um título pedante, americanizado e tristonho (embora a intenção tenha sido das melhores, como deixei claro no segundo post que publiquei aqui, explicando-o) resolvi efetivar a mudança, que agora desfaço. No entanto, pra não passar batido, deixo um trecho da relevante consideração de Nietzche:

“Assim como não apenas a idade adulta, mas também a juventude e a infância têm valor em si, não devendo ser estimadas tão-só como pontes e passagens, do mesmo modo têm seu valor os pensamentos inacabados.”

O que ele diz não é nada demais, mas ainda assim acho que estas suas palavras justificam um pouco a existência de tantos blogs cheios de rascunhos - às vezes até um pouco preguiçosos - de contos, crônicas, poesias e reflexões íntimas...

sábado, dezembro 11, 2004

Tem uma frase dita no filme "O fabuloso destino de Amélie Poulain" que eu não lembro exatamente, mas que é algo como: "Quando um dedo aponta para o céu, só um idiota olha para o dedo!"
Quanta verdade pode haver em uma única frase... E quantos idiotas existem a olhar insistentemente para um mísero dedo, por falta de consciência da real dimensão do que os rodeia ou simplesmente pela falta de habilidade em fazer diferente e buscar uma maior abrangência para sua visão.

Ou como disse certa vez um colega de trabalho, em uma das tardes no meu antigo estágio: "Não se pode ficar assim, 'aleotariamente' esperando que as coisas aconteçam por si mesmas..."

Ou ainda, já que hoje estou cheio de aspas: "Você não soube escolher - foi escolhido."

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Today's The Day - Aimee Mann

Better pack your bags and run
or stay until the job is done
or maybe you can sit and hope
that providence will fray the rope
and sink like a stone
or go it alone

And isn't it enough - for you?
isn't it enough?

So better pack your bags and run
and send it to oblivion
where you don't look like anyone
that anyone would care about
and do what you do
'til it buries you

and isn't it enough - for you?
isn't it enough?

And baby - isn't it enough?
like major reno at the bluff
wondering aloud if help is on the way
and baby, isn't this your chance
to make a break with circumstance
isn't it enough to prove today's the day?
isn't it enough to prove today's the day?

Minha mãe que não é besta já dizia: ninguém morre de amor - o que mata é raiva e preocupação. E eu que tenho um jeito estranho de ficar preocupado, passo o dia até com uma aparente tranqüilidade, mas quando durmo... aí é que o bicho pega.
Eu, por exemplo, só descobri que tava preocupado com o vestibular essa semana, quando passei uma noite inteira sonhando que tinha um bloqueio e não conseguia fazer a redação, no primeiro dia de provas. Passei então a noite nessa agonia, vendo o tempo passar, o momento em que as provas seriam recolhidas chegar e nada de conseguir produzir uma linha sequer.
Isso acontecer não é novidade, uma vez que há tempos já sei que tenho uma coisa chamada subconsciente bastante desenvolvida, de modo que tudo o que não somatizo – o que é comum, no meu caso – fica sendo remoído sem que eu mesmo note.
O cúmulo, no entanto, foi hoje de manhã passar o tempo todo sonhando com aberturas de contas, clientes, gravatas. E eu que ri quando me disseram que nos primeiros dias de trabalho era comum se apavorar com o excesso de informações, a ponto de sonhar com o banco... E eu que ri, achando que era besteira... Só pode ser praga de chefe, isso – porque praga de chefe pega!
Mas enfim: isso explica minha pouca disposição para escrever aqui. Minha semana tem estado insuportavelmente voltada para a produtividade e o pragmatismo. Por outro lado, meus dias de folga – leia-se fins-de-semana e feriados – têm sido bem improdutivos, pois talvez pelos motivos citados acima, eu tenho estado levemente vulnerável aos efeitos do lazer despreocupado. Resultado: as noites de sexta, sábado e pré-feriados estão consagradas ao desbunde total e à filosofia de vida do original olinda style (o tal do “pode me chamar que eu vou...”) e os dias subseqüentes, por sua vez, estão consagrados ao mais deprimente malefício do álcool e do fumo: a ressaca!

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Achei um post perdido na minha pasta de escritos, anotações e afins, no computador. Um post que na verdade é a junção de um texto escrito há bastante tempo – final de 2002, acho – e um comentário a respeito desse texto.
Trata-se na verdade de uma pequena reflexão a respeito do prazer em ouvir, em conhecer, compartilhar... Também é sobre as dúvidas que envolvem as reais intenções e motivações humanas no convívio cotidiano e, acima de tudo: sobre como um ponto de vista pode mudar à medida que se escreve um texto, a ponto de inviabilizar sua conclusão, e sobre como um coração pode amolecer enquanto se escreve, substituindo uma visão momentaneamente cínica pelo mais puro reconhecimento – que ainda hoje preservo, ainda bem – de como é bom ouvir, compartilhar, voltar-se um pouco para fora, para quem está por perto...
Segue o post "encalhado"...
Projeção

Ah, o altruísmo! A necessidade de ajudar os outros, a satisfação de se sentir bem com sua humilde contribuição para o sucesso ou a felicidade do próximo! Durante toda a nossa existência, buscamos acreditar que nossos atos são importantes e podem fazer a diferença na vida de outras pessoas. Como uma fuga à volatilidade dos nossos dias, realizamos ações que possam ter desdobramentos futuros na história de alguém. Quando interferimos no curso de uma pessoa, imprimindo a nossa marca pessoal, contribuindo com nossos conselhos, nossas idéias ou simplesmente nossa boa vontade, acreditamos que podemos, dessa forma, justificar nossa própria existência e nos sentimos mais próximos da idéia de uma coletividade, concretizando mensagens edificantes de importância para o próximo e de convivência fraterna.
A verdade é que, se somos impotentes, incapazes de solucionar os nossos problemas, tampouco temos as respostas para os dilemas e questionamentos daqueles que nos rodeiam. Compartilhamos, assim, em uma cumplicidade tácita, nossos anseios e, incapazes que somos de expressar os sentimentos que nos afligem, encontramos um consolo na simples convivência, na proximidade incômoda, na identificação recíproca e não-revelada. Sentamos lado-a-lado e, calados, agradecemos pela presença reconfortante de quem admiramos em silêncio.

...

Esse é um texto que escrevi há bastante tempo atrás, logo depois que entrei no DA, levado pela reflexão a respeito do que significava contar com os outros, ajuda-los, compartilhar experiências, momentos de aprendizado intenso, mudanças e emoções à flor da pele.
No dia em que o escrevi, no entanto, e nem lembro mais porquê, a intenção inicial era ser irônico, talvez porque naquele instante acreditasse que essa vontade desmedida de ajudar os outros, compartilhar sentimentos, falar e ouvir, era movida muito mais por uma necessidade de auto-afirmação, de sentir-se importante para os outros, de tornar-se especial naquele momento para os que indubitavelmente estavam, em contrapartida, tornando-se especiais para mim e transformando-me, do que realmente pela preocupação com o outro, com seus dilemas, dúvidas, questionamentos...
O fato é que o texto ficou interminado... Mais que isso: seu propósito inicial foi frustrado. Isto porque, à medida que escrevia, lembrava da importância daquelas pessoas, da admiração que sentia por elas, do respeito, do carinho e da gratidão que julguei - e ainda julgo - eternos. No caminho que segui na construção desse texto, desde o início até onde parei, portanto, as palavras foram mudando seu rumo, para enfim revelar nas últimas linhas que, na verdade, o que existia eram todos esses bons sentimentos não-ditos, velados, e era a espontânea convivência diária que concretizava, justamente com sua leveza, toda a profundidade dessa aproximação, desse afeto.
Conclui ao final que a busca pela auto-afirmação existia, portanto, mas o que movia aquela necessidade de contribuir para a existência dos outros era realmente aquilo que chamam de altruísmo, não no sentido irônico inicialmente pretendido, mas naquele sentido tão pessoal que pautou meu entendimento... Para mim, altruísmo acabou se revelando, pois, como o dom de reconhecer a importância dos outros em sua vida e de acreditar na urgência de ter os olhos abertos à intensidade de cada momento vivido, para cada um...
O título, assim, chamado maldosamente de “projeção” para levar a idéia de que, quando olhavam para os problemas dos outros, as pessoas acabavam apenas enxergando a si próprias, não maculou a imagem final que surgiu à minha mente e que encerrou o texto: duas pessoas que se admiravam mutuamente, sentadas lado a lado, em silêncio, mesmo que as palavras engasgassem e o pudor rejeitasse o diálogo.
Experiências coletivas sempre são difíceis, pois na maioria das vezes, mesmo que inadvertidamente, crescemos unicamente como indivíduos, ao nosso jeito, avulsos... E que choque que é de repente contar com o outro, ouvi-lo, conviver, divergir e conciliar! Mas a recompensa dos que se permitem serem seres plurais... ah!, essa, só quem teve a ousadia de encarar “a face do outro, ao meio-dia, como um enigma”, sabe o que isso significa...