quarta-feira, fevereiro 07, 2007

e nana dança...

Duas cenas têm sido recorrentes em meus pensamentos, nos últimos dias – algo como uma tradução imagética para alguns sentimentos. Coincidentemente, ambas são protagonizadas por mulheres. A primeira delas é recente: Hermila e sua amiga se refrescam à porta da geladeira no novo filme de Karim Ainouz, O céu de Suely. No entanto, nada mais óbvio: que recifense pobre não tem sentido vontade de literalmente entrar em uma geladeira nesses dias de calor infernal?

A outra é de um filme de Jean-Luc Godard, dividido em doze atos. Em um deles, a prostituta Nana, que acompanha seu cafetão em um encontro, durante o seu “dia livre”, está entediada. Vai até a radiola de ficha e coloca uma música: ela sabe que precisará se divertir sozinha. O nome da cena? Se não me engano, algo como “a felicidade não é engraçada”.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

trinta

Em uma coisa, pelo menos, eu concordei com o Banco do Brasil: seu marketing de fim de ano, que está construído sobre a idéia de que “a vida é feita de pequenas contagens regressivas”. Aliás, não deixa de ser uma ironia que eu tenha dado o ar da graça por estes dias trajando uma camiseta com estes dizeres oficiais, no meu trabalho. A minha contagem começou oficialmente, hoje, e vai de 30 a 1. Depois disso, para o bem ou para o mal, muita coisa muda em minha vida, e é com muito otimismo que eu penso que, talvez, só por essa possibilidade que nos é dada de mudar o que está colocado em nosso entorno - as nossas condições de vida - precisamos celebrar a vida. A possibilidade da mudança, da libertação, do novo; o medo e a felicidade de descobrir o nosso poder de fazer grandes ou pequenas destruições, de saber que nossos gestos surtem efeitos mais ou menos perceptíveis e que, exatamente por isso, somos tão responsáveis por cada um deles.

Há bastante tempo eu deixei de rezar, mas há uma prece que eu nunca abandono: uma prece leiga, laica e torta que pede, a cada nova reviravolta, que elas não cessem nunca, que eu jamais encontre apenas o previsível, o esperado, a temível e sedutora “estabilidade”. E sei que há um preço alto a pagar por essa possibilidade das rupturas e recomeços: pois toda época tem algo de bom e de ruim, e não há nenhuma garantia de que o bem permaneça e que somente o indesejável se afaste. Podemos mesmo, vez por outra, perceber o tempo funcionando como uma peneira ao contrário, detendo o que nos fere e levando furtivamente o que nos é precioso. Mas faz parte do risco e da graça, para quem sabe jogar: pôr à prova o que há de bom, esperando o que está por vir e apostando no que é diferente, acreditando-o melhor. É também um ato de confiança e generosidade, este: renegar o indivíduo que somos hoje acreditando na nossa capacidade de sermos melhores; que o mundo nos trará novos presentes e não nos deixará de mãos vazias.

Engraçado mesmo, nisso tudo, é também perceber como tudo parece mais entusiasmante, fantástico e cheio de promessas quando imaginado em pleno desespero. Sim, pois os louros da vitória nunca são tão perceptíveis e gritantes quanto em nossos planos e fantasias: quando conseguimos mal podemos acreditar, e é tudo tão leve e sutil que, com um pouco menos de atenção e cuidado, quase podemos deixar passar em branco e esquecer o quanto nos custou e o quanto é importante. O medo e o condicionamento a que nos submetemos são tantos que só se pode explicar a vertigem e a cautela com que celebramos esta energia vital que surge das mudanças por meio das metáforas, como àquela a que recorreu Mari, ao lembrar dos bois que, mesmo depois de libertos, continuam andando em círculos ao redor do moinho que faziam movimentar, no filme Abril despedaçado. Estão soltos, mas só sabem andar em círculos, e lhes custa olhar para os lados e imaginar que podem fazer diferente, que só lhes basta mudar o passo.

A adrenalina de tomar uma decisão importante e saber que a responsabilidade é toda sua é uma espécie de “estresse bom”, como disse um amigo: a preocupação com as conseqüências que sobrevém a uma escolha definitiva; o friozinho e a vertigem que sentimos quando abrimos mão de algo importante e precisamos fazer valer a pena a escolha; e, acima de tudo, o imperativo pela criação de novas alternativas que façam frente às que irremediavelmente deixamos para trás.

Sim, não há dúvida: é o ano novo bem ali, logo depois do carnaval, mas desde já e sempre, em cada dia.

domingo, janeiro 07, 2007

o melhor do ano



Se em 2005 o melhor filme que eu vi nos cinemas foi aquele atentando terrorista chamado Caché, no ano passado eu penso que a melhor coisa que passou por aqui foi o novo filme de Wong Kar-Wai, 2046, que deixou muita gente embriagada de amor e suspirando pelos cantos, nos cinemas, nas ruas, nos bares e nos quartos, com sua própria viagem a um espaço/tempo distante e bem particular onde as memórias e as sensações amorosas estão vivas.
Eu tenho a impressão de que, da mesma forma que me coloquei em maus lençóis ao fazer de forma tão veemente a propaganda do filme de Haneke e mobilizando pessoas para irem ao cinema assistir - e colhendo as reações mais diversas depois - também poderei ter problemas com este aqui. Então aviso logo aos destemidos que as películas desse chinês estão sempre à beira da pieguice: é algo como uma embriaguez amorosa mesmo, uma exasperação dos sentidos, com direito até mesmo a algumas idéias repetidas à exaustão - como aquela do segredo soprado no buraco da danada da árvore - o que pode aporrinhar a paciência dos menos suscetíveis ao romantismo sem limites.
Vale ressaltar também que essa obra pode ser péssima para a saúde, principalmente se você está tentando largar o cigarro. Em 2046, fumar é uma experiência quase estética, acho - assim como em seu filme anterior, "Amor à flor da pele".
Na verdade, os filmes de Wong Kar-Wai são como um bom brega daqueles das antigas: ou você embarca na dor de cotovelo ou acha um exagero só, tudo aquilo. A maior prova disso é a presença inusitadíssima da música "Perfídia", na trilha do filme.
Não é pra qualquer um não, viu? É coisa pesada: bonita e romântica de doer.
Ai, ai...

sábado, janeiro 06, 2007

apelo

LAVÍNIA, COME BACK!

WE LOVE YOU!

sábado, dezembro 30, 2006

a confirmação de ontem

Tenho cá comigo a impressão de que Recife mofou.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

catarses coletivas, singelas cortesias globais

Em um certo dia, há pouco mais de dois anos, quem passasse pela estreita Rua do Lazer - lugar que agrega diversos estandes e barracas de alimentação e amplamente freqüentado pelos universitários que circulam pelos prédios e instalações da Universidade Católica de Pernambuco - testemunharia um inusitado evento certamente vivenciado em diversas outras partes da cidade e do país, tanto nos espaços públicos quanto no aconchego de milhões de lares brasileiros. Um público eufórico e radiante, digno dos grandes espetáculos desportivos de Copa do Mundo, se acotovelava, aglomerado, em frente aos televisores dos pequenos estabelecimentos dispostos pela rua, assistindo ao que seria o mais recente mega-acontecimento da grande mídia brasileira: um acerto de contas regado a muita porrada entre ninguém menos que Laura e Maria Clara, personagens arquetípicas (ou seriam estereotípicas?) que ocupavam os postos de “vilã” e “mocinha” na pedante novela Celebridade.

Aos gritos, urros e outras interjeições de euforia e espanto, os passantes disputavam, ávidos, cada centímetro quadrado em frente aos aparelhos, diante dos quais apenas vez por outra olhavam para os lados, mas sempre sorrindo, fazendo comentários, vibrando, quiçá desfiando apostas e palpites. Em uma experiência estranhamente coletiva, por meio da qual compartilhavam problematicamente seus desejos de superioridade e suas noções moralistas do bem e do mal, os presentes explicitavam seus códigos duvidosos de justiça em uma diferente roupagem, amparada em uma nova versão das convenções maniqueístas das narrativas nacionais, dessa vez assumindo alegremente a convicção de que os bonzinhos tinham mesmo era que sentar a porrada nas maléficas criaturas vilãs que habitam o caricatural reino do Projac.

Muito distante do ultrapassado conceito da mocinha ingênua e desafortunada que sofre quieta até o fim, a protagonista pop, fashion e umbiguista Maria Clara Diniz - do alto do poder já sugerido pelo seu ostensivo duplo-nome-próprio-e-sobrenome - mostra as suas garras e, para delírio do público, parte para o inusitado acerto de contas – por algum motivo obscuro do qual não cheguei a tomar conhecimento. Nesse encontro meticulosamente arquitetado pelos operários-padrão do mundo fantástico da Rede Globo – estes que, juntos, ajudam a incutir no imaginário popular a noção de um cotidiano delirante regado a praias, Leblon, pequenos luxos, grandes intrigas e uma inacreditavelmente pequena dose de trabalho e responsabilidade – não havia espaço para defesa, tampouco para uma disputa equilibrada: a atitude revanchista e descaradamente moralista de punir a diabólica personagem de Cláudia Abreu implicava na imobilização do alvo, na sucessão vertiginosa de golpes e, por fim, na demonstração ostensiva de poder que se caracterizaria como clímax da catarse coletiva, na qual nos é apresentada a imagem da cambaleante e surrada vilã, realçada com todas as cores fortes que uma violência selvagem e punitiva desenha no rosto de suas vítimas. Cláudia Abreu, de olho roxo e boca rasgada, sai de cena com a sensação de mais um dia cumprido.

Como no universo de valores e sentidos mercadologicamente legitimados tudo o que dá certo é reproduzido à exaustão, o pega-pra-capar novelístico que bateu recordes de audiência deu origem a um sem-número de acertos de contas produzidos em série e cada vez mais alimentados pela máquina auto-referente de programas televisivos, noticiários e impressos da indústria do fútil, tão próspera em nossas terras. Esta semana, eu estava no trânsito quando o rádio noticiou mais uma sessão de espancamento em horário nobre, cortesia do mestre dos barracos globais Manoel Carlos. Em breve, o locutor dizia, o mosca-morta Alex iria esbofetear a desumana – no sentido mais ridículo do termo – personagem de Lília Cabral. Assim, o momento-porrada que foi sempre ansiosamente aguardado e desfrutado por boa parte do público global se transformou em elemento obrigatório das novelas, repetido ad infinitum a cada nova produção. Nada disso chega a ser novo, de fato: a baixaria e a valorização do olho por olho são lugares-comuns em certos discursos midiáticos. A novidade é que, dado o seu grau de eficácia, a coisa se alastrou por todos os núcleos das novelas, de modo que até mesmo os coadjuvantes agora têm direito ao seu merecido duelo.

Cabem aqui duas questões. Em primeiro lugar, nos resta saber até quando os espectadores irão ver alguma graça nestes momentos-catarse em que empregados ofendidos, populações massacradas, cornos indignados e outros seres com motivos para revolta se sentirão verdadeiramente vingados ao testemunhar a “surra aos malvados” encenada em seus televisores. A segunda pergunta, mais sombria: o que virá depois, para saciar este senso de justiça que leva o acerto de contas para a esfera do privado e alimenta discursos fundamentalistas sobre bons e maus, definindo o tratamento destinado a estes últimos por cada indivíduo, em seu moralismo duvidoso que conecta justiça e desforra?

A lógica da repetição, fundamentada na reprodução das fórmulas de sucesso e potencializada pelas políticas de baixo risco que permeiam as tentativas no mercado televisivo de agradar ao seu público consumidor, transformam os eventos espetacularizados do horário nobre em uma sucessão de clichês fabricados e “grandes acontecimentos” redundantes. Estes continuam a render até que, por sua própria obviedade e natureza descartável, acabam por cansar até o mais passivo dos espectadores, sempre sedento por novas remessas de catarses coletivas. É assim que a fábrica global de compensações cria, recria e veicula suas fórmulas exaustivas - e, não raras vezes, sexistas -, desafiando a indulgente cumplicidade de seus fiéis interlocutores e transformando tudo em mercadorias de emoção barata: até uma “boa” surra.

domingo, dezembro 03, 2006

enquanto isso

“- Meu Deus, por que me abandonaste?
- Porque eu não existo."

quinta-feira, novembro 23, 2006

a-histórico

Recife ingressou em um tempo parado. Não sei há quanto tempo foi isso, e nem poderia saber, afinal, o tempo parou e, desde então, não se conta mais. Como pequena cápsula hermeticamente fechada, o apartamento onde vivo, no entanto, sofre descompassadamente a falta daquilo que chamam de “condições normais de temperatura e pressão”. O calor aqui é insuportável e os ouvidos, enganados, por vezes estalam reclamando uma altitude inexistente. Mas o tempo aqui não chega: está tudo suspenso. Aqui não há história, o telejornal é capricho e ficção, e não é que este dia seja igual a ontem: é que ele não parece dia, parece coisa que não se conta.
Olho pro aparelho de som e penso em escutar algo, mas não coloco nada. Poderia ser a velha indecisão de não saber o que ouvir, mas não: é falta de vontade mesmo. E aí me ocorreu essa associação engraçada: estou sem paciência para música, que é a arte temporal por definição. Seria coincidência ou eu realmente estou confortável e acomodado, circunscrito em um espaço sem sucessão de horas? E o espaço sem tempo, é o quê?
Tenho visto muitos filmes, mas isso é diferente: o filme é um instante irreal, meio passado, meio futuro, talvez imaginado, mas nunca um tempo concreto, histórico e vivo. É como uma amostra de fatos e instantes, que se pode viver, ainda que não vivendo, e que é feito de experiências que, não raro, podemos guardar pra mais tarde - para quando o relógio voltar a andar.
A parede da cápsula, voltada para o poente, emana um ar quente e doentio à tarde que molha as roupas e inviabiliza toda e qualquer tentativa de pensamento, refrescado apenas no artificialismo heróico da geladeira. Penso que nesses dias os recifenses ficam perambulando, enfraquecidos e fatigados pelo calor, até o momento em que se amontoam em camas impossíveis implorando vapores quentes dispersados pelo ventilador. Nesses dias a gente até se sente mesmo como o escritor daquele filme cubano: tropical e subdesenvolvido. Lembrei da afirmação dele, quando diz que se sente já velho e podre, e que deve ser porque tudo amadurece e apodrece muito rápido nos trópicos. Viver por estas bandas às vezes parece mesmo impossível, perecível. A cidade está realmente um inferno.



sábado, novembro 04, 2006

uma de menos

"o que importa, na verdade, é este instante entre tudo o que já foi e o que ainda será".

sábado, outubro 21, 2006

dois mundos

"No porão da minha cabeça dois gigantes se enfrentavam: de um lado, o gelo da covardia burguesa; do outro, na parte oposta do eu, cozinhava-se uma idéia herética.
No combate entre essas duas forças pendulava eu, horrorizado."

Tom Zé, Tropicalista lenta luta

quinta-feira, outubro 05, 2006

dos males, o primeiro que apareceu

Nada melhor para alguém meio idiota do que um idiota completo.

Ou pior - não decidi ainda.

segunda-feira, setembro 18, 2006

lucrecia

Fiquei mesmo tentando entender...
E estas tantas pessoas – inúmeras - que se encontram a ponto de explodir e, na maioria das vezes, "apenas implodem"?

O que explica...?

domingo, setembro 17, 2006

sexta-feira, setembro 15, 2006

quinta-feira, setembro 14, 2006

os afetos anônimos

Dentre as figuras exóticas que perambulam por aí, há os pertencentes a uma espécie de seita da qual fazem parte estes inusitados seguidores das pequenas sutilezas absurdas cotidianas: os paqueradores anônimos. Muito fora da esperança da retribuição, muito antes da possibilidade de um descobrir e um acontecer, o que existe é sobretudo o querer - e o imaginar. Estes seres dementes e evidentemente perturbados regozijam-se em considerar o ser humano como um complexo existir cheio de nuances, vontades, contradições e subjetividade - um mundo enlouquecedor de tão incoerente, dúbio e significativo - mas que ao mesmo tempo se revelaria ordinário e cruel em sua ação. Daí a plena certeza de que só o inconcluso e o não-revelado os resguarda dos malefícios de uma vida a dois, a três, a duzentos - enfim, da extrema habilidade humana e sua eficácia em esmagar sutilezas sensíveis.
Neste universo de fantasia e desespero, tudo que diz respeito ao outro-em-questão está absolutamente endereçado ao paquerador anônimo: os olhares são para ele, o corpo está levemente inclinado em sua direção, o braço, sutilmente afastado para liberar caminho e convidar à aproximação, o sorriso é permissivo e a conversa tem o único propósito de evidenciar a cumplicidade transcendental de repente descoberta e cheia de promessas. Todos os signos estão postos e devidamente interpretados de modo que o paquerador-esquizofrênico possa jurar, de pés juntos, que há alguma coisa de muito, muito, muito suspeita nas atitudes do outro, embora nada o demova da igual certeza na qual está desde sempre imerso de que um único gesto de proatividade sua seria suficiente para deixá-lo exposto ao equívoco, em uma situação na qual todas as evidências imediatamente se desvaneçam e o deixem a nu, doido, equivocado e acossado pelo "não-era-nada-disso".
Daí essa intrínseca contradição. Daí porque a paquera - cuja única função a priori não seria outra senão evidenciar interesses, abrir caminhos e convidar a possibilidades - nesta nova e quase inconcebível modalidade seja anônima, tenha como objeto final unicamente a viagem egóica da fantasia individual não-revelada, viagem esta que se realiza no sobressalto sensível de falsamente sentir-se descoberto - mesmo sem nunca se mostrar -, na vontade embaladora do encontro "casual", na espera e na ansiedade fadadas a apenas se realizarem na elucubração solitária. É isto: a apoteose do acaso, onde até a espontaneidade é simulada, onde os encontros são de mão única, onde até se vive, às vezes, toda uma história em comum sem o conhecimento e a anuência do destinatário destes afetos anônimos.

p.s. Porque eu estou percebendo as pessoas um pouco "embriagadas de amor", ultimamente (mesmo que amores de mentirinha...)

segunda-feira, setembro 11, 2006

terça-feira, setembro 05, 2006

o perigo iminente

Eu invento sonhos pré-moldados para mim - planos, estratagemas, discursos que vou dizendo mais para convencer a mim mesmo e suprir silêncios do que qualquer outra coisa - e agora fico morrendo de medo do momento em que as pessoas vão descobrir que eu na verdade sou uma fraude.

terça-feira, agosto 15, 2006

asas do desejo

Nós, que somos humanos, temos medo do fim, medo do efêmero, da conseqüência irreversível dos nossos atos sempre mudando o que é frágil, sempre prometendo “conseqüências sem volta”. Medo.
Os anjos nos sonham, sonham os homens e mulheres e suas possibilidades, sonham o agora em vez do para sempre e da eternidade, desejam dizer apenas um oh! ou um ah! em vez de um amém!. Os anjos, porque são anjos, vivem nossos sonhos e sonham nossas vidas, esperando sentir o gosto do sangue, o calor das mãos, a realidade no desejo e a incerteza da mortalidade. Os anjos, coitados, não vivem e não morrem. Apenas são. E nos acompanham e ajudam, por muito de misericórdia e bondade mas, também, – eu desconfio -, pra viver em nós um pouco de nossas vidas. Habitam os lugares silenciosos, ouvem nossos pensamentos e, ao contrário das almas dos espíritos dos malassombros e das aparições, não nos trazem medo, porque não aparecem - apenas estão, sempre.
Antes de vê-los na televisão eu já pensava que eles devem estar sempre nas bibliotecas, porque lá é o lugar do silêncio, lugar em que estamos sozinhos e o nosso pensamento se faz mais alto: para eles, para nós, para ninguém.
Eles sabem que para as crianças não existe morte, porque a preocupação ainda é pequena e todo momento é único. E, como crianças, querem a curiosidade e a vivacidade em cada instante, porque no tempo em que as crianças são crianças elas se interessam por tudo, e não apenas pelo que envolve trabalho.
Ela, Hannah Arendt, resumiu bem a distinção entre a imortalidade e a eternidade: o homem, porque mortal, faz a imortalidade em suas obras, seus feitos, suas palavras; mas só é eterno quando atinge o indizível, quando descobre a possibilidade da contemplação, a mais sublime atividade humana. Foi ela quem disse: “é isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. O homem é mortal, faz-se imortal pela ação e aspira ao eterno em seus sonhos, embora sempre sabendo da sua última hora. Por isso também quando Patrícia, em Acossado, de Godard, pergunta ao escritor: “qual a sua maior ambição?”, ele responde: “tornar-me imortal e, depois, morrer”.
Os anjos que são eternos nos sonham. Coitados dos anjos, não podem morrer. Mas fiquei na dúvida: seriam eles como as crianças? Afinal, os anjos perguntam?

“Quando a criança era criança,
Era a época dessas perguntas:
Por que eu sou Eu
E não Você?
Por que eu estou aqui e
por que não lá?
Quando começou o tempo
E onde termina o espaço?”

o anjo e a trapezista


domingo, julho 30, 2006

porque só roberto carlos mesmo pra gostar de domingo...

Ah, o domingo, o domingo... Você acorda logo cedo, tem aquela música bonita de Cartola tocando na sala, o cheiro bom de comida já tomando conta da cozinha, aquele ambiente familiar no qual as pessoas queridas aproveitam o merecido descanso, depois de uma semana de trabalho, pra tomar uma cervejinha, beliscar uns petiscos. Que coisa mais bucólica, singela, familiar...
Ah, a lembrança da noite anterior - porque se o domingo é um samba canção, o sábado à noite é, sem dúvida, um rock com batida eletrônica - a lembrança dos últimos fatos, a cabeça doendo, o vou-deitar-de-novo-que-passa, o cadê-o-sonridor. Depois, o desespero pós-cochilo, a dor de cabeça ainda ali, o desengano do "almoço que não é", a cumplicidade dos parentes, um que diz: "- toma um sonrisal", a outra retruca: "- um epocler", depois o cunhado, resoluto, sintetiza: "- dois xantinon, uma dipirona e um sonrisal, pronto, fica novo", mas a irmã também considerando as alternativas naturais: "- tome um chazinho de carqueja, fio", daí o outro muda de idéia e radicaliza: "- toma uma cervejinha aqui que passa", e eu: "- cala a boca, miserável, se tu sugerir isso de novo eu dou na tua cara!" Depois é só um fluxo de idéias desconexas: "- ai, minha cabeeeeeça", "- e os trabalhos da faculdade por fazer", "-mas eu não bebi quase nada, meu Deus" e a clássica: "- nunca mais eu bebo hoje"...
Pois é, caros amigos, chega um momento na vida do ser humano em que não tem jeito: é fim de carreira! Ah, a ressaca, a ressaca...

domingo, junho 18, 2006

os movimentos desejantes

As ruas de uma cidade como Recife são feitas de pequenos detalhes. Pode-se notá-los ou simplesmente ignorá-los, tão pequenos. Refiro-me não apenas ao ambiente - ou aos lugares, fisicamente. Mas às pessoas, principalmente às pessoas. É bom e estranho pensar que durante algum tempo há um contato tênue, delicado, entre a vida de um, em toda a sua singularidade, e a de outros. São pequenas cenas, pequenos momentos que se desencadeiam de forma ágil, dúbia e incompleta. São centenas, milhares de cenas, e nós escolhemos aquelas para as quais olhar, fazendo-as acontecer, de fato, para nós. Somos nós que escolhemos às quais daremos importância e que merecerão ser, por nós, mais bem pensadas.

É como diz o nome de um livro: "os movimentos desejantes da cidade". Este título - e o pouco que li dele, depois, curioso - sempre estão na minha cabeça. A cidade, sua arquitetura, seu ritmo, sua dinâmica própria de lógica obscura, é feita de vontades, buscas, desejos, caminhos que se cruzam para logo depois se perderem. Ou como dizem Rodrigo Carrero e Angela Prysthon: "os atalhos da pós-metrópole", feitos de acaso, cumplicidades efêmeras, relações frágeis que quase nunca duram o suficiente para dar chão e sentido aos seus inseguros habitantes.

Mas quem vive em uma pós-metrópole? Nós, recifenses? Uma amiga contou uma história ótima de uma família daqui que se reúne, ela toda, grande e cheia de agregados, aos domingos impreterivelmente. Há, pois, os de bases sólidas, relações duradouras e certezas. Há destes que quando andam na rua, acompanhados ou mesmo sós, em suas expressões, em seus rostos nós podemos ver que sabem para onde estão indo. Mas há os que protagonizam outras histórias, mais desconexas, mais inconclusas, e estes quase sempre deixam entrever um pouco mais de suas vidas - a expõem, a contragosto, porque não podem esconder que o caminho que seguem é incerto e parece inventado a cada passo. Estes também, invariavelmente, parecem estar apenas indo - e o "onde" parece sempre uma mera casualidade, sempre mais desimportante que o movimento de tipo tão próprio àqueles que desejam e buscam.

Hoje, por exemplo, pela segunda vez houve uma pessoa em uma parada de ônibus que ficou me perguntando o nome dos ônibus que passavam, e desta vez demorei um pouco menos pra entender que ela - como a outra, da primeira vez - na verdade não sabia ler. Nas duas vezes em que isso aconteceu eu fiquei tão perplexo com a situação que hesitei muito em subir no meu ônibus quando ele chegou - em dúvida se deveria ou não tomá-lo e deixar a pessoa lá, tendo que encontrar alguém mais que lhe indicasse os itinerários. Ainda hoje não tenho certeza se deveria ter ficado lá, lendo-lhe os letreiros até que o seu finalmente passasse, ou se não era para tanto - porque às vezes parece também uma questão de respeito e lucidez entender e aceitar a fragilidade desses encontros. Hoje também eu vi um senhor tendo que convencer, com muita dificuldade, um homem que estava no ônibus ao seu lado a descer com ele na parada - que também era a minha parada. O homem estava bêbado - poucos minutos antes eu o tinha visto dar um gigantesco gole em uma garrafa de vodka nathasha (minha cabeça doeu só de ver aquilo...). Deve ter sido arrastado para casa. Deve ser parente do senhor que a custo o pôs para fora do veículo. Ou, o que é mais provável: deve ser algo muito diferente do que eu imagino, o contexto real destes pequenos episódios urbanos.

Isso em apenas uma viagem de Nova Torre. Mas todos os dias é assim: cobradores e cobradoras cansados; transeuntes com o olhar longe; estudantes no fim do dia com seus livros, muito sono e pouca disposição pra estudar; senhoras que parecem não dar conta de sua tripla jornada de trabalho; pedintes; vendedores ambulantes; acidentados; falantes que sempre puxam conversa e às vezes contam boa parte de sua vida; uns outros que sempre dão um jeito de pôr em pauta o fracasso do time de futebol adversário; pessoas que se isolam nos últimos bancos do ônibus pra chorar; outras que andam rindo sozinhas; pessoas que flertam, que desejam, que esperam por encontros ou os forjam, sem romantismo; trabalhadores cansados, que terminam mais um dia igual a muitos outros; trabalhadores que sonham com descanso mas ainda assim levantam no dia seguinte, ainda moídos, prontos sabe-lá-deus-como para tudo de novo; os que andam com medo, na rua, olhando para todos os lados, sem descanso; os recém-chegados; os que estão partindo; os que levam malas; os que trazem bebês... A cidade é uma profusão de vidas desordenadas, e cada uma é um microuniverso, é uma possibilidade, é a soma de muitos fatos, é uma mistura de escolhas, impassividades, inércias e abnegações; é um rumo tomado em detrimento de todos os outros; é o que acontece, mesmo com - e apesar de - tudo o que poderia ter sido. É fascinante, cansativa e assustadora. Todas vidas com um propósito, mesmo que inventado. Todas querendo chegar ao fim do dia e, chegando, desejam algo de bom neste percurso. Algo de felicidade em suas horas. Querem ser, apenas isso. E ainda assim tão difícil...

Tal é a sacrificante e bela mistura de esperança e desengano que testemunhamos à medida que se faz acontecer, em doses diárias que apenas começam quando a luz do dia se evanesce. E eu lembrei do verso de Nathalia: "Agora, quero tudo que desejo".

sexta-feira, junho 09, 2006

a sempre difícil arte de ser liso e feliz

(O “valor arcaico” declara oficialmente aberta a temporada do “É de graça? Então tá valendo”).

Eu inventei uma hora do recreio aqui na Católica. Foi assim: no meio da noite eu comprei um pastel de um real e esse pequeno contrato com a menina da barraquinha me deu o direito de consumir o dobro disso, de graça, em catchup. No meu caminho de três ou quatro metros, durante a volta, escutei um casal que tinha acabado de comprar uma carteira de cigarros na banca de revistas dizendo: “- Vou acender um”. “– Eu também”. Como há dois minutos atrás eu tinha pensado no quanto seria bom fumar um cigarro naquela noite – e também porque a inveja foi muita – resolvi juntar os trocados e adquirir meu novo estoque.
Mais três passos e lembrei do famoso melhor café da rua e fui espiar: expresso, 1,30. Contei o resto dos trocados: 1,20. Pensei em pedir um desconto - ou então negociar: “1,20 mais uma agenda 2005, seminova”. No fim das contas acabei preferindo o copo de nescafé, 0,50, em outra barraquinha. (E isso é que é café instantâneo!) O fósforo, claro, o senhor do “nescafé expresso” deu de cortesia, pra acender o cigarro. “Coloca aqui perto que eu acendo. Esse fósforo tá safado demais, a caixa tá meio molhada... Oh, eu vou riscar, vê se dá tempo”. Não deu. Outra tentativa: nao. Demorou muito ate que eu percebesse o ridículo da cena e o convencesse a tentar sozinho. Foi de primeira.
O melhor: nessa hora da noite – também porque era uma sexta-feira – tinha mesa vazia na “rua do prazer”. E resumindo foi isso: um copo de café, um cigarro que deu ate pra dar um barato, um povo passando pra lá e pra cá, a mulher da mesa da frente comentando o frio, e eu que ainda lembrei de olhar pra cima vi que era lua cheia (se não era, tava parecendo). Não podia ser melhor. Ou podia. Ainda havia uma brisa fria remexendo as árvores, e eu descobri que em qualquer lugar, quando é quase-chuva, da pra ouvir o mar. Isso tudo durou bons cinco ou seis minutos. No bolso, sobraram ainda umas moedinhas chacoalhando.
Porque se pode inventar a felicidade ate mesmo (não) estudando em uma biblioteca na sexta-feira a noite.

P.S. Esse foi pra tu, Lavinia. :P